Expectativas: como repensar o que espero do meu filho?

Expectativas: como repensar o que espero do meu filho?

15 de julho de 2022

Psicóloga e coordenadora pedagógica do LIV comenta os desafios de repensar as expectativas na criação de crianças e adolescentes.

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Todas as famílias têm expectativas para o futuro de seus filhos, seja em relação a comportamentos, atitudes e sentimentos, seja a respeito de suas perspectivas de futuro. São projeções que nascem naturalmente, desde o desejo até a chegada de um filho, e mudam de acordo com a faixa etária da criança. 

Na maioria dos casos, ter expectativas é saudável, pois elas ajudam a planejar e tomar atitudes ao longo da jornada. Contudo, muitas vezes medimos esses objetivos tendo como base uma “régua” que leva em consideração os planos definidos apenas pelos adultos, esquecendo de considerar que as crianças e os adolescentes são indivíduos que desenvolvem seus próprios desejos ao longo da vida.

Essa diferença entre a expectativa dos familiares e o desejo que as crianças passam a demonstrar pode, em alguns casos, ser motivo de frustração. “Sempre vamos querer o melhor para nossos filhos, mas medimos o que é melhor usando a nossa régua de adulto. Então, tudo aquilo que eu sonhei e não realizei nem conquistei ao longo da minha vida, eu desejo para meu filho e isso acaba sendo um lugar insustentável para essa criança existir no mundo, porque o desejo dela vai invariavelmente ser diferente dos pais”, explica a psicóloga Juliana Hampshire, coordenadora pedagógica do LIV – Laboratório Inteligência de Vida.

Expectativas saudáveis e realistas

A relação com nossos filhos é atravessada por nossas vivências afetivas. Carregamos histórias pessoais, lembranças e bagagens de nossa própria infância e adolescência que se tornam projeções quando passamos ao papel de cuidador. 

Na abordagem da psicanálise, a projeção é vista como um mecanismo que atribui a outras pessoas as qualidades, objeções, sentimentos e intenções recusados em si mesmo. Nas relações familiares, muitas vezes as projeções, os afetos e sentimentos são revisitados e reeditados na relação com os filhos.

Surgem emoções profundas nesse encontro entre as histórias dos familiares e a relação com os filhos. Além do amor, carinho e orgulho, a relação também faz o adulto experimentar outras sensações mais difíceis como vergonha, raiva e frustração. Frente à cobrança de não falhar e ser sempre uma referência de segurança, pode surgir a culpa por não conseguir dar conta de tudo e uma sensação de fracasso ao não corresponder às expectativas.

Ao comentar essa questão em uma palestra online na Casa do Saber, a psicanalista e escritora Vera Iaconelli destacou que as expectativas dos adultos projetadas nas crianças também são afetadas pela cultura e isso pode levar a idealizações. Essa idealização surge de um desejo de que tudo seja perfeito, ignorando a realidade e as imperfeições naturais de toda relação.

Leia sua reflexão no trecho a seguir:

“Toda vez que você pensa em uma gestação ou em ter um filho, uma filha, você pensa em um ideal. E ideal não é igual à idealização. Ideal significa que você projeta uma realização. Você quer um menino ou uma menina, quer que seja saudável, que seja bonito, forte, grande, enfim… A parentalidade é a aposta de uma ideia de ter um filho, todos nós temos isso. Não tenham medo de ter ideais e fantasias, imaginar o filho e ter preferências. Isso faz parte […].

Agora, a idealização é diferente, pois eu projeto uma coisa sem falhas. Idealizar é negar o outro lado, negar aquilo que não é perfeito. As pessoas podem ter maiores ou menores idealizações […], mas em nossa cultura, que é diferente de tantas outras, a gente vive perseguido por ideais. A gente vive perseguido, por exemplo, por um ideal de parentalidade, de ser perfeito, não fazer nada que nosso pai ou nossa mãe fizeram conosco […]. Isso não existe, porque a gente tem que transmitir a nossa humanidade, que é cheia de falhas. Ideais a gente sempre teve, mas hoje nossa cultura sofre de muitas idealizações e fantasias que negam nossa humanidade”. 

Não temos controle de tudo!

Segundo Juliana Hampshire, um caminho para que essa relação seja saudável para ambos os lados é aceitar que não temos controle sobre tudo, tampouco respostas para todas as situações que as crianças e adolescentes vão vivenciar. “Muitas vezes, eles vão precisar achar uma saída sozinhos. E escolher algo diferente do que o pai e a mãe desejam é saudável”, afirma.

A coordenadora pedagógica do LIV diz ainda que nessa relação os adultos precisam estar abertos para escutar e conversar com empatia sobre os caminhos escolhidos por seus filhos. “Sempre oferecendo apoio para que possam gerir suas emoções e refletir sobre suas escolhas, não com julgamento e imposição, mas com acolhimento e escuta atenta”, destaca.

Juliana diz ainda que, quando isso não acontece, pode ser que algumas famílias se sintam traídas, desautorizadas ou destituídas. Isso faz com que, muitas vezes, surjam embates no cotidiano, como um jogo de forças para fazer valer suas decisões, escolhas ou opiniões. Por isso, é necessário desenvolver a tolerância, a flexibilidade e, principalmente, cuidar das próprias emoções. “É necessário se acolher primeiro para poder acolher o outro. Lançar um olhar honesto e sem julgamento para nossa própria individualidade, procurando entender de onde brotam nossas emoções mais profundas e, a partir daí, aprender a se respeitar, ser mais generoso com a própria história e também a fazer diferente quando preciso”, acrescenta.

Expectativas: o que podemos fazer?

Juliana pondera ainda que a exigência de perfeição não cabe nem para os adultos, nem em relação aos filhos. “É fundamental abrir mão da fantasia de completude. Nossos filhos não serão sempre felizes, nem farão sempre as melhores escolhas. Poder acompanhar esse percurso singular de maneira respeitosa, diferenciando aquilo que é meu e o que é do outro – ainda que o outro seja nosso filho – é o que podemos fazer de mais importante para eles. Isso não significa aceitar qualquer coisa. Transmitimos nossos valores, aquilo que para cada um de nós é inegociável, damos contornos e limites. O que é bem diferente de escolher ou mesmo desejar no lugar deles”, completa.

Um programa socioemocional que acolhe as famílias

No programa socioemocional do LIV, acreditamos que as famílias podem encontrar caminhos abertos de diálogo e com mais empatia quando investem em seu desenvolvimento emocional. Por isso, atuamos em parceria com escolas incentivando as famílias para que elas possam desenvolver seus sentimentos juntos com seus filhos, ajudando-os a amadurecer e ter possibilidade de fazer escolhas conscientes. 

Para isso, oferecemos uma série de materiais e atividades voltadas aos pais, mães e cuidadores que os ajudam a lidar com aspectos complexos, como o as expectativas em relação a seus filhos e tantos outros.

Se você quer conhecer essa proposta, recomendamos baixar o e-book gratuito “Escola que Sente”, que mostra como a educação socioemocional pode contribuir para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Baixe e saiba mais!

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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