A escola após o isolamento social: novas formas de se relacionar

23 de julho de 2020

Este material foi produzido pelo LIV como a quarta etapa da Jornada do Selo Azul, que auxilia gestores e coordenadores no retorno à escola para que, além dos protocolos de proteção, haja um cuidado com a saúde mental de toda comunidade escolar, independente de quando essa volta aconteça.

Caso você ainda não esteja participando, inscreva-se e participe da Jornada completa para ganhar o Selo Azul que simboliza que a sua comunidade escolar reconhece a importância de um olhar consciente para o acolhimento e para a saúde mental na volta às aulas presenciais. Receba também um kit de materiais LIV para ambientação, possibilitando que todo o conhecimento seja replicado na própria estrutura da escola.

Se a sua escola já está participando, fique atento(a) a sua caixa de e-mails, pois iremos seguir essa jornada com você por lá!

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Ao longo das primeiras etapas da nossa Jornada do Selo Azul, nós falamos sobre os desafios do reencontro presencial e dos sentimentos trazidos à tona pelo momento que vivemos e que precisarão ser acolhidos no retorno presencial. Dando continuidade a esse debate, trazemos questões de extrema importância, como: de que forma podemos manter um olhar cuidadoso com a saúde mental e cuidar do luto neste período?

Para dar conta dessas temáticas, sugerimos que, antes de tudo, seja desenvolvida uma escuta e um olhar atento para as mudanças de comportamento de todos que estarão à nossa volta. É um momento em que estamos sendo convocados a reinventar nossas formas de nos relacionarmos, visto que teremos muitas indicações sanitárias sobre distanciamento.

Precisaremos também pensar no luto como um processo importante de ser elaborado e quebrar o tabu social que temos em falar sobre morte, pois mesmo os que não perderam entes queridos estão vivendo um momento de luto coletivo. Além de outras perdas e sofrimentos psíquicos que já nos rodeavam e que se intensificaram.

No vídeo a seguir, Joana London, psicóloga e gerente pedagógica do Laboratório Inteligência de Vida (LIV), traz algumas ideias práticas para trabalhar o tema na escola, baseadas no conteúdo do nosso Guia de Acolhimento LIV. Após o vídeo, o texto continua com uma entrevista exclusiva com a psicanalista e professora Fernanda Costa-Moura. Confira:


A relação humana com o luto

Falar sobre o luto, de modo geral, é um tanto espinhoso e delicado, talvez porque a nossa sociedade não tenha costume de falar sobre a morte e, muito menos, sobre o processo de perda. Contudo, de acordo com Fernanda Costa-Moura, psicanalista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o luto não está relacionado apenas à morte física de pessoas do nosso convívio, pois todos nós vivemos, ao longo da existência, ‘pequenos lutos’ ou ‘lutos parciais’ pelas mudanças que se apresentam em nosso cotidiano. “O luto atravessa tudo em nossa vida, desde as pequenas coisas. O crescimento, por exemplo, causa um luto pelas idades que não temos mais, pelo corpo que não temos mais, pelas pequenas coisas que mudam em nosso cotidiano com esse crescimento e que não temos controle”, explica.

Em entrevista ao LIV, Costa-Moura também destacou que a interpretação das crianças sobre o luto depende, primeiramente, de nossa própria relação, como adultos, com essa questão. “Seria interessante, por exemplo, se pudéssemos passar para a criança a ideia de aceitar o luto e as perdas, ainda que com tristeza, mas considerando que essas perdas também podem ajudar a nos mover. Se uma coisa não deu certo, ela causa um luto, mas pode ser uma ocasião para as pessoas reconstruírem suas vidas, se reorientarem. Nesse sentido, a perda faz parte de uma nova vida que o sujeito venha a desenvolver, e a pandemia trouxe essas questões à tona”.

Citando o psicanalista Sigmund Freud (1856 – 1959), Costa-Moura explicou ainda que a difícil relação que temos com o luto advém, em partes, de uma noção falsa de felicidade. “Muitas vezes pensamos que a felicidade é um estado que atingimos na vida e ficamos nele, ao passo que, segundo Freud, na vida a gente experimenta pequenos momentos de felicidade e satisfação que se intercalam com outros momentos nos quais estamos lutando ou enfrentando dificuldades. Ou seja, um não existe sem o outro, a gente tende a achar que existe uma felicidade isolada desses momentos difíceis”.

Nesse sentido, defendia o pai da psicanálise, os humanos estão em enfrentamento com três grandes dificuldades. A primeira advém da relação com o mundo real, que Freud chamava de relação com a natureza, ou seja, algo que se impõe a todos nós e que não temos controle, seja a realidade dos constrangimentos sociais ou um cataclisma que nos acontece e ao qual não é possível ignorar e temos que nos sujeitar, fazendo com que nossa vida precise mudar de rumos inesperadamente. 

A segunda fonte do que Freud chamou de mal-estar da civilização seria a relação com o próprio corpo, na medida em que o corpo é portador da finitude, mostrando o tempo todo que não somos donos do que nos acontece. Ainda assim, muitas vezes, temos que viver em função de uma limitação colocada pelo corpo, seja em decorrência do envelhecimento ou de uma situação externa, como uma doença ou um evento que venha mudar completamente nossa relação com esse corpo.

A terceira fonte, por sua vez, advém da relação de cada pessoa com o outro e que, de acordo com Costa-Moura, ficamos absolutamente sujeitos nos últimos meses em razão da pandemia. “Esse confinamento e as medidas de isolamento social que a pandemia exigiu nos testam, nos desafiam em todas as maiores ameaças que a gente tem usualmente. […] Estamos tendo que encarar esses três fatores, e que esquecemos em nossa vida de correria, consumo e metas na busca por realizações pessoais e profissionais”, destaca. 

Para a psicanalista, uma das consequências da pandemia foi nos colocar diante de todos esses fatores. “É difícil e duro, desestabilizou as pessoas, colocou em cheque a maneira que vivemos em vários níveis: nossa relação com a coletividade, as escolhas que fazemos, o destino que damos ao planeta, a solidariedade, tudo isso foi confrontado nessa situação. Por outro lado, é um crescimento necessário. E isso nos leva ao problema do luto, porque nós vivemos a vida como se o luto fosse uma coisa extraordinária, na qual a gente não precisa pensar”, refletiu. 

Caminhos para debater o luto

Não há um caminho único para elaborar o luto, visto que cada pessoa irá vivenciá-lo a seu modo. Contudo, Costa-Moura defende que, se conseguirmos passar às crianças e aos adolescentes a ideia de que o estado das coisas não é permanente, poderemos, de algum modo, incluir esse conceito em nossa vida cotidiana, sem fingir que a morte ou a perda não existem.  “Lembrar às crianças de que a vida não está no nosso domínio e que, pelo contrário, precisamos nos ajustar e reinventar porque temos que viver o imprevisível, é a saída para trabalhar o luto”.

Nesse sentido, ela destaca a elaboração pela palavra como um recurso que pode ajudar no retorno às aulas. “Tem coisas que são difíceis de serem dimensionadas de maneira objetiva, mas podem frequentar a imaginação através da literatura, da encenação, do teatro… As narrativas indígenas que temos no Brasil são um exemplo disso, pois trazem algo que perdemos na nossa cultura urbana, que é a transmissão de geração para geração. Nessas histórias o conceito de que nós todos somos parte de um todo maior está muito presente nessas narrativas. Sem esse laço de palavra, de ligação com o outro, não há transmissão de conteúdo”, conclui.

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Comentários
Cezar Peres

Obrigados pela riqueza dos textos. Contribuem bastante!

Marília Costa

Obrigada pelos excelentes textos, vídeos e dicas. Estou adaptando aos meus alunos do Fundamental II, Ensino Médio e Cursinho. Abraço carinhoso, Marília