Educação socioemocional em tempos de isolamento social

21 de maio de 2020

Um termo que vem sendo bastante usado, principalmente neste tempo de pandemia, é a educação socioemocional. Isso porque a escola vem deixando de se responsabilizar apenas com a transmissão de conteúdo, passando a se preocupar também em desenvolver os alunos de forma integral. Ou seja, a educação socioemocional é uma prática pedagógica que tem como propósito desenvolver e envolver os alunos de maneira integral, de forma intencional, regular e dentro da grade curricular.

“O contato presencial do professor com seu aluno agregava olhares, posturas, falas, comportamentos, aspectos que se tornam quase impossíveis à distância”

Sendo assim, a Base Nacional Comum Curricular, documento oficial que pauta os pontos obrigatórios do currículo escolar brasileiro, afirma que habilidades socioemocionais devem entrar nas salas de aula e fazer parte do plano de ensino de todas as escolas. Ricardo Becker, professor do Laboratório Inteligência de Vida – LIV, sobre educação socioemocional a distância, explica que além das disciplinas acadêmicas clássicas, é necessário desenvolver outras habilidades exigidas a fim de assegurar sucesso, bem-estar e estabilidade emocional, tais como: empatia, confiança, colaboração, autoconhecimento e comunicação. Habilidades estas, que não só auxiliam na formação humana como também influenciam diretamente no desempenho acadêmico.

– Desta forma, é importante compreendermos que faz parte da função da escola, em parceria com as famílias, se responsabilizar pelos aspectos socioemocionais. Ou seja, antes de tudo, precisamos nos sentir responsáveis pelas pessoas e pela forma como cada um vê e aprende o mundo do seu jeito, e não só pelo que queremos que elas acertem em uma prova, aponta Ricardo.

“Precisamos nos sentir responsáveis pelas pessoas e pela forma como cada um vê e aprende o mundo do seu jeito”

Mas para que este tipo de educação aconteça, é fundamental reservar um espaço na grade curricular para o desenvolvimento socioemocional, tão importante quanto o cognitivo. Outra condição necessária é a estruturação de um currículo socioemocional. Para o professor Ricardo, é extremamente necessário que uma educação socioemocional seja pautada em estudo, bibliografia e que converse com diferentes campos de conhecimento, como psicologia, neurociências, pedagogia, psicanálise, artes…

– Portanto, a educação socioemocional é responsabilidade de todos os sujeitos que se relacionam com a aprendizagem e o desenvolvimento emocional dos estudantes e, por isso, é fundamental a união de três pilares: escola, aluno e família.

O especialista ainda aponta mais um passo importante para a realização de uma educação socioemocional satisfatória: a linguagem. Ricardo afirma que a forma de juntar todo um vasto campo de conhecimento, objetivos de aprendizagem, técnicas e estratégias para desenvolvimento socioemocional para gerar um currículo é por meio da linguagem.

– Eu já fiz um questionamento para todos os meus alunos de 11 a 17 anos em uma aula de LIV (Laboratório Inteligência de Vida, nosso currículo socioemocional): “Quem já teve uma dúvida em uma aula enquanto um(a) professor(a) explicava a matéria, mas não levantou a mão porque teve vergonha?”. Confesso que não fiquei surpreso, mas a maioria esmagadora dos alunos se identificou. Aqui temos um ponto importante que demonstra como o socioemocional e a cognição se influenciam.

“Quando uma pessoa não tira uma dúvida por vergonha, ela está dizendo “eu não estou em um ambiente onde me sinto confortável e acolhido”

O que o professor explica é que a partir do momento em que uma pessoa não tira uma dúvida por vergonha, por trás, ela está dizendo “eu não estou em um ambiente onde me sinto confortável e acolhido” ou “eu não tenho a confiança de mostrar algo que não sei, ou que não entendi, na frente de outras pessoas”.

A educação socioemocional revela que quando é criado um ambiente onde perguntar é valorizado, onde errar faz parte de aprender, e escutar outras pessoas promove crescimento pessoal, certamente existirão alunos mais confiantes, mais empáticos, colaborativos e mais participantes e atuantes no seu desenvolvimento. Além disso, é potencializada uma melhora no desempenho acadêmico, prevenção do bullying, redução de índices de violência e comportamentos agressivos, ampliação do autoconhecimento e melhora nas relações interpessoais.

Durante este período de quarentena, diversos desafios surgiram, como adaptação do currículo, utilização de novas ferramentas, engajamento dos alunos, adaptação da linguagem antes usada em sala de aula, presencialmente, para um modelo remoto e online; problemas de conexão, diferentes realidades familiares e de acesso à dispositivos para interação online. E a perda do contato presencial do professor com seu aluno, que agregava olhares, posturas, falas, comportamentos, aspectos que se tornam quase impossíveis à distância.

Para falar sobre generosidade foi usada uma história chamada “A Árvore Generosa”

Mais uma vez, a educação socioemotiva entra em cena com a possibilidade de atividades e campanhas criadas para que, em família, exista a reflexão de como o amor pode fazer com que todos sejam mais pacientes e como a criatividade pode ser usada para administrar o ócio e como a empatia e a colaboração podem fazer com que todos consigam pensar em como ser generosos uns com os outros em casa.

– Em uma dessas atividades, falamos sobre generosidade usando uma história chamada “A Árvore Generosa”, de Shell Silverstein. As reflexões eram em torno de como poderíamos ser generosos com nós mesmos, com as pessoas que estão na nossa casa e com outras pessoas que estão distante. Em seguida, cada família, usando objetos encontrados em suas casas, construiu uma árvore da generosidade onde as plantas, eram exemplos de como cada um poderia praticar atos generosos, deixando “folhas” em branco para novas ideias.

[Esta entrevista foi originalmente cedida ao portal Pleno News.]

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