Como o fechamento das escolas impacta a vida dos professores

12 de maio de 2020

Para o psicanalista Christian Dunker, os reflexos do novo coronavírus pegaram as escolas desprevenidas. “Os colégios precisaram promover ajustes de conteúdo nas plataformas para conseguir compensar a permanência do aluno em casa [….]. É um assunto sobre o qual nunca nos debruçamos muito extensamente. Temos uma discussão nacional sobre homeschooling e educação a distância, principalmente quando se considera o ensino universitário. Entretanto, parece que as pessoas estavam muito fixadas no aspecto tecnológico da novidade e muito pouco tocadas pelo fato de que isso altera completamente a circulação dentro de casa, e também a repartição entre as esferas privada e pública, da qual a escola é uma representante”, pondera o especialista.

Dunker acredita que o momento também afeta a relação das escolas com as famílias. “Cada vez mais presentes, é também função dos colégios ensinar os pais. A verdadeira escola não ensina apenas para os alunos, mas também para seus funcionários, pais e fornecedores. Ensina, portanto, para todos aqueles que compõem a comunidade escolar. A ideia da escola como uma comunidade é um segundo ponto fundamental, para o qual especialistas e professores concorrem e contribuem”.

Nesse sentido, o psicanalista acredita que precisamos qualificar o debate sobre o ensino e a aprendizagem. “É necessário fazer com que as discussões, que são, muitas vezes, poderosas, rigorosas e bem feitas pelas escolas, sejam disseminadas. Para que as informações entrem no debate público, é fundamental que deixem de ser um saber privado, particular, uma propriedade daqueles que, muitas vezes, detêm um certo tipo de tecnologia ou modo de ensino, para se tornar um patrimônio de todos, um bem cultural comum”.

Professor protagonista

Embora seja um momento difícil para todos, Diego Dias, professor de Língua Portuguesa e de habilidades socioemocionais no Colégio Pensi, da rede Eleva, acredita que o fechamento das escolas acabou fazendo com que os educadores fossem colocados em papel de destaque no enfrentamento da situação. “Foi um susto, a gente saiu do colégio sem saber bem o que iria acontecer, pensando que ficaríamos apenas 15 dias em casa. Depois veio o anúncio de antecipação das férias. Hoje o professor está precisando ser uma fênix da educação, de uma hora para outra ele virou blogueiro, youtuber, técnico de informática, editor. Ou seja, ele está sendo protagonista nessa revolução que estamos vivendo. Isso mostra como nossa categoria tem a capacidade de se reinventar e de se adequar a novos contextos”.

Dias afirma que esse momento de dificuldade em prosseguir com o ensino escolar mostra o quanto a educação presencial é insubstituível, pois permite o olhar entre professores e alunos. “O desafio é que a aula virtual é mais fria, não tem como o professor sentir no aluno o que ele está vivenciando, não apenas no âmbito socioemocional, mas também nas disciplinas cognitivas”.

Para Paloma Pereira, pedagoga e consultora pedagógica do Laboratório Inteligência de Vida (LIV), todos estão em situação de se reinventar, de descobrir novas formas de conexão e aprendizado. “Conversando com alguns professores, vejo que parte deles sabe usar a tecnologia, e outros não. A gente precisa acolher esse professor e se ajudar. Quem são os pares que podem ajudar a desenvolver isso? Falamos tanto de habilidades socioemocionais, será que os professores estão praticando entre si essas habilidades?”.

Cuidando das emoções

Para a consultora e especialista em educação Lourdes Atié, a situação atual exige também o cuidado com as emoções dos professores. “No Brasil, os colégios são muito acelerados. Por conta disso, os professores, antes mesmo do novo coronavírus, já estavam muito estressados. Quanto mais aumenta a reclusão das pessoas e quanto mais tempo os indivíduos estão em casa, mais alucinadas as escolas ficam, preocupadas em enviar lição, trabalhos e informações para os alunos. E os professores que estão trabalhando em casa, muitas vezes, inclusive, sem as condições satisfatórias de trabalho, estão absolutamente enlouquecidos.”.

Por isso, Atié defende um olhar mais empático para os educadores. “Todo mundo está pensando no aluno que não pode ficar à toa em casa. Já o diretor pensa que o colégio não pode parar. A família com filho matriculado na rede particular, por sua vez, reflete sobre o problema porque está pagando a mensalidade. No entanto, ninguém pensa no professor que está mudando radicalmente sua forma de trabalhar. O docente deixou de ensinar presencialmente, como domina bem, para lecionar exclusivamente de forma digital, sem ter sido devidamente preparado e sem ter tido tempo para refletir melhor o que valeria a pena ensinar e o que seria melhor eliminar.”

Caminhos possíveis

Para contribuir com os educadores nesse momento, muitas organizações vêm trabalhando para oferecer ideias e alternativas. Além das redes de ensino e das próprias escolas, organizações como o LIV e o Porvir vem reunindo conteúdo de qualidade para inspirar a troca de ideias, tanto na relação entre professores e alunos quanto no contato dentro dos grupos familiares.

Para conhecer mais sobre esses materiais, acesse o site do Porvir, que vem postando conteúdo semanal em parceria com o LIV. Você também pode assistir aos vídeos e às lives nas redes sociais do LIV

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