Excesso de telas: é possível encontrar um ponto de equilíbrio?

Excesso de telas: é possível encontrar um ponto de equilíbrio?

5 de agosto de 2022

Seja na escola ou em casa, o excesso de telas por crianças e adolescentes tem preocupado os adultos. Venha conosco refletir sobre esse tema!
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O uso de telas é uma preocupação de todos nós, mesmo antes da pandemia, tanto para adultos quanto para crianças e adolescentes. Qual é o limite? Como podemos acompanhar a vida digital de nossos filhos e alunos? Isso é realmente possível? Essa é uma angústia que aflige muitas famílias e educadores, por isso, no texto de hoje falaremos sobre como construir soluções possíveis e realistas que ajudem na criação dos jovens em tempos de múltiplas telas.

Antes de iniciar, frisamos que, embora cada família viva um cotidiano singular e exercite o melhor manejo possível com as crianças dentro de sua realidade, o intuito é que possamos, aqui, estabelecer diálogos e levantar alguns pontos que podem ajudar na conscientização e pensamento crítico sobre o tema.

Excesso de telas: o que mostram as pesquisas

E por que tudo isso é tão importante? A lista de problemas que podem surgir a partir do uso excessivo das telas, como celular e tablet, é imensa. Inclui obesidade, sedentarismo, problemas de sono, agressividade, miopia, estrabismo, perda de audição, problemas de postura, déficit de atenção e até mesmo a dependência digital.

Porém, as telas fazem parte das nossas vidas há muitos anos, não há volta. A geração que cresceu nos anos 1980 e 1990 já tinha, muitas vezes, suas rotinas organizadas pelos horários da programação de TV. Quem nunca teve o momento de almoço demarcado pela hora do desenho animado, por exemplo? Ou que poderia jantar assistindo uma novela, mas que não podia fazer bagunça na hora dos pais assistirem telejornal?

Hoje, muita coisa mudou em relação a essa programação. Foram surgindo canais destinados às crianças e, no lugar de horários específicos de programação para o público infantil, agora existem plataformas de streaming que mostram esse conteúdo a qualquer hora do dia. Existe uma variedade incrível de programas infantojuvenis e uma das grandes preocupações é exatamente o fato de que hoje os pequenos podem passar muitas horas seguidas “emendando” um episódio no outro, tudo sob demanda.

Para se ter ideia do crescimento desse acesso, vamos ver alguns dados recentes no infográfico abaixo:

Infográfico - Excesso de telas: o que mostram as pesquisas

Existe um limite aceitável para o excesso de telas?

Com a pandemia, sabemos que esse uso aumentou muito. Passamos, entre adultos, crianças e jovens, a depender das tecnologias para assistir aulas, fazer cursos, ir ao médico, ter momentos de lazer, manter contato com amigos e família e ficar bem informados. E por mais que tenhamos retomado as relações presenciais, ainda há um impacto muito forte desse mundo virtual no nosso dia a dia.

Com isso, ficaram cada vez mais frequentes as recomendações de pediatras renomados, tanto do Brasil quanto de outras partes do mundo, para exercer limites sobre esse excesso de telas. A Sociedade Brasileira de Pediatria, por exemplo, se debruçou sobre o tema e criou uma cartilha para apoiar os responsáveis e cuidadores na decisão sobre os limites desse uso. Dentre as recomendações, vemos pontos como:

  • Evitar a exposição de crianças menores de 2 anos às telas, sem necessidade, mesmo passivamente.
  • Crianças com idades entre 2 e 5 anos devem limitar o tempo de telas ao máximo de 1 hora ao dia, sempre com supervisão de pais, cuidadores ou responsáveis.
  • Crianças com idades entre 6 e 10 anos devem limitar o tempo de telas ao máximo de 1 a 2 horas ao dia, ainda com a supervisão de adultos.
  • Adolescentes com idades entre 11 e 18 anos devem limitar o tempo de telas e jogos de videogames de 2 a 3 horas ao dia. E, ainda que não seja preciso a supervisão constante, é sempre necessário conversar com eles sobre os conteúdos vistos online.
  • Para todas as idades, incluindo os adultos, a recomendação é ficar sem telas durante as refeições e desconectar ao menos 1 hora antes de dormir.

Mas sejamos realistas: basta uma olhada na rotina da maioria das famílias para saber que esses limites estão longe de serem uma prática constante. Talvez você mesmo esteja lendo esse texto em um momento de descanso ou durante seu horário de almoço.

Surge, então, outro questionamento relevante: existe limite para os limites? Afinal, a gente precisa pensar também em como se acolher quando a supervisão das crianças em tempo integral não é possível ou quando não estamos conseguindo reduzir o número de horas em frente às telas.

“Se, por um lado, sabemos que a recomendação orienta o uso de telas, por outro, temos famílias trabalhando e com muitos afazeres domésticos. Existe o ideal, que inclui trazer as crianças para fazer as atividades domésticas conosco, cozinhar junto e incentivar que brinquem sem telas. E existe o que é real e possível, porque nem todos os dias vai funcionar como desejamos. E tudo bem!”, destaca Juliana Hampshire, coordenadora pedagógica do LIV – Laboratório Inteligência de Vida. 

Com esse raciocínio, ela incentiva buscar um meio termo, tentando flexibilizar e refazer acordos sempre que necessário. “Será que podemos pensar em formas mais saudáveis de usar as telas? Apesar de existir uma vasta oferta de programas inadequados e vazios de conteúdo informativo ou educativo, as telas podem também nos aproximar de realidades que não teríamos contato em outras épocas”, destaca.

Juliana recomenda, por exemplo, incentivar desenhos que apresentem realidades do nosso país ou de outras partes, ou então assistir a peças de teatro online e a shows nacionais e estrangeiros, variando um pouco o repertório. “Selecionar esse conteúdo e pensar em segurança na internet é muito importante, já que não podemos estar ao lado da criança acompanhando o tempo todo”. 

Essa reflexão é necessária porque as telas e a internet não são boas ou ruins por si só, tudo depende do uso que fazemos delas. E não só em relação ao número de horas, mas de como vivemos esse mundo digital. “Pensando nas telas como aliadas, precisamos nos certificar sobre o que estamos expondo às nossas crianças. Restringir por idade, bloquear conteúdo violento e inadequado, fazer download para que os programas não acabem direcionando para canais inapropriados são algumas dicas valiosas e realistas”, esclarece a coordenadora pedagógica. 

A educação socioemocional pode ajudar no excesso de telas?

A educação que oferecemos em casa e na escola pode orientar esse uso saudável e as habilidades socioemocionais são um ótimo recurso para pensar nisso! O pensamento crítico, por exemplo, é uma das habilidades socioemocionais que trabalhamos nas aulas do programa LIV e ajuda no questionamento do que vivemos no mundo digital e também para saber ou ao menos desconfiar quando um conteúdo não é legal, por exemplo. 

Outra habilidade socioemocional é a colaboração, que pode influenciar as crianças e os adolescentes a não fazerem parte de correntes de bullying e ajudá-los a criar um movimento ou um grupo de trabalho online. Há também a autonomia, que contribui para fazer as próprias escolhas e entender as consequências de cada ato.

A realidade que acontece na internet, por mais que pareça distante ou protegida, afeta diretamente nossa realidade física e material. Afinal, é a mesma realidade, com suas múltiplas formas, mas parece que muitas vezes esquecemos disso e achamos que estamos protegidos pelo suposto anonimato ou pela distância física.

A verdade é que a segurança virtual e a segurança física – incluindo a mental – são a mesma coisa. Quantas vezes não discutimos nas redes sociais ou nos sentimos mal por ler um comentário? Uma manifestação virtual também nos afeta por completo. Se nós, enquanto responsáveis e cuidadores, prezamos e criamos estratégias para protegê-los fisicamente, devemos também pensar na proteção online.

A internet é hoje a maior praça pública do mundo, e não devemos deixar nossos filhos desacompanhados e despreparados para lidar com os desafios desse tipo de contato com a multidão. É preciso instruí-los, trabalhar seu pensamento crítico, fazer acordos, manter o diálogo aberto e refletir junto. Ressaltamos que instruir não é punir, não é ser autoritário a respeito, nem dizer qual conteúdo “presta” e qual “não presta”. As crianças e adolescentes terão acesso à essa grande praça pública, quer a gente queira ou não.

Nesse sentido, ao proibir como um todo, podemos levar ao efeito contrário, e eles irem buscar conteúdo escondidos ou sozinhos, o que os deixa ainda mais vulneráveis e desamparados. Assim, a habilidade socioemocional da comunicação também se mostra como uma grande aliada.

“Para essa comunicação acontecer, é preciso que as crianças e os adolescentes não vejam os responsáveis como “controladores” do tempo e do acesso. Vale a pena tentar entender, sem julgamentos, qual o interesse dos jovens em um determinado conteúdo, participando de suas descobertas ao navegar na internet. Ainda que possa ser difícil aceitar, a verdade é que as crianças e os adolescentes são diferentes de nós, e cuidar não equivale a gostar de tudo o que eles gostam. Mas respeitar e acompanhar, sim”, completa Juliana Hampshire.

Não é uma mudança rápida, mas sim um processo respeitando o tempo de cada um. Não existem regras universais estabelecidas para a convivência com as telas, sobretudo em uma situação tão extrema de limites físicos e emocionais. Tudo começa com uma reflexão atenta, que ajude a entender quais são as demandas reais, mas também percebendo um universo de novas possibilidades que está se abrindo a partir das nossas próprias telas. 

Quer saber como o LIV pode ajudar sua família e escola a refletir sobre a educação socioemocional? Acesse o e-book “Sentir é aprender: histórias da sala de aula com o LIVe conheça depoimentos reais de educadores e instituições parceiras que já utilizam e recomendam o programa!

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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