A importância da corporeidade no brincar

7 de maio de 2020

Este artigo é produzido pela equipe pedagógica do LIV para a semana de conteúdos do #LIVAproxima. Acompanhe diariamente no @laboratoriointeligenciadevida! Boa Leitura!

 

Mães e pais estão em casa com seus filhos diante de uma nova realidade. Com ela, a dificuldade em lidar com todas as demandas que envolvem trabalho, casa, família e a educação das crianças e dos jovens. As escolas estão ajudando o máximo possível dando incentivo e suporte aos estudos a distância, mas e toda aquela energia que era investida nos pátios, parques e atividades em grupo e ao ar livre? Como dar conta disso neste novo cenário?

Muitas famílias podem ter se sentido tensionadas a tentar dar conta magistralmente de tudo, sem deixar “a peteca cair”. Por falar em peteca, quem está conseguindo algumas horas livres durante o dia para brincar com os filhos em casa, nesta nova rotina? Aquele tempo para estar em contato ativo com o corpo, a imaginação e a brincadeira, que envolve também a pausa e o vazio. Como nos lembra Gandhy Piorski, grande pesquisador da cultura da infância, “o nada é o chão do todo”.

Partindo desse chão que possibilita a pausa e a criação, podemos pensar em práticas cotidianas que valorizam uma experimentação voltada para simplesmente brincar, fantasiar, explorar as possibilidades dos objetos e movimentos do corpo, sem, necessariamente, um objetivo fechado. Talvez um bom começo seja viajar no tempo e os adultos da casa presentearem os mais novos com memórias das brincadeiras favoritas da infância, percorrendo o caminho da sensibilidade – como eram, onde aconteciam e o que tinham de tão especial? 

Além de valorizar o que a família já conhece, essa perspectiva temporal amplia a nossa visão, podendo apresentar novas possibilidades, muito mais ricas e abrangentes que os brinquedos já fabricados e prontos que encontramos nos quartos das crianças. Começar uma investigação pela casa dos materiais que podem ser transformados em brinquedos, instrumentos musicais, jogos e histórias abrirá caminhos para a imaginação.

E, por falarmos em imaginação e criatividade, podemos pensar que, para ser criativo, é necessário muito conteúdo, pesquisa e informação. Ao contrário! A imaginação se apresenta muito mais como um movimento de exploração das possibilidades a partir de um vazio do que da transformação e adaptação de algo que já está pronto e criado. Por isso, incentivamos aqui que os adultos deem espaço e tempo para crianças e jovens experimentarem o nada ou o inacabado, acompanhando e estimulando a autonomia do brincar. Envolver-se na brincadeira sem ser aquele que determina e demonstra os caminhos, mas o que vai junto na descoberta das possibilidades.

Quando uma criança brinca, ela está explorando a sua interioridade e o mundo à sua volta. Ali está o corpo-sujeito, implicado nas relações subjetivas, e não o corpo-objeto da lógica cartesiana de consumo e produção. Observando uma criança brincar, podemos perceber que seu corpo explora os materiais e o espaço de forma ampla. Todo o seu ser está envolvido na brincadeira – a imaginação, os movimentos, os sentimentos, a memória, o pensamento, as relações.

O que acontece é que vamos “adultecendo” e nos distanciando dessa integralidade de quem somos. Conforme o tempo vai passando, ficamos mais fixados nos pensamentos e memórias e nos afastamos muitas vezes dos movimentos naturais de experimentação da vida que se dão pelo corpo sensível e expressivo. 

O corpo da criança ousa ser animal, objeto, vento, céu, areia, água. Basta propiciar espaço e tempo para a imaginação dela germinar. Nosso convite aqui é para uma experimentação de atividades que envolvam o corpo – inclusive dos adultos –  e materiais diversos, que possam servir de base para novas formas e usos. 

Brincar de mímica, contar uma história sem uso de livros (apenas com expressões do corpo e a narração da história), construir robôs, bonecos e personagens com materiais que iriam para a reciclagem, jogar dama ou xadrez em um tabuleiro humano, tingir um papel com a água que cozinhou a beterraba, dançar livremente ao som de uma playlist montada em conjunto, improvisar instrumentos musicais com utensílios de cozinha, compor uma música que só vocês saberão cantar, extrair ritmos e sons batucando o próprio corpo… Dançar uma ciranda, de mãos dadas. Plantar sementes em um canteirinho na janela do quarto. Acordar e adormecer com um bom momento de alongamento e respiração profunda. Ir até onde a imaginação de vocês puder viajar. E relaxar. Porque não há sinfonia sem pausa.

Para finalizar, propomos a reflexão também sobre o quanto do corpo do adulto está presente nas relações afetivas dentro de casa. Onde está aquele abraço que acolhe em um momento de raiva ou de tristeza? Quantos momentos de toque, olhar e carinhos acontecem em um dia da agitada rotina? Para as crianças, cosquinhas são a tecnologia mais poderosa de alegria e passear pela casa na altura dos ombros de quem vê tudo de cima pode ser engrandecedor. E que tal descobrir com os adolescentes por quais jogos e explorações corporais eles se interessam? Ouvir os jovens e considerar seus interesses é importantíssimo para manter vínculo e autonomia andando de mãos dadas. 

Considerem os saberes que já possuem dentro de casa e construam novos conhecimentos e momentos em família!

Assine nossa news

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *