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Uma professora cria um espaço de escuta para as crianças.

Espaços preparados para receber crianças: como refletir sobre acolhimento e cuidado

Quando falamos sobre infância, é comum pensarmos em brincadeiras, descobertas e curiosidade. Essas ações típicas dos pequenos aparecem nos mais diversos ambientes que eles frequentam. Mas será que esses espaços estão preparados para receber as crianças? 

Essa pergunta, embora pareça simples, abre caminho para reflexões profundas sobre como construímos ambientes (físicos e sociais) que acolham, respeitem e escutem as crianças. E, claro, também os adultos que caminham com eles.

A preparação de um espaço que os acolha não se limita à presença de brinquedos ou à decoração colorida. Ela envolve acessibilidade, escuta ativa, participação e, acima de tudo, acolhimento. E isso vale tanto para escolas quanto para museus, restaurantes, praças, shoppings e até mesmo para os lares. 

Afinal, cada espaço que uma criança frequenta é também um espaço de formação de vínculos, de identidade, de mundo.

Acessibilidade que vai além da estrutura

Quando falamos em acessibilidade para crianças, muitas vezes pensamos em rampas, sinalizações e banheiros adaptados, fraldários, etc. Esses elementos são fundamentais, sem dúvida. Mas, acessibilidade também é sobre linguagem, escuta e presença. É sobre garantir que cada criança, com suas singularidades, possa se sentir parte do ambiente.

Isso inclui crianças com deficiência, mas também aquelas que se expressam de formas diferentes, que precisam de tempos distintos para se adaptar ou que vivem realidades diversas. Um espaço acessível é aquele que reconhece essas diferenças e se molda para acolhê-las.

Escutar é acolher

Escutar uma criança é muito mais do que ouvir palavras. É reconhecer sentimentos, respeitar silêncios e permitir que sua voz tenha lugar nas decisões que atravessam a vida. Quando há espaço para essa escuta, nasce também a confiança: a criança percebe que aquilo que sente importa e que pode se expressar sem medo.

No videocast LIV “Traumatizei meu filho ou é ‘nóia’ minha?”, a escritora e podcaster Camila Fremder compartilhou um exemplo sobre o poder da escuta. Ela conta que seu filho, desde pequeno, sempre soube dizer o que sente: 

“Ele fala muito bem, explica muito bem e, desde pequeno, sabe dizer o que tá sentindo.”

Essa habilidade não surge por acaso: ela costuma florescer quando existe um ambiente no qual a criança é realmente ouvida.

Camila lembra também de uma noite em que o filho entrou em seu quarto. Ao perguntar se ele estava com medo do escuro, ouviu a resposta: 

“Não, mamãe. Eu só gosto de ficar abraçadinho, mas pode apagar a luz.”

Nesse instante, ela percebeu que poderia simplesmente ter perguntado o motivo da chegada dele, sem antecipar uma explicação. Essa cena mostra como, muitas vezes, os adultos se apressam em oferecer respostas antes de escutar.

A escuta verdadeira (aquela que acontece sem pressa, sem julgamento e sem suposições) abre caminhos para vínculos mais profundos. É nesse espaço de atenção e presença que a criança sente que pode ser quem é, e que sua voz tem valor.

Participação ativa na escola

Na escola, essa escuta pode se transformar em participação ativa. Pode começar com gestos simples: perguntar às crianças como gostariam de organizar a sala, quais atividades preferem, o que pensam sobre determinado tema.

Essas práticas, embora pareçam pequenas, têm um impacto enorme na construção da autonomia, da responsabilidade e da autoestima. E mais do que isso: mostram que a escola é um espaço de pertencimento e construção coletiv.

Espaços que acolhem famílias

Ao acolher uma criança, se acolhe um cuidador. Os responsáveis (pais, mães, cuidadores) também precisam se sentir parte dos espaços que seus filhos frequentam. Quando um ambiente recebe bem os adultos que acompanham as crianças, ele contribui para que o vínculo entre eles se fortaleça.

Isso vale para escolas, que podem criar momentos de escuta e diálogo com as famílias, mas também para espaços culturais e comerciais, que podem oferecer ambientes confortáveis e funcionais às necessidades das diferentes famílias. 

A cidade como espaço para a infância

E o mundo, por sua vez, pode estar preparado para receber as crianças. Museus, restaurantes, shoppings, praças e outros espaços públicos ainda enfrentam desafios importantes nesse sentido. Muitos deles não oferecem estrutura adequada para crianças pequenas, seja em termos de segurança, seja em termos de acolhimento.

É comum que esses ambientes sejam pensados prioritariamente para adultos, deixando de lado as necessidades específicas da infância. Falta sinalização acessível, espaços para brincar com liberdade, ambientes que respeitem os tempos e os ritmos das crianças. 

E, muitas vezes, pode faltar também o olhar sensível para o que significa estar com uma criança nesses lugares: o acolhimento dos responsáveis, a escuta das famílias, a presença de profissionais preparados para lidar com diferentes formas de expressão.

Esses desafios mostram que, embora haja avanços, ainda há muito a ser feito para os espaços serem verdadeiramente inclusivos, seguros e afetivos para todos, inclusive para as crianças. 

O lar como espaço de mundo

Camila Fremder compartilha uma reflexão pessoal: 

“Eu tenho uma preocupação de introduzir mais amigos em casa e mais eventos em casa para que o Arthur não cresça numa casa muito quieta e solitária. Ele precisa conviver com os filhos dos meus amigos em casa e dividir os brinquedos que ele tem dentro do quarto dele.”

Essa fala nos inspira a pensar sobre como os lares podem se tornar lugares de convivência e diversidade. Quando abrimos nossa casa para outras crianças, outras famílias e diferentes formas de brincar, criamos oportunidades de troca e ampliamos o repertório de experiências.

Isso não significa que exista uma única maneira de viver ou educar. Cada família encontra seus próprios caminhos. Mas a ideia de transformar o lar em um espaço de mundo pode ser vista como um convite: um gesto de abertura que favorece vínculos, ensina a compartilhar e ajuda a criança a perceber que sua casa também pode ser um lugar de encontro com o outro.

O papel dos adultos na construção dos espaços

Nesse contexto, os espaços preparados para receber crianças são aqueles que reconhecem a infância como uma etapa complexa, rica e cheia de nuances. São espaços que não apenas toleram a presença infantil, mas que a celebram. 

Que entendem que uma criança chorando não é um incômodo, mas uma expressão legítima. Que sabem que brincar é uma forma de aprender, e que aprender exige algum grau de liberdade.

E é justamente aí que entra o papel dos adultos. Pais e professores têm o privilégio de ajudar a construir esses espaços. Isso não significa ter todas as respostas, mas sim estar disposto a fazer perguntas. A se perguntar, por exemplo, se:

  • A escola está aberta à escuta das crianças;
  • O restaurante tem um espaço onde elas possam se movimentar com segurança;
  • O museu oferece atividades que respeitam os diferentes ritmos de aprendizagem;
  • O lar é um lugar de afeto e de trocas sinceras.

Educação socioemocional como caminho

Preparar espaços para receber crianças é mais do que uma tarefa a ser cumprida, é um compromisso afetivo, ético e coletivo. E esse compromisso precisa envolver todos os que fazem parte da comunidade escolar: alunos, famílias, professores, gestores e colaboradores.

Nós do LIV, acreditamos que a educação socioemocional é uma construção diária, feita de escuta, diálogo e presença. Por isso, construímos espaços de fala e escuta nas escolas, promovendo encontros que ampliam a compreensão de si, do outro e do mundo.

Hoje, já são mais de meio milhão de alunos vivenciando essa jornada. E cada um deles é acolhido em sua singularidade, com respeito aos seus tempos, sentimentos e histórias. Porque quando a escola se torna um espaço verdadeiramente preparado para receber crianças, ela também se torna um lugar onde todos podem crescer.

Se você acredita na importância de criar espaços preparados para receber crianças, venha conhecer o programa socioemocional LIV. Descubra como nosso programa pode transformar a relação entre escola, família e infância — com afeto, escuta e colaboração.




O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.