Drauzio Varella responde: como o estado emocional afeta nossa saúde?

22 de setembro de 2020

Relatórios divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) há alguns anos já alertavam para um cenário, em 2020, no qual a depressão se tornaria a principal causa de absenteísmo ao trabalho em diferentes países do mundo. Atualmente, com um cenário social abalado pela pandemia, essa situação se faz mais presente não apenas no ambiente de trabalho, mas também no âmbito escolar, tornando-se alvo de questionamentos entre pais, professores e gestores. Afinal, como o estado emocional afeta nossa saúde física? 

Para responder a essa pergunta, convidamos o médico, cientista e escritor Drauzio Varella, que ofereceu uma palestra exclusiva sobre o tema durante o 2º Congresso LIV Virtual. Sem deixar de lado o rigor científico, mas sempre de maneira acessível e didática, ele falou sobre como a saúde mental está atrelada ao bem-estar físico e como a educação pode ter esses conceitos em mente ao olhar para estudantes, famílias e trabalhadores da educação. 

Além dessa apresentação, o evento contou ainda com uma série de palestras, discursos e debates com convidados nacionais e internacionais, levando a milhares de espectadores a oportunidade de falar sobre a educação a partir de uma multiplicidade de olhares. Para saber mais sobre esse evento exclusivo, clique aqui.

Como as mudanças sociais afetam as relações

Em sua palestra, Dráuzio Varella convida o espectador a olhar com cuidado dados sobre saúde mental que apontam, a nível mundial, o crescimento de quadros de depressão, ansiedade e suicídio, buscando interpretações diversas para entender a questão de forma mais ampla.

Nesse sentido, defende que uma das principais causas desses problemas está atrelada à maneira como as sociedades e comunidades se organizam nos dias atuais. “Até metade do século passado, as cidades eram mais amigáveis. Pequenas, com famílias vivendo em casas próximas. A mobilidade era pequena. As famílias se conheciam e conheciam os descendentes todos. Sempre vivemos agrupados dessa maneira. Aí vem a cidade moderna, as metrópoles, a cidade grande, com distâncias cada vez maiores…”, reflete.

Drauzio explica que a formação coletiva, essencial para o fortalecimento dos seres humanos desde a antiguidade, vêm se perdendo com os novos arranjos urbanos e, consequentemente, afetando as relações. Segundo o médico, essa nova esfera psicológica se distancia muito do que os antepassados faziam e dificulta nossa compreensão do cenário. “Fomos nos isolando uns dos outros cada vez mais. Esse isolamento veio com uma quantidade de trabalho infernal, que veio com a tecnologia. A tecnologia, até aqui, só veio para nos dar mais trabalho”, afirma.

O médico relata que o avanço da tecnologia, em especial da comunicação digital, trouxe prejuízos pelo excesso de estímulos que oferta às pessoas. “O cérebro humano não tem a capacidade de receber tantas informações ao mesmo tempo e gravá-las. Receber, até recebe, mas não tem a capacidade de gravar tudo. O cérebro não tem essa habilidade de formar conexão entre os neurônios de maneira tão avassaladora quanto a sociedade moderna exige”, destaca.

Embora destaque o lado benéfico da tecnologia, como a possibilidade de produzir mais mantimentos e ofertar mais conforto, Dráuzio ressalta que esses benefícios atingem apenas uma parte da população. “Mantemos uma desigualdade social imoral e absurda que mantém muita gente em condições precárias. De um modo geral, na média, houve uma melhora. Mas, por que isso não se reflete na felicidade das pessoas?”, questiona o médico.

Para ele, a resposta está atrelada a esse excesso de estímulo e, citando estudos recentes, destaca que as redes sociais vêm mudando a realidade dos jovens, revelando os efeitos nocivos de relações mediadas por telas. “Começamos a procurar a felicidade nos lugares onde ela não existe. Começamos a procurar a felicidade nas redes sociais, porque nós passamos um tempo enorme dedicado a elas hoje”.

 

A saúde mental na comunidade escolar

Durante uma sessão de perguntas e respostas conduzida por Roberta Desnos, psicóloga e coordenadora pedagógica do LIV, o médico discorreu ainda sobre a saúde mental das equipes escolares, não apenas professores, mas também funcionários e alunos, e falou sobre como o foco na produtividade e competitividade, impulsionado pela tecnologia, chega a esses ambientes. “A tecnologia veio, ajudou bastante, não vamos mais conseguir viver sem elas. […] O ensino evoluiu também, mas perdeu uma ação mais direta do professor. Ele é a figura central da aula, e quando deixa de ser, ele sente um incômodo, um mal-estar. O sonho do professor é dar uma aula e as pessoas se interessarem pelo que ele está falando”, diz, ponderando que os professores estão entre os profissionais que mais apresentam índices de estresse e depressão.

Parte desse cenário seria causada, aponta, por uma atenção excessiva à competitividade, que também se reflete na escola e no trabalho. “Se nós ganhamos competitividade no mercado de trabalho com a tecnologia, todas as invenções tecnológicas do futuro serão para aumentar a nossa competitividade, para nos fazer trabalhar mais, nos tornar mais eficientes no trabalho. Às custas do tempo livre, do tempo que dedicávamos à família, aos amigos. Isso é inevitável agora e daqui para frente será cada vez mais, vamos estar ligados nos celulares e equipamentos para trabalhar e produzir mais”.

Para o médico, a competitividade também está afetando a autoimagem das crianças e dos adolescentes, com danos severos à saúde mental. Por isso, diz que as famílias devem ficar atentas aos sinais do dia a dia. “Eu acho que a gente tem que estar atento para os sinais mais importantes de ansiedade e depressão. A gente usa a palavra depressão de maneira errada, mas ela é uma doença grave, não é tristeza. É uma tristeza universal, como uma criança cada vez mais triste, quieta em um canto, que para de se interessar pelo que gostava antes, não quer mais jogar, para de falar, tem alterações de sono, e nas atividades de escola, ou agora, no ambiente virtual, e o rendimento começa a cair. Quando acontecem essas alterações a gente tem que procurar ajuda”, pondera.

 

Quer conferir mais detalhes da palestra de Drauzio Varella? Assista à apresentação completa no vídeo abaixo ou acesse o vídeo direto no canal do LIV no YouTube.

 

Assine nossa news

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *