O que podemos aprender agora para o futuro da educação, com Claudia Costin

12 de maio de 2020

Ao redor do mundo, já são mais de 165 países com escolas fechadas em decorrência da pandemia de coronavírus, um cenário inimaginado por gestores educacionais dessa geração. Para Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas, é exatamente por essa razão que este não é um momento de normalidade para as lideranças escolares. “Os líderes da área terão de buscar alternativas fora da caixa para garantir que todos aprendam. Agora é a hora de pensar e colocar em prática soluções ainda não experimentadas”, destaca.

Em entrevista ao Laboratório Inteligência de Vida, Costin destacou os pontos que os líderes educacionais, tanto da rede pública quanto da rede privada, podem atentar neste momento. A seguir, você confere a entrevista com os principais pontos defendidos pela especialista. Ao final do texto, pode ler ainda uma sugestão de plano de ação feita por Costin para orientar escolas e redes de ensino. Confira:

 

 

  • O que os tempos excepcionais demandam dos líderes educacionais?

 

Hoje, não é o momento de uma liderança normal. Quando a gente é um líder educacional, naturalmente buscamos garantir excelência com equidade, ou seja, aprendizagem de qualidade para todos, não apenas para alguns. Contudo, o momento que estamos vivendo agora se assemelha, em certa medida, a situações de crianças que moram em um país em guerra ou crianças em campos de refugiados. Isso significa que os líderes educacionais terão de buscar alternativas fora da caixa para garantir que todos aprendam. Agora é a hora de pensar e colocar em prática soluções ainda não experimentadas. É curioso como já existem gestores trabalhando com a combinação de plataformas de educação a distância. 

Existem ainda iniciativas mais simples, como entrega de cadernos de exercícios ou professores de educação infantil gravando mensagens em áudio e vídeo para mostrar para as crianças que estão pensando e se lembrando deles. Outros estão criando sugestões de atividades para os pais fazerem com as crianças em casa. Há secretários estão negociando espaços na televisão, como é o caso do município de Manaus, para dar aulas para diferentes séries. Algumas empresas particulares estão doando material para a promoção de educação a distância de escolas públicas. Muitas iniciativas vêm acontecendo. É o momento de olhar para todas as possibilidades. 

Devemos também olhar a importância de se trabalhar as competências socioemocionais. Deve-se orientar pais e professores para isso. Ao falarem das pessoas que têm familiares com o novo coronavírus ou que perderam entes queridos, por exemplo, os responsáveis podem abordar habilidades como empatia. É o momento também de trabalhar persistência e garra porque todos estão debruçados sob o desafio comum de manter uma casa funcionando apesar das adversidades. Os pais não podem levar as crianças para passear e brincar. Os alunos, por sua vez, precisam praticar educação física dentro de apartamentos pequenos. Então, notamos a importância da persistência. Além disso, é fundamental aplicar a resolução colaborativa de problemas, que é uma competência do século XXI. Hoje, a família precisa se unir e resolver os problemas de uma rotina reinventada para essa nova circunstância. 

  • Qual a importância de falar sobre esse assunto?

É importante falar de liderança em tempos de crise, pois estamos vivendo uma pandemia que parte de um vírus sobre o qual sabíamos muito pouco, assim como os epidemiologistas. As possibilidades de enfrentamento deste vírus ainda são, em parte, desconhecidas. Ainda não sabemos se haverá reincidência da doença. Além disso, é muito triste saber que as escolas estão total ou parcialmente fechadas em 165 países. Estamos vivendo uma crise profunda no Brasil e no resto do mundo. Nesse sentido, é fundamental que as lideranças educacionais se conscientizem do problema e lembrem que a geração em idade escolar atual não pode ter grandes perdas. Além disso, não se pode agravar as desigualdades educacionais.  

  • Como você vê essa iniciativa do LIV de promover lives com especialistas para pais e envolvidos com a educação no Brasil?

Conheci o LIV pouco depois da sua criação. Tive a oportunidade de conhecer o trabalho que é realizado em várias escolas que adotam a sistemática do LIV e gostei do que vi! Dei palestras em algumas destas instituições sobre Futuro da Educação, tendo como base a minha pesquisa para a Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma agência das Nações Unidas. 

Acho muito positivo o trabalho habitual do LIV de levar, de maneira mais estruturada, um trabalho para as escolas voltado para as competências socioemocionais, que eu chamo de competências do século XXI. Estas habilidades são importantes para os jovens que vão viver a 4ª revolução industrial e, portanto, verão postos de trabalho substituídos por máquinas ou pela inteligência artificial. É imprescindível que os alunos desenvolvam estas competências, a fim de garantirem empregabilidade e a possibilidade de empreenderem, e também para que possam se tornar cidadãos conscientes. 

Junto a isso, a iniciativa de promover lives com especialistas é muito positiva. Nós trazemos com nossa expertise discussões relevantes nesta conjuntura em que é muito importante parar para pensar e definir o que queremos para nosso país. Certamente, a crise traz criatividade e oportunidades. Que a gente possa transformar esta adversidade em um momento criativo para construir soluções para o futuro. 

 

O perfil de um líder educacional em tempos excepcionais

Para Costin, além das ações esperadas para um líder educacional em tempos normais – como estabelecer resultados claros a serem alcançados pela escola, monitorar continuamente a aprendizagem, construir ações afirmativas, exercer liderança inspiracional e ensinar todos a aprender a aprender – o gestor da área de educação, seja ele mantenedor, diretor, coordenador ou secretário de educação, precisa agir rapidamente em tempos de crise, atentando aos seguintes pontos:

  • Pensar fora da caixa;
  • Fazer um plano adaptativo para a emergência e liderar a implementação;
  • Aprender com colegas e colaborar com as redes públicas;
  • Negociar recursos com prefeito/governador, apoiadores e parceiros;
  • Continuar a exercer com mais força liderança inspiracional, dar o exemplo e não ter medo de ser disruptivo;
  • Ter coragem;
  • Aprender com o processo;
  • Reengajar a todos, mas com decisões rápidas.

 

Plano emergencial adaptativo para escolas

Para além dos aspectos necessários em tempos excepcionais, Costin sugere ainda a criação de um plano adaptativo para escolas, que considerem em sua essência os seguintes aspectos a serem feitos pelo gestor:

  • Colocar no papel o que pretende fazer e compartilhar com os colegas (e não temer os comentários ou sugestões);
  • Considerar diversos cenários alternativos no plano, considerando possíveis datas diferentes para o retorno às aulas;
  • Incluir ações de orientação aos pais e familiares e mantê-los orientados;
  • Selecionar tarefas a serem feitas em casa pelos alunos;
  • Buscar e aceitar ajuda;
  • Manter comunicação constante;
  • Atentar para aspectos logísticos, incluindo apoio social a alunos e funcionários; 
  • Adotar um currículo simplificado para essa fase;
  • Preparar avaliação para embasar o reforço a ser oferecido aos alunos;
  • Considerar as competências socioemocionais nas tarefas enviadas para casa.

#SobreOque

Em tempos de distanciamento social, o LIV aproxima pessoas falando de educação, emoções e de saúde mental. Semanalmente, temos compartilhado conteúdos, lives com especialistas e atividades exclusivas do nosso programa para você e sua família aproveitarem durante todo este tempo em casa. 

Você pode conferir o cronograma de conteúdo semanal no Instagram do LIV. Para saber a programação de cada semana e assistir ao que já foi ao ar até o momento, vá no nosso story ou nos destaques marcados com a hashtag “#sobreoque?”.

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