Volta às aulas presenciais: sentimentos precisam ser acolhidos

16 de julho de 2020

Este material foi produzido pelo LIV como a terceira etapa da Jornada do Selo Azul, que auxilia gestores e coordenadores no retorno à escola para que, além dos protocolos de proteção, haja um cuidado com a saúde mental de toda comunidade escolar, independente de quando essa volta aconteça.

Caso você ainda não esteja participando, inscreva-se e participe da Jornada completa para ganhar o Selo Azul que simboliza que a sua comunidade escolar reconhece a importância de um olhar consciente para o acolhimento e para a saúde mental na volta às aulas presenciais. Receba também um kit de materiais LIV para ambientação, possibilitando que todo o conhecimento seja replicado na própria estrutura da escola.

Se você já está participando, fique atento(a) a sua caixa de e-mails, pois iremos seguir essa jornada com você por lá!

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O retorno às aulas presenciais, ainda que parcialmente, é uma ideia que já bate à porta da maioria das escolas e vem tirando o sono de educadores, pais e alunos. Como será esse reencontro? De que forma a comunidade escolar será recebida?

Independentemente de quando aconteça, esse retorno precisará ser muito bem planejado. É bem verdade que gostaríamos de estar falando sobre a pandemia no passado ou mesmo que ela nunca tivesse acontecido. Mas a realidade é outra e precisamos lidar com ela para elaborarmos a melhor forma de enfrentar o que se coloca diante de nós. Como mencionamos anteriormente na segunda etapa da Jornada do Selo Azul (o raio-x dos professores e o raio-x da juventude durante a pandemia), o isolamento social afetou a todos, especialmente no que diz respeito à saúde mental, e isso precisa ser visto com cuidado para uma volta às aulas saudável.

Tenha o seu Guia de Acolhimento LIV por perto, pois hoje vamos nos aprofundar no tema do Acolhimento, presente a partir da página 10. Entendemos que o primeiro momento desse retorno às aulas presenciais será em torno da preocupação em entender como cada pessoa está voltando depois de passar um período distante fisicamente da escola e também sobre aqueles que vão optar por não voltar. A escuta sobre como foi a vivência da quarentena para cada indivíduo, quais são as repercussões emocionais e físicas do que foi vivido, os medos, as alegrias, as perdas… Tudo isso precisará ganhar espaço para ser dito e ouvido.  Afinal, independentemente de como foi para cada um, esse momento de isolamento deixa marcas que precisam ser vistas, acolhidas e, cuidadas.

Pensar em como será a recepção de cada um que compõe essa comunidade poderá ajudar em uma melhor adaptação às novas rotinas. Será importante escutar quais são as principais ansiedades e encontrar maneiras de acolhê-las. No vídeo a seguir, Márcia Frederico, psicóloga e consultora pedagógica do Laboratório Inteligência de Vida (LIV), aprofunda esse tema presente no Guia LIV. Confira:

 

Mas afinal, o que significa acolher?

Como boa parte das palavras de nosso idioma, a palavra acolhimento tem sua origem no latim e foi ganhando novas interpretações de acordo com a época e as configurações sociais. “Acolhimento deriva do latim, de colher e também de coletar. E coletar é o que dá a origem à palavra coletividade. Isso remete ao tempo que a gente er nômade. Como os recursos eram poucos, a coleta tinha que ser coletivizada para fortalecer aquela comunidade. Colher e acolher é fundamentalmente a essência da formação de uma coletividade”, explica Claudio Thebas, educador, escritor, palestrante, publicitário e palhaço.

Para ele, quando falamos em acolhimento, falamos também de coletar afetos, sentimentos e emoções, bem como de partilhá-los, tendo em vista que o sentimento que afeta uma pessoa, na verdade, afeta a todos. “Esse talvez seja o maior chamado nessa quarentena: estamos sendo chamados a refazer o nosso senso de coletivo”, afirma.

Em entrevista ao LIV, Thebas disse que entende o acolhimento como o passo número um do retorno à escola. “E também os passos números dois e três, pois se a gente quiser ser realmente autêntico e humano na relação que estabelecemos com as pessoas, não tem outra possibilidade. Se a gente não acolher, o que passaremos para frente?”, questiona.

Thebas acredita que ausência de ações voltadas ao acolhimento nas escolas pode criar um déficit emocional no futuro. “E qual déficit a gente tem que se preocupar agora: com o déficit de conteúdo ou emocional? É um processo de luto. Se não cuidarmos, ele volta dobrado, isso já foi estudado. Então, se a gente não acolher as dores, as dúvidas, os medos e todas as perdas desse processo, vamos jogar para frente um luto não cuidado, que vai se multiplicar, dobrar, ir ao cubo. Qual matemática queremos ensinar, a matemática da dor ao cubo?”, aponta.

De acordo com o educador, o próprio fato de haver uma etapa de retorno escolar sem a possibilidade de abraços ou contato físico deve ser tema nas escolas. “Poder estar com gente sem poder abraçar é um acolhimento novo que precisa ser dado. Como fazemos para acolher a ausência do calor humano, com o qual estamos tão acostumados? Acredito que seja dando espaço para que cada um possa trazer os afetos represados, em todos os sentidos. Isso deveria ser um acolhimento de coletividade, de como estamos chegando juntos a essa fase e o que vamos fazer daqui para frente”, pondera.

 

“Acolhimento não é evento festivo”

A volta às aulas presenciais após o período de isolamento em nada se compara a um retorno comum ao ano letivo, como o que acontece após períodos de férias. Não se trata, destaca Thebas, de um evento festivo de recepção dos alunos, mas sim de uma nova postura para nortear as ações da comunidade escolar.

“O acolhimento não pode ser esse evento quase festivo. É impossível pensar nele como um evento que dura um dia, ou uma semana. Esse é um momento de parar tudo. A gente não vai alcançar o cronograma perdido. Agora temos que lidar com essa outra coisa, que é acolher os sentimentos. Sem cuidado, é impossível aprender. Ou seja, não tem aprendizado possível se a gente não criar o campo do afeto. Se for por esse caminho, vamos apenas criar uma hipocrisia na qual o professor pergunta ao aluno se está tudo bem e logo volta ao conteúdo”, defende. E completa: “Quando essas crianças tiverem 20 anos e pensarem nesse retorno às aulas depois de quatro meses de isolamento, de qual professor elas vão lembrar: aquele que escutou, valorou cada sentimento dos alunos, partilhou seus próprios sentimentos e refletiu sobre isso, ou vão lembrar daquele que ensinou raiz quadrada?”. 

 

Expectativas, planejamentos e ansiedades: o olhar da escola

Assim como outras escolas no Brasil, o Colégio Master, com sedes no Ceará e no Rio Grande do Norte, está aguardando com ansiedade o retorno da comunidade escolar ao convívio presencial. Com mais de 4.600 alunos e 750 colaboradores, a escola já vem há alguns meses traçando todas as ações para que o acolhimento dos alunos aconteça na prática. 

“Para isso, criamos o chamado Comitê do Futuro, que realizou várias ações em reuniões semanais para debater como seria a continuidade das aulas. A preocupação, inicialmente, foi com os protocolos de saúde, mas tivemos também a preocupação com o retorno do aluno à escola após um longo período sem contato com os professores, colegas e toda a equipe. Para nós, essa vai ser uma hora de esquecer um pouco do conteúdo e olhar mais para o acolhimento do aluno”, conta Nazareno Oliveira, diretor geral do Colégio Master.

De acordo com o diretor, a atenção à saúde mental da comunidade escolar tem sido uma tônica nessa fase de distanciamento social e continuará a nortear as ações presenciais. “Os alunos utilizaram o material do LIV em casa durante as aulas on-line e nos agradeceram por termos mantido esse espaço de escuta e fala. Os professores também receberam apoio […] Para o retorno, estamos identificando também as famílias enlutadas, visando prestar um apoio mais próximo. Escolhemos ainda um novo cumprimento para substituir os abraços e apertos de mão, o Namastê”.

Para Oliveira, a parceria do Colégio Master com o LIV contribuiu para reforçar o pilar emocional que a escola tinha, mas não de forma estruturada. “Normalmente, no país todo, as escolas trabalham muito a excelência acadêmica e esquecem o emocional. Esse ser humano, jovem ou criança, que vai ser formado por nós precisa ser formado de uma maneira holística, integral. Para isso, precisamos ter dois pilares: a formação acadêmica e a formação emocional”.

O diretor também acredita que essa visão de educação oferece as bases para preservar a todos nesse momento de retorno às aulas. “As crianças e adolescentes foram tirados do convívio da escola. Eles vão retornar com questões emocionais.”.  Se não podemos abraçar fisicamente que consigamos, então, encontrar outras maneiras. Vamos pensar juntos e reinventar os encontros no ambiente escolar?

 

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