Ensino presencial: será mesmo necessário correr atrás do tempo perdido?

Ensino presencial: será mesmo necessário correr atrás do tempo perdido?

21 de março de 2022

Muitas escolas já começaram com o retorno presencial de toda a comunidade escolar. Em entrevista Juliana Hampshire fala sobre como lidar com o mix de sentimentos que o momento traz para todos

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Após tanto tempo de isolamento e de aulas em formato remoto ou híbrido, essa pergunta ronda grande parte das escolas do país que retornaram com o formato presencial. Mas para além de toda a movimentação já prevista pelos protocolos de retorno, existem também aspectos socioemocionais que ganharam mais destaque na pandemia e precisam ser observados com cuidado.

Um desses aspectos é a sensação de que será preciso “correr atrás do tempo perdido” nas aulas, um sentimento muitas vezes causado pelo medo de que as crianças não alcancem as expectativas de aprendizagem traçadas anteriormente. 

Segundo a psicóloga e coordenadora pedagógica do LIV, Juliana Hampshire, ao lidar com essa complexidade de sentimentos é preciso cuidar da comunidade escolar como um todo. 

No áudio a seguir, você pode escutar uma reflexão da especialista sobre esse tema e também sobre os efeitos da pandemia nas escolas, as cobranças para assimilar os conteúdos e sobre como o LIV tem atuado para ajudar nesses desafios:

3 perguntas sobre a volta ao ensino presencial

  • Observando os dois últimos anos de pandemia em perspectiva, o que você acha imprescindível que as escolas levem em consideração na volta ao ensino presencial?

Juliana Hampshire “O retorno às aulas, ainda mais assim, no início de ano letivo, muitas vezes é vivido com uma ambivalência. O retorno, o reencontro com os amigos, conhecer outras pessoas. Será que tem um aluno novo, uma aluna nova? Quem vão ser os professores? Se a escola trabalha com projeto, qual vai ser? São muitas as possibilidades. E um desejo imenso de que seja completamente presencial, mas esses dois últimos anos fizeram a gente ter muita noção de que uma coisa é aquilo que a gente deseja, e outra coisa é a vida tal qual ela acontece. 

Importante mesmo é a gente poder acolher esses sentimentos tão diferentes. Pode ter uma ansiedade, pode ter uma euforia, pode ter um certo medo, uma desconfiança. São muitas pessoas e muitos sentimentos diferentes que compõem uma mesma escola. Estarmos atentos a isso é muito importante para que a gente consiga entender quais vão ser exatamente os desafios para aquele aluno, para aquela turma, para aquele bimestre. E, aí sim, entender que existe um tempo singular de cada um. Existem as nossas expectativas e existe também um planejamento, e todas as exigências acadêmicas que a gente precisa cumprir.

O mais importante agora é poder respirar e entender qual é exatamente o cenário que a gente vai enfrentar. Pensar em planos A, B e C e pensar que a escola é feita por gente, que pensa, sente e está em lugares muito diferentes também.

Uma escola, para ser viva e para todo mundo, é importante que seja também acolhedora, que seja um lugar de receber essas diferenças de sentimentos e emoções que a gente está vivendo, e construir juntos um projeto comum.”.

  • Muitas famílias ou até mesmo educadores têm a ideia de que é necessário correr atrás do “tempo perdido” para recuperar o que não foi possível trabalhar nos meses de ensino remoto e híbrido. Na sua opinião, como poderia ser feito esse acompanhamento do retorno às aulas, considerando ao mesmo tempo o ritmo dos alunos e as demandas escolas?

Juliana Hampshire“Uma coisa que eu me dei conta pensando nos atendimentos que eu tenho feito aos educadores, às famílias, é que essa noção de correr atrás do tempo significa, necessariamente, que pelo menos alguém vai se cansar. Porque correr é uma coisa que demanda um esforço imenso e que a gente está pensando no resultado final.

O importante aqui é a gente conseguir perceber que a aprendizagem é processo. O que a gente viveu em 2020 e em 2021 foram também processos. Processos que vão deixar marcas e, durante um tempo, ainda vamos reconhecer as consequências do que foi, tanto em termos de aprendizagem quanto em termos emocionais.

Afinal de contas, cada um de nós tem um corpo só! E a gente só consegue aprender, só consegue ensinar, a partir desse mesmo lugar que a gente ocupa, que é o nosso corpo: a maneira como a gente pensa, a maneira como a gente sente, a maneira como a gente reage, o que interessa, o que não interessa, o que eu tenho facilidade e o que é aquilo que eu tenho dificuldade. 

A gente já conseguiu entender que cada um de nós aprende de uma maneira muito diferente uns dos outros, e que existem tempos que não podem ser atropelados. Uma criança ela precisa primeiro aprender a sentar, mas antes de sentar, ela vai ter sustentado o pescoço, vai aprender a engatinhar, vai aprender a andar, vai aprender a correr, vai aprender a segurar o lápis, vai aprender a fazer um traço mais firme, vai começar a entender que o som de uma letra é representado por aquelas letrinhas que a gente coloca no papel. O som vira um desenho no papel, que todo mundo faz do seu próprio jeito, mas existe ali um modelo para a gente seguir. 

Todas essas etapas precisam acontecer, assim como viver uma pandemia, viver medos, viver angústias, viver luto, viver um ‘não saber exatamente como vai ser esse próximo ano’, é também um processo que precisa estar integrado quando a gente pensa na educação. 

Cognitivo e emocional não andam separados. É muito importante, primeiro, a gente poder acolher e escutar esses alunos, esses educadores, essas famílias, entendendo que existem demandas que vão precisar ser encaminhadas. Mas, se a gente estiver atento a isso, muitas vezes não é necessário dar uma resposta, mas sim poder acompanhar esse processo, que é ser uma pessoa neste mundo de 2022 tentando aprender uma série de outras coisas.

Quando a gente consegue se prender muito mais a essa caminhada que cada um vai fazer, e a gente pode acompanhar esse movimento, a gente entende a educação de uma maneira integral. Não só pelo resultado alcançado, mas porque, quando uma pessoa é bem acompanhada e acolhida, a gente sabe que ela pode aprender melhor quais são os recursos, quais são as ferramentas. Esse resultado vai chegar. O importante é a gente poder dar esses instrumentos, e a gente só vai saber o que aquela criança ou aquele adolescente precisam para se desenvolver se a gente se puser nesse lugar de escutar.

A gente pode, por exemplo, em 2022, entender as avaliações como esse lugar que aponta um direcionamento de como a gente pode convidar de uma outra maneira ou de uma maneira mais eficiente esse aluno a aprender. Se tem alguma coisa fazendo com que esse aluno tropece, por exemplo, ou com que ele não esteja rendendo o máximo que consegue, é preciso olhar, escutar e, possivelmente, tratar o que está em questão. Para que ele, aí sim, consiga se desenvolver nesse lugar integral.

Desempenho acadêmico, resultados, tudo aquilo que a gente precisa responder enquanto instituição escolar podem caminhar junto com um desenvolvimento emocional desse aluno. Por isso a gente entende que é tão importante tirar um pouquinho o foco desse correr atrás, mas poder caminhar junto. Entender se aquela pessoa precisa de um suporte para caminhar de início ou se ela já pode ir correndo na frente e a gente só observa esse caminhar”.

  • Como o LIV tem atuado junto às escolas parceiras para que elas estejam preparadas para acolher seus alunos nesse retorno ao presencial?

Juliana Hampshire – “O LIV, enquanto programa de educação socioemocional, entende a escola como um organismo vivo. Por isso, todos os agentes da comunidade escolar precisam estar envolvidos no processo educacional. 

O aluno é o nosso foco principal. Temos todo um material pensado na linguagem desse aluno e intencionalmente a gente vai desenvolver a inteligência emocional e as habilidades socioemocionais dos nossos alunos, da Educação Infantil até o Ensino Médio.

A gente abre um espaço de escuta, de fala e de acolhimento uma vez por semana para que esses alunos possam se sentir vistos, acolhidos e escutados. Para que eles possam desenvolver de maneira orgânica essas habilidades socioemocionais, como a comunicação, a criatividade e a colaboração.

Mas, existem também os professores. Para eles, a gente pensou um percurso pedagógico, que é um acompanhamento como uma formação continuada, que acontece em três trilhas. 

A abertura desse percurso pedagógico foi um momento de uma sensibilização muito importante, que a gente contou com toda a nossa liderança pedagógica e com a participação do Alexandre Coimbra Amaral falando muito sobre esse é o lugar das emoções na escola. 

[Refletimos] por que é importante trazer esse tema das emoções para dentro da escola e o que cada professor precisa estar atento quando for pensar nesse lugar de abrir para a escuta, de entender que os sentimentos deles não estão fora da sala de aula e eles também não pedem licença para aparecer apenas nos 50 minutos semanais de LIV.

A gente tem esse momento de implantação e acompanhamentos pedagógicos personalizados para cada uma das nossas escolas parceiras. Além disso, o LIV tem o LIV Aproxima, que é a nossa proposta para as famílias, pensando em encontros com temas que sejam pertinentes aquelas famílias. 

A gente propõe, por exemplo, falar sobre afeto e escuta, sobre qual a importância da comunicação para as dinâmicas familiares e de que maneira a gente pode estar mais consciente da mensagem que está transmitindo para os filhos, como é que eu me comunico atualmente, como eu posso me posicionar um pouquinho diferente nos conflitos que são inerentes a qualquer tipo de relação. 

O LIV tem um olhar tríplice pensando então no aluno, na escola, enquanto esses educadores, e pensando também na família. Por isso, a gente pede para que vocês contem conosco em 2022 para seguir nessa parceria e, assim, a gente poder alcançar resultados muito melhores e ter relações mais saudáveis dentro da escola”.

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Quer saber mais sobre como acolher a sua comunidade escolar hoje?

Pensando no retorno à escola, o LIV desenvolveu uma jornada para que possamos juntos construir comunidades mais fortes, redes mais sustentáveis e ambientes mais saudáveis nos quais as emoções são levadas a sério e os espaços são seguros para que todos se sintam acolhidos. 

Esta jornada começa com o Guia LIV de acolhimento na volta à escola, criado com a intenção de transbordar o cuidado emocional e auxiliar escolas por todo o Brasil!

São 5 etapas nas quais as escolas terão oportunidade de acessar materiais como um raio-X da saúde mental da comunidade escolar e o aprofundamento dos temas sugeridos no Guia LIV de acolhimento na volta à escola. Confira a imagem abaixo:

Guia LIV de acolhimento na volta ao ensino presencial

Baixe gratuitamente o Guia LIV e leve essa proposta para a sua escola!

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Veja outros conteúdos exclusivos do LIV:

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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