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Cancelamento de pessoas: onde fica a empatia?

10 de novembro de 2020

Você já ouviu falar sobre a cultura do cancelamento de pessoas? O tema não é exatamente uma novidade, mas ainda é motivo de muito debate. Em 2019, o assunto rondou a internet e foi um dos mais pesquisados no Google. Sua origem, contudo, é diversa. Alguns dizem que começou no meio musical e com memes usados em redes sociais, outros acreditam que o termo ganhou força com movimentos estadunidenses, como #MeToo.

O que se sabe de fato é que a cultura do cancelamento de pessoas é uma das manifestações sociais mais controversas de nossa época e merece ser debatida com atenção. De modo geral, o cancelamento começa com situações nas quais pessoas (públicas ou não) passam a receber críticas e bloqueios após serem acusadas de tomar atitudes consideradas condenáveis, tanto no ambiente presencial quanto online. O cenário é parecido na maioria dos casos: as críticas começam a viralizar e, em poucas horas, ganham redes sociais como Twitter e Instagram, expondo denúncias e levando ao linchamento virtual, bloqueio ou exclusão do perfil, podendo até chegar à Justiça.

Mas qual é a linha tênue entre a crítica e a falta de diálogo e empatia?


Novas plataformas de fala 

Um dos motivos que fez a cultura do cancelamento proliferar nas redes sociais é o fato de que elas permitem a pessoas comuns se contrapor e responder imediatamente a qualquer conteúdo publicado, algo que historicamente sempre foi mais difícil. Pelas redes, afinal, é possível se manifestar e opinar sobre os fatos, bem como comentar, apoiar ou rechaçar opiniões alheias. E, quando as pessoas se juntam em torno de uma mesma mensagem, é possível levá-la mais longe – seja para cancelar ou promover uma ideia.

Foi nesse contexto que surgiu um dos casos mais emblemáticos nesse sentido, o movimento #MeToo, iniciado por volta de 2017 com o uso dessa hashtag para denunciar casos de abuso sexual e assédio, especialmente entre atrizes e profissionais de cinema em Hollywood. Inicialmente, as denúncias online levaram ao cancelamento virtual dos denunciados, mas acabaram por se tornar um dos momentos mais emblemáticos de empoderamento e penalização de crimes desse gênero, ajudando a dar voz a inúmeros outros casos pelo mundo.

Aqui no Brasil, o assunto também ganhou repercussão envolvendo figuras públicas e anônimas, e não foram poucos que criticaram essa movimentação, alegando que o cancelamento digital pode prejudicar a pluralidade de falas. 

Segundo o doutor em filosofia pela UFRJ e coordenador do Grupo de Pesquisas Afro Perspectivas, Saberes e Infâncias, Renato Noguera, embora a busca por mais diálogo na rede seja primordial, há uma linha que separa a opinião controversa de atitudes que ferem os pilares da sociedade moderna. “A conversa muitas vezes [caminha para] convencer o outro a pensar o que eu penso, desde que isso não seja um crime, com questões que são contra a democracia, contra os direitos humanos, pois chega em um nível que não é correto, mas sim ilegal e antiético”. 

Questões a refletir

Do ponto de vista comportamental, o cancelamento convive diretamente com o que chamamos de endeusamento, atitude que faz com que pessoas comuns sejam tratadas como se fossem seres perfeitos e isentos de erro. Quem nunca leu um comentário elogioso do tipo: “Perfeita(o)!”, “Incrível, nunca erra!”, “Deusa” ou “Fada sensata!” em alguma rede social? 

Nesse processo de desumanização, que almeja no outro o acerto constante, fica mais difícil aceitar as falhas, ainda mais quando se trata de relações exclusivamente virtuais. Porém, quando a expectativa de perfeição é frustrada, cancelar essa pessoa parece o único caminho possível, como se não houvesse espaço para a empatia, o erro ou o conflito de opiniões.

Segundo Renato Noguera, essa questão passa por uma dificuldade de compreender que todo encontro humano tem conflitos. “É uma questão chave, que tem a ver com a relação dos encontros e dos afetos. As pessoas, de alguma maneira, gostam de operar nos extremos. Ou é muito bom ou muito ruim. Essa leitura mais superficial não dá dimensão para a necessidade de que viver é se relacionar com conflitos”, pondera.

Citando o filósofo holandês Baruch Spinoza, o professor reforça que os encontros podem aumentar ou diminuir nossa alegria. “A vida é sempre feita de elementos alegres e tristes, e faz parte da vida a gente aprender tanto a sorrir como a chorar. Essa ideia de cancelamento tem muito a ver com não reconhecer que o outro pode ter uma divergência comigo, que eu não preciso só gostar do meu espelho. […] A pessoa concorda plenamente comigo, é um ídolo, tem todas as ideias políticas e religiosas parecidas com as minhas, alguém que eu vou aplaudir, [mas] ao menor sinal de divergência ou posição diversa, eu acabo dizendo que essa pessoa não presta. Isso tem a ver com uma dificuldade de compreender que todo encontro humano, toda relação humana, tem conflitos. E esses conflitos e divergências não são necessariamente algo para se transformar em confronto”, ressalta.

Para o estudioso, um exercício para ir contra essa perspectiva é fazer um reconhecimento de que a gente não precisa apenas gostar de interesses semelhantes aos nossos. “[É preciso] acabar com esse narcisismo, isso de só amar o que se parece comigo. Eu também não preciso amar a tudo e a todos, mas respeitar as coisas, porque, para conviver, a gente tem que lidar com o sim e com o não. Uma das maiores dificuldades contemporâneas é que a gente construiu uma sociedade onde viver é apenas receber o sim e ter prazeres. […] Em qualquer ambiente de realidade, virtual ou não, a gente não tem como concordar sempre com o outro. E eu acredito que as consequências têm relação direta com a incompreensão de que a vida não é sempre cor-de-rosa, não é sempre azul, não é sempre de um único matiz, mas tem muitas divergências e diferenças que a enriquecem”, destaca.

Falta de escuta e de diálogo

Há situações em que o cancelamento ultrapassa o campo do discurso e se torna uma invasão à vida do cancelado, com intuito de causar constrangimento pessoal ou profissional, o que expõe, sobretudo, um cenário de falta de escuta e empatia. 

Somada à cultura do endeusamento e à velocidade de atualização dos posts, essa ausência de espaços reais de troca e escuta nas redes sociais reduz a possibilidade de diálogos que permitam aos envolvidos posicionar-se sobre diferentes fatos, como aponta a autora, atriz e apresentadora Ingrid Guimarães. 

“As pessoas acham que: ‘se eu botei você ali, eu posso te cancelar’. Ela se torna um juiz do outro na internet e aquilo gera certo poder. O problema é que a internet não tem espaço suficiente para que você responda e, às vezes, você está sendo cancelado por uma frase que falou ou até por uma expectativa que o outro colocou em você, mas que você nem pediu que ele colocasse. Na verdade, o cancelamento nas redes sociais é uma falta absoluta de diálogo. Você não tem tempo de dialogar ali. É claro que a gente tem diferentes casos, mas até a desculpa da pessoa na internet é menos poderosa do que o furo que ela deu. […] O espaço do algoritmo é menor para pedir desculpa. […] Ali uma carreira se acaba, uma pessoa some e é cancelada sem você ver o que ela pensa de verdade”, destaca.

Para o educador, escritor e palhaço Cláudio Thebas, esse quadro expõe a falta de escuta e de empatia presentes nas relações atuais. “Muitas vezes a gente confunde conversar com convencer. […] Mas só conseguiremos ser empáticos com outras pessoas quando passarmos a ser empáticos com nós mesmos”, diz. E completa: “A gente não foi educado para isso. A gente foi educado para ser bonito e inteligente. Lidamos muito pouco com nossos sentimentos, e alguns são até qualificados como feios ou errados. O cancelamento passa pela empatia, mas passa antes pela crise na escuta. Se a gente não se escutar profundamente, não vamos ser capazes de escutar ao outro, apenas uma projeção do que desejamos que esse outro seja”.

Thebas ressalta que os adultos poderiam encontrar melhores caminhos de diálogo se optassem por observar as estratégias utilizadas pelas crianças para solucionar seus conflitos, que direcionam a questão para um fato específico, e não para o caráter do outro. “[Quando está brava], a criança diz ‘estou de mal’, que não significa cancelar o outro, tampouco terminar. É suspender a relação naquele momento para sinalizar que algo machucou. Acho que a gente perdeu a capacidade de falar ao outro: ‘isso que você fez me machucou’. A gente associa o que a pessoa fez ao que ela é. […] A gente tem que aprender essa delicadeza da criança de olhar para o fato”, ressalta.

Invisibilidade de grupo

Diferentes teorias sobre o comportamento apontam que o ser humano tende a buscar o convívio dos grupos e, uma vez nesse coletivo, age de forma diferente da qual agiria individualmente. Segundo Renato Noguera, buscamos constantemente a identificação com o pensamento de um grupo e temos uma tendência a compor com quem nos identificamos, como no clássico exemplo de “vestir a mesma camisa”. 

Contudo, pondera o especialista, quando temos um grau de desidentificação, é um sinal de que a gente precisa recusar essa ideia alheia a nós. “Tem um comportamento de massa oriundo da identificação. Esse [conceito de] cancelamento tem muito a ver com querer ficar próximo daquilo que se parece conosco, que nos dá segurança. […] Tem uma fantasia de que o outro faz parte de um clube que eu também faço parte e os outros são rivais. É uma leitura mais rápida de se fazer, o bem e o mau. […] A relação com o grupo revitaliza essa fantasia e se torna um perigo para a relação com os outros e conosco”.

Para Ingrid Guimarães, a partir do momento em que se julga uma pessoa por uma única opinião, seja individual ou coletiva, elimina-se qualquer chance de conhecê-la e não se abre para saber quais são as outras opiniões dela. “O cancelamento não abre diálogo e faz com que a pessoa que cancela se sinta um juiz, um vingador. […] Mas na internet, a raiva não tem rosto”, afirma. E completa: “A pessoa que julga o outro tem inabilidade de se olhar, porque a empatia é também um ato de se olhar, ver o que sente, para reconhecer no outro a mesma coisa. Mas você não se olha, você está por trás de uma tela. […] A pessoa que xinga não tem rosto”.

Para Claudio Thebas, isso pode servir para demonstrar a diferença entre compaixão e complacência, e conclui: “Compaixão é com gente, complacência é com gesto. Não dá para você ser complacente com violência. Você até pode ter compaixão com a pessoa para imaginar que ela está em um grau de sofrimento tamanho para expressar seu sofrimento de forma violenta, mas a gente tem que interromper o gesto violento, senão passamos a ser cúmplice e motor daquilo”.

Como as escolas estão abordando o tema do cancelamento

Transpor para as aulas escolares temas da atualidade como bullying, fake news e cancelamento de pessoas é um desafio constante de muitas escolas. Esses assuntos, embora cada vez mais presentes no cotidiano, englobam questões tão complexas que apresentá-los a estudantes de diferentes faixas etárias exige um estudo aprofundado sobre as linguagens e as abordagens possíveis para cada situação – uma tarefa que vai muito além de debater com a turma o que aparece nas redes sociais ou no noticiário.

Por isso, o programa LIV (Laboratório Inteligência de Vida), vem contemplando essas e outras temáticas atuais para as atividades, de forma a promover um debate que leve os estudantes a olharem criticamente para essas questões. Nas aulas de LIV, esses temas aparecem com mais força a partir da segunda etapa do Ensino Fundamental e continuados no Ensino Médio. Assim, a partir da perspectiva da educação socioemocional, oferecemos às escolas uma possibilidade de inseri-los adequadamente em diferentes contextos com cada turma.

Segundo Marília Franco, psicóloga do Colégio Módulo (SE), esse suporte permitiu oferecer aos alunos um debate mais aprofundado, ajudando-os a entender os aspectos éticos e de cidadania que permeiam esses temas. “Falamos muito sobre essas questões para entender também a falta de empatia que nos cerca. […] O LIV está sempre fomentando essas questões dentro da equipe e isso faz com que a gente leve também para outros parceiros da escola e professores de outras disciplinas, proporcionando a troca”, destaca.

Para a professora, outro ponto positivo do material para o trabalho com temas da atualidade é a possibilidade de adaptar as atividades à realidade de cada comunidade escolar. “Mesmo com o material de apoio completo podemos englobar conteúdos mais atuais. Por exemplo, tivemos aulas sobre cancelamento virtual, comunicação e fake news que remontam à importância de buscar informações corretas”, destaca a educadora. E completa: “A partir do material do LIV, buscamos elaborar nossas aulas e disponibilizar o conteúdo para os alunos e as famílias, com textos, apresentações e sugestões de atividade para que esses debates também cheguem a suas casas”.

Para saber mais sobre como acontece o trabalho do LIV com as escolas parceiras, clique aqui.

 

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[VÍDEO] O cancelamento de pessoas a um clique. Onde fica a empatia?. Clique aqui para assistir

Fake news, falta de empatia, bullying… Escolas contam como estão abordando esses e outros temas com seus alunos

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