23/01/2026
Como a vida digital influencia a saúde mental e por que falar de cidadania digital?
O início do ano costuma trazer a sensação de recomeços. Entre metas profissionais, novos projetos e desejos pessoais, uma intenção pode aparecer nessa lista: cuidar mais de si. E janeiro, além de ser um mês com muitas expectativas, também carrega uma pauta importante: a conscientização sobre a saúde mental e emocional, movimento conhecido como Janeiro Branco.
Em um mundo marcado pela pressa, pela hiperconectividade e por demandas que parecem urgentes, o que, afinal, significa ter esse olhar mais cuidadoso para a nossa saúde mental?
A resposta não está apenas em se desconectar, talvez o desafio esteja em encontrar equilíbrio. É nesse ponto que o Janeiro Branco e o debate sobre Cidadania Digital se encontram. Cuidar da mente hoje também passa por repensar como nos relacionamos com as telas, com os conteúdos que consumimos e com as pessoas no ambiente digital.
Como a vida digital afeta a saúde mental?
Hoje, grande parte da vida social e até profissional acontece nas telas. Elas se tornaram o começo, o meio e, muitas vezes, o fim das nossas interações com o outro. São um território que influencia como enxergamos o mundo e a nós mesmos.
A vida digital reorganiza profundamente nossos modos de sentir. Isso acontece tanto pela quantidade de tempo que passamos em frente às telas quanto pelos tipos de conteúdos que consumimos diariamente. Quando falamos em tempo de tela, o primeiro impacto aparece na regulação emocional, especialmente entre crianças e adolescentes, mas também entre os adultos.
Afinal, o ambiente digital é intencionalmente desenhado para capturar nossa atenção. Cada notificação, curtida, vídeo ou mensagem ativa o sistema de recompensa do cérebro, liberando pequenas doses de dopamina. Com o tempo, esse funcionamento deixa o cérebro mais reativo e menos capaz de pausar, esperar e lidar com frustrações.
Como explica Renata Ishida, gerente pedagógica do LIV:
“Quando tudo é imediato, o cérebro vai perdendo a capacidade de tolerar o desconforto. Isso aparece no aumento da irritabilidade, da impulsividade e da dificuldade de lidar com o ‘não’.”
Além disso, o excesso de telas afeta diretamente o sono, comprometendo toda a capacidade de regulação do nosso organismo, o que influencia diretamente as nossas emoções. É só lembrar como fica o nosso humor no dia seguinte a uma noite mal dormida — provavelmente não é dos melhores. Imagina o efeito disso quando dormir mal se torna uma rotina?
E não é apenas o tempo de tela que importa, mas também o tipo de conteúdo consumido. A expressão brain rot (ou “apodrecimento cerebral”), eleita a palavra do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford, descreve justamente essa deterioração mental associada ao consumo excessivo de conteúdos de baixa qualidade, especialmente nas redes sociais. Esses conteúdos também favorecem comparações contínuas, o que pode gerar sensação de inadequação, baixa autoestima e insegurança.
“A criança e o adolescente ainda estão construindo sua identidade. Quando essa construção acontece em um ambiente de comparação constante, sem mediação e reflexão, os impactos emocionais podem ser profundos” – diz Ishida.
Por que é tão difícil desacelerar, mesmo quando percebemos o cansaço?
Mesmo quando o corpo pede pausa, estamos inseridos em uma cultura que valoriza a produtividade, a velocidade e a constante atualização. Muitas pessoas tentam parar e se deparam com culpa, ansiedade ou uma sensação de vazio. A velocidade cria também uma ilusão de controle: enquanto estamos ocupados, não precisamos entrar em contato com sentimentos difíceis de lidar, como frustração, medo de falhar, insegurança ou solidão. Desacelerar exige disponibilidade para sentir — e isso nem sempre é confortável.
Para Renata, o cuidado com a saúde mental diante de um mundo hiperconectado pode começar por um ponto importante: reconhecer que não somos máquinas:
“Distanciar-se das telas em alguns momentos é uma forma de respeitar o próprio ritmo, reconectar-se com o corpo, com o silêncio, com o outro e com experiências que estimulam sentidos que ficam adormecidos diante das telas.”
Cidadania digital como caminho para o cuidado
Será que é possível ensinar as crianças a terem um relacionamento mais saudável com as telas?
É justamente aí que entra a cidadania digital. Falar sobre esse tema vai muito além de ensinar regras de bom comportamento na internet: é ajudar crianças e adolescentes a refletirem sobre o uso mais saudável da tecnologia, sobre como se comportam no ambiente online e como isso impacta a própria saúde emocional. Esse é um diálogo constante, que precisa ser cultivado em todos os espaços: em casa, na escola e em cada lugar de convivência.
A própria BNCC (Base Nacional Comum Curricular) já reconhece a importância desse tema em sala de aula, destacando o papel das tecnologias no desenvolvimento da reflexão, da ética e do pensamento crítico nos estudantes.
Neste Janeiro Branco, o convite não é simplesmente desconectar, mas repensar o uso da tecnologia — com mais consciência e responsabilidade.
Como o LIV faz Cidadania Digital?
No LIV, a gente acredita que viver no mundo digital não é apenas navegar entre aplicativos e redes, mas aprender a se conhecer, se expressar e se relacionar de forma consciente.
Foi assim que nasceu o Currículo de Cidadania Digital do LIV — uma proposta pioneira que une educação socioemocional e tecnologia para apoiar escolas, educadores, famílias e estudantes a lidarem, de forma crítica, ética e saudável, com os desafios da vida digital.
Nosso currículo se organiza em cinco pilares: Saúde Mental e Bem-estar; Convivências e Relações Virtuais; Autoexpressão e Identidades Digitais; Educação Midiática; Privacidade e Segurança.
A Cidadania Digital no LIV não se trata apenas de ensinar regras ou evitar riscos, mas de potencializar aspectos socioemocionais para que cada estudante possa atuar com autonomia no mundo digital.
Quer se aprofundar mais nesse tema? Preparamos conteúdos exclusivos para te ajudar a refletir sobre como a cidadania digital pode nos apoiar a construir uma relação mais saudável com o mundo online: https://materiais.inteligenciadevida.com.br/cidadania-digital-lp
O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.