#SentimentosAproximam: Congresso LIV Virtual – dia 2

30 de maio de 2020

Dois dias de empatia, conversa, escuta e, principalmente, muitos aprendizados. Esse foi, para o LIV (Laboratório Inteligência de Vida), o principal resultado do Congresso LIV Virtual, evento realizado pela internet nos dias 28 e 29 de maio que levou palestras e debates gratuitos sobre educação, habilidades socioemocionais e saúde mental a mais de 40 mil pessoas em todo o Brasil. 

Foi a primeira vez que nosso evento anual foi transposto para o mundo on-line, em um movimento para garantir o respeito às indicações de isolamento e distanciamento social e, ao mesmo tempo, oferecer conteúdo de qualidade para toda comunidade escolar. Com mais de 25 convidados que participaram ao vivo, o Congresso LIV Virtual proporcionou discussões de altíssima qualidade, demonstrando o poder da troca e revelando que fazer novas conexões nos deixa mais fortes. 

Assim como no primeiro dia, a apresentação do Congresso LIV Virtual ficou por conta da jornalista Flávia Oliveira. Ao longo da tarde, foram realizadas três mesas de debate, que reuniram profissionais de diferentes áreas, como Fernanda Costa-Moura, Vera Iaconelli, Anna Carolina Lo Bianco, Maria Homem, Ingrid Guimarães, Caio Lo Bianco, Francisco Bosco, Christian Dunker, Renato Noguera, e Claudio Thebas. O evento foi encerrado com uma apresentação do cantor Lenine, que presenteou a todos com suas músicas. A seguir, você confere os principais momentos do segundo dia do nosso congresso.

 

  • Limites e consequências da medicalização dos jovens

Mediada por Caio Lo Bianco, idealizador do LIV e mestrando em educação pela Universidade de Columbia (EUA), a mesa online contou com falas de Fernanda Costa-Moura, doutora em psicologia clínica pela PUC-Rio, com ênfase em psicanálise e pesquisadora dos efeitos que impactam os jovens na entrada da vida adulta contemporânea; Vera Iaconelli, psicanalista, mestre e doutora em psicologia pela USP, diretora do Instituto Gerar, colunista da Folha de São Paulo e autora de “Mal-estar na maternidade” e “Criar filhos no século XXI”; e Anna Carolina Lo Bianco, PhD em psicologia pela Universidade de Londres (Inglaterra), professora da pós-graduação em teoria psicanalítica da UFRJ e vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia.

Com esse time de peso, o debate proporcionou um olhar pertinente sobre o excesso crescente de medicalização de estudantes, tanto crianças quanto adolescentes, nos últimos dez anos. De acordo com pesquisas citadas no debate, o Brasil é o segundo no mundo em consumo do medicamento “Ritalina”, conhecido por tratar o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), com crescimento no consumo de mais de 700% na última década.

Vera Iaconelli ressaltou que o crescimento desse fenômeno tem diversas origens e que, embora as medicações tenham sido por muito tempo um recurso para atenuar a dor, elas vêm se tornando cada vez mais comum para outros fins. “Não é só medicar o sofrimento, é medicar para ter melhor desempenho ou uma vida ilimitada, melhor performance. A gente medicaliza tudo. […] A gente medicaliza mais porque vivemos em uma lógica na qual essa é a resposta para tudo, […] o que não é verdade, pois as pessoas vivem coisas diferentes”, abordou em sua fala. 

Segundo Anna Carolina Lo Bianco, quando se fala em medicalização é preciso também ter em conta que não é apenas entre os mais jovens que ela acontece, sendo crescente o uso em todas as faixas etárias nos últimos anos. “Não podemos deixar de reconhecer esse fenômeno, ele não surge do nada. Ele está nos dispositivos econômicos e sociais, e tem uma história longa”, ponderou a especialista. 

Na mesma linha de debate, Fernanda Costa-Moura, destacou que a medicalização é um fenômeno contemporâneo que advém de uma busca constante por remédios e soluções para cada fenômeno apresentado, bem como de uma ideia naturalizada de associar dificuldades comuns a uma doença. “O TDAH é um ótimo exemplo de um dilema que a gente vive hoje. Quando a falta de atenção e agitação de uma criança é problema de saúde ou quando é um problema da criança com os métodos da escola, com a relações envolvidas ali e suas dificuldades, que podem se manifestar dessa maneira?”. 

Clique aqui para continuar acompanhando essa conversa no vídeo completo da mesa-redonda. 

 

  • O mundo pós-pandemia. Estamos preparados?

Dando continuidade a mais uma conversa de alto nível, o Congresso LIV Virtual provocou três palestrantes a responderem uma das perguntas mais comentadas nos últimos meses: estamos preparados para o retorno às atividades após a pandemia do novo coronavírus?

As apresentações sobre o tema ficaram a cargo da psicanalista Maria Homem, especialista em psicanálise, literatura, cinema e subjetividade; Francisco Bosco, doutor em teoria da literatura pela UFRJ e autor de livros como “A vítima tem sempre razão?” e “Orfeu de bicicleta: um pai no século XXI”, além de apresentar o programa Papo de segunda, no GNT; e Christian Dunker, psicanalista, professor da USP e autor reconhecido com o Prêmio Jabuti de melhor livro em psicologia e psicanálise em 2012.

Mediados pela psicóloga e coordenadora pedagógica de conteúdo do LIV, Renata Ishida, os convidados falaram sobre os caminhos possíveis para a superação do que marcou – e ainda vem marcando – os indivíduos nesse momento. Segundo Francisco Bosco, a pergunta traz, em si, um desejo de que todas as renúncias e sacrifícios atribuídos à pandemia não sejam em vão. “Para a maioria das pessoas, a questão também enuncia sobretudo uma transformação no sentido de um mundo mais igualitário, com uma dimensão socializante e comunitária maior”, afirmou.

Dando continuidade ao debate, Christian Dunker falou sobre as dificuldades nas relações entre o que é público e o que é privado, acentuadas durante o isolamento social, e as mudanças de vida causadas por ele. “A pandemia nos colocou perto de uma mistura entre público e privado, entre trabalho e escola, no lugar da família – que também é a comunidade”, disse. 

Maria Homem, por sua vez, ponderou sobre a necessidade de encontrar um diálogo no qual as pessoas possam buscar caminhos para superar a pandemia e rever as relações de comunidade sem polaridades ou acusações. Também falou sobre a educação e como enxerga o retorno às aulas após o isolamento social. “Não tem como não trazer a emoção para a escola”, ponderou.

Clique aqui e assista às apresentações completas.

 

  • O cancelamento de pessoas a um clique. Onde fica a empatia?

Semanalmente, assistimos nas redes sociais ao fenômeno atual denominado “cancelamento”. Em termos simples, a cultura de cancelamento de pessoas diz respeito ao boicote a figuras públicas, sejam atores, políticos, músicos ou influenciadores digitais que demonstrem algum tipo de postura considerada condenável, ofensiva ou preconceituosa. Contudo, essa questão traz um debate sobre nossas atitudes: será que cancelar também não é julgar por um ato sem saber o cenário completo ou a história que existe por trás de uma atitude?

Para falar sobre isso, convidamos a atriz, autora, apresentadora e mãe LIV, Ingrid Guimarães; o doutor em filosofia pela UFRJ e coordenador do Grupo de Pesquisas Afro Perspectivas, Saberes e Infâncias (Afrosin) Renato Noguera; e o educador, escritor, palestrante, publicitário e palhaço, Cláudio Thebas.

O debate, mediado pelo psicólogo e consultor pedagógico do LIV, Phelipe Ribeiro, começou abordando o relacionamento no espaço virtual, onde, segundo Ingrid Guimarães, o diálogo é limitado. “O cancelamento tem muito a ver com o endeusamento, que coloca uma pessoa em um lugar que muitas vezes ela nem é aquilo tudo o que se almeja e, por alguma coisa que ela fale ou um comentário que vá contra o que alguém acredita que ela é, as pessoas deixam de segui-la. […] As pessoas acham que ‘se eu botei você ali’ eu posso te cancelar, então a pessoa vira um juiz do outro na internet e aquilo gera certo poder. O problema é que a internet não tem espaço suficiente para que você responda, e às vezes você está sendo cancelado por uma frase que falou ou uma expectativa que o outro colocou e você nem pediu que ele colocasse. Na verdade, o cancelamento nas redes sociais é uma falta absoluta de diálogo”,  ponderou. 

Segundo Renato Nogueira, a cultura do cancelamento tem a ver com uma dificuldade de compreender que todo encontro humano tem conflitos. “Esses conflitos e divergências não são necessariamente algo para se transformar em confronto. É esse exercício humano de reconhecimento de limites que precisamos fazer, um reconhecimento de que a gente não tem que gostar só do espelho […]. Eu não preciso amar a tudo e a todos, mas posso respeitar as coisas”. 

Dando continuidade ao debate, Cláudio Thebas falou sobre maneiras de solucionar os conflitos por meio do diálogo e da escuta, inclusive no ambiente virtual. “Muitas vezes a gente confunde conversar com convencer”, ponderou, e destacou que só conseguiremos ser empáticos com outras pessoas quando passarmos a ser empáticos com nós mesmos. “A gente não foi educado a isso, a gente foi educado para ser bonito e inteligente. Lidamos muito pouco com nossos sentimentos, e alguns eram até qualificados como feios ou errados. O cancelamento passa pela empatia, mas passa antes pela crise na escuta. Se a gente não se escutar profundamente, não vamos ser capazes de escutar ao outro, apenas uma projeção do que desejamos que esse outro seja”.

Continue acompanhando essa conversa. Clique aqui e assista às apresentações completas.

 

  • Um brinde à música 

O encerramento do Congresso LIV Virtual contou a participação especial do cantor Lenine, que brindou o público em uma live musical. Para escutar e curtir esse show incrível, clique aqui

O pernambucano Oswaldo Lenine Macedo Pimentel também é compositor, arranjador, multi-instrumentista, letrista, ator, escritor, produtor musical, engenheiro químico e ecologista. Ao longo de sua carreira, foi ganhador de seis Grammy Latino, dois prêmios da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e nove Prêmios da Música Brasileira. 

Antes da apresentação, ele nos concedeu uma entrevista que enviamos exclusivamente para os assinantes de nossa newsletter. Se você ainda não é assinante, cadastre-se e receba novidades e conteúdos em seu e-mail.

 

  • Um evento pela solidariedade

Em sua palestra no primeiro dia de Congresso LIV Virtual, o sociólogo Domenico De Masi falou bastante sobre a solidariedade e como ela é importante para nossa humanidade. O LIV também acredita que apenas podemos avançar como sociedade se formos solidários. Por isso, o evento estimulou a doação para o movimento “Rio Contra Corona”, que vem mobilizando a coleta de alimentos e produtos essenciais de limpeza para levar a moradores das comunidades do Rio de Janeiro mais afetadas pela crise do coronavírus.

Nesse momento de pandemia, a solidariedade é a melhor habilidade que a gente pode oferecer, por isso, as doações para o movimento continuam abertas e você pode saber mais sobre o projeto e as formas de doar no site www.riocontracorona.org

 

  • Novidades do LIV

No programa LIV, buscamos incentivar o desenvolvimento de competências socioemocionais como criatividade, pensamento crítico e perseverança, dentre outros, em mais de 350 mil alunos no Brasil. A proposta abrange mais de 300 escolas que acreditam que oferecer à comunidade escolar um lugar para falar de sentimentos e desenvolver habilidades é, na verdade, preparar o aluno para contribuir para uma sociedade mais justa e colaborativa.

O material é revisado anualmente, sempre buscando entender as questões atuais que cercam as escolas e a sociedade. Durante o Congresso LIV Virtual foram anunciadas as novidades para o programa. Confira:

 

Guia LIV de Acolhimento

Não sabemos como será o retorno de educadores e estudantes à vida escolar, mas sabemos que o momento demandará muita escuta, troca e empatia, bem como um trabalho direcionado para atender os indivíduos.

O LIV desenvolveu um material para que possamos juntos construir comunidades mais fortes, redes mais sustentáveis e ambientes mais saudáveis onde as emoções são levadas a sério e os espaços são seguros para que todos se sintam acolhidos.

O material será disponibilizado de forma gratuita para todos os educadores interessados, com a intenção de transbordar o cuidado emocional para escolas por todo o Brasil no retorno às aulas presenciais.

 

Espaço de SER

O ensino público brasileiro marcou forte presença durante os dois dias de evento: a fim de levar a proposta da Educação Integral a um número cada vez maior de escolas e alunos do Brasil, lançamos, oficialmente, o Espaço de SER, após uma parceria bem-sucedida com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro ao longo do ano de 2019. O Espaço de SER (Sentir, Expressar, Relacionar) nasceu com o sonho de ser um programa parceiro de escolas públicas e privadas na construção da Educação Integral. Siga também o Espaço de SER no instagram e acompanhe os conteúdos!

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