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História, empatia e escuta ativa: 5 perguntas para Lilia Schwarcz

20 de setembro de 2021

De branquitude e racismo até escuta e promoção do diálogo nas escolas. Esses são alguns dos temas abordados com a antropóloga, historiadora e professora Lilia Schwarcz nesta entrevista exclusiva. Confira! 

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Para Lilia Schwarcz, muito além da disciplina escolar, o estudo da História permite às pessoas desenvolver empatia e escuta ativa. Em entrevista concedida por vídeo ao blog do programa LIV, a doutora em antropologia social, professora da Universidade de São Paulo e global scholar na Universidade de Princeton (EUA) levantou essa questão e propôs uma nova visão para o debate.

Na conversa, ela questiona as formas de ensinar História na atualidade e aponta debates necessários para os currículos escolares, como a branquitude, além de promover o exercício da escuta entre professor e aluno e o estímulo ao pensamento crítico. 

Além de educadora, Lilia é autora de vários livros na área de antropologia e história – entre eles “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador” e “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes. Atualmente é curadora adjunta no MASP (Museu de Artes de São Paulo) e colunista do jornal “Nexo”. Além disso, faz parte da diretoria da editora Companhia das Letras.

Em agosto deste ano, ela participou do 3º Congresso LIV Virtual, ocasião na qual concedeu a entrevista que você confere a seguir: 

5 perguntas sobre História, empatia e escuta ativa, com Lilia Schwarcz 

1. De que maneira o contato com a História influencia a forma como lidamos com as nossas próprias emoções? 

Para responder essa questão, Lilia Schwarcz propõe uma mudança de pensamento a respeito do que é História:

“A gente acha que História é decorar, que é uma coisa que já foi, já acabou, mas eu sempre comprovo que nosso presente está cheio de passado. Quando nós nos evadimos dessa realidade, nós colocamos uma camisa de chumbo na nossa frente e não percebemos que muitas das nossas reações mais autoritárias, mais afetivas, mais identificadas, têm a ver com esse nosso passado.”

Nesse sentido, ela diz ainda que a História é uma categoria de entendimento do mundo afetivo que nos rodeia. “A gente tem que combater essa noção muito quadradinha da História como uma ciência do passado”.

2. Como a História ensinada nas escolas até hoje impacta os relacionamentos interpessoais? 

Para Lilia, a História ensinada nas escolas é ainda muito factual. “Nós fizemos uma pesquisa na minha universidade sobre o que as crianças entendiam sobre história e apareceu uma resposta que é até divertida: ‘História é composta por uma série de montanhas, algumas pessoas e suas casas’. Nós temos que melhorar essa ideia”.

De acordo com a especialista, uma nova reflexão sobre a História é necessária, porque a abordagem dada ainda hoje ao tema é “muito colonial”:

 “Nós somos muito ligados a uma História profundamente europeia. Não estou dizendo que não temos passados europeus, mas não só. Nós temos que pensar em uma História mais inclusiva, uma História dos povos africanos que tiveram que entrar no Brasil compulsoriamente. E nunca podemos esquecer que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Precisamos também pensar em uma História indígena […], uma História também dos povos orientais […], dos povos quilombolas, das populações ribeirinhas, das mulheres.”

Lilia também ressalta que a História, da maneira como ela se organiza, é um sintoma da sociedade atual, “que também é uma sociedade que se quer muito europeia, marcada pelo machismo, uma sociedade que não é inclusiva”, pontua.

Além da inclusão de minorias nas narrativas históricas, ela aponta a falta de diversidade como um sintoma da própria sociedade e diz acreditar na mudança gradual de pensamento da sociedade. “As escolas estão mudando. Eu acredito, portanto, que quanto mais a História ensinada nas escolas for uma História que diga respeito à população brasileira, mais ela será afetada por essa História”. 

Nesse sentido, ela completa falando sobre o distanciamento da realidade dos alunos que muitas vezes ocorre no estudo dessa disciplina e sugere uma mudança de paradigmas:

“Muitos alunos me perguntam por que a gente conta uma História da Grécia e de Roma? Eu acho uma boa pergunta. Outros me perguntam: ‘por que eu tenho que estudar a queda da Bastilha na França se eu não tenho chance de ir para França?’ Talvez a gente tenha que estudar mais as histórias que nos falam a respeito, que mexem com a nossa alma, que mexem com o nosso afeto. Aí sim, eu acho que a História vai mexer com o coração e as mentes de todos os nossos alunos, e dos pais e professores também.”

3. Qual a importância da discussão sobre branquitude para o desenvolvimento das competências enumeradas pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular)? 

O conceito de branquitude é um dos temas de pesquisa de Lilia Schwarcz, que vê reflexos dele também nas escolas e na criação de documentos norteadores, como a Base Nacional Comum Curricular:

“Eu penso que não há como falar de racismo sem falar de branquitude. Ou seja, quem produz a inferioridade, como diz [o psiquiatra] Frantz Fanon, são as populações brancas. Mais ainda: a branquitude virou regra e compasso no Brasil.”

Como exemplos, ela cita violências cometidas dentro e fora do ambiente escolar, como a exaltação ao cabelo “liso e sedoso” ou a indicação de apenas crianças brancas para representar anjos em circunstâncias teatrais ou religiosas – atitudes que reduzem a representatividade racial. 

“Quando nós mostramos só personagens brancos, o que estamos dizendo? Que foi a população branca que atuou, que fez, e que a população negra e indígena foi passiva. Nada disso é verdade”. E completa:

“Como branca, que eu sou, eu acho que temos que estudar as teorias que foram criadas pelas populações brancas, que foram o racismo, o branqueamento, a teoria da democracia racial, a meritocracia. […] A branquitude é um lugar social, um lugar de privilégio, e é preciso que a gente comece a falar sobre isso nas escolas”.

4. Podemos abrir mais espaço nas escolas para o pensamento crítico? 

Ao falar em pensamento crítico, Lilia aponta que contar com a experiência dos jovens deve ser uma prioridade:

“Um aluno ativo, um aluno participativo, é aquele que traz o seu conhecimento para a aula. Nós temos que parar com essas distinções entre arte e artesanato, conhecimento erudito e conhecimento popular. Todas essas divisões expulsam essa população que tem um pensamento crítico”.

Ela também fala sobre a importância de estabelecer uma relação de proximidade entre escola e aluno: “Quanto mais a escola […] ficar com currículos muito fechados e muito afastados da experiência do aluno, eu acho que a gente está incentivando pouco o pensamento crítico”. 

A entrevistada diz ainda que, para produzir pensamento crítico, tanto o corpo discente quando o docente precisam praticar a escuta, e nos fala sobre as diferenças entre ouvir e escutar: 

“Ouvir é uma capacidade biológica, que quase todos nós temos. Escutar é uma opção cultural, política e econômica. Eu defendo a abertura da escuta. Se nós não pudermos escutar, se não formos acolhedores em relação ao pensamento do outro, por que é que os estudantes têm que ser acolhedores em relação ao nosso pensamento?” 

Por fim, ela menciona o diálogo como fundamental na construção do pensamento crítico:  

“Toda pergunta, para mim, revela curiosidade, revela vontade, desejo e afeto, no sentido de estar afetado. Toda pergunta é boa, é um gatilho para esse diálogo que muitas vezes nos faz tanta falta, sobretudo no momento em que vivemos, de tanta fake news e inundados pelas redes”, diz.

5. Como romper a barreira da escuta ao lidar com as diferenças de pensamento?

Para engajar as pessoas nessa escuta, Lilia fala de uma “abertura para com o outro”, citando o conceito de alteridade, proposto pelo filósofo francês Jean Jacques Rousseau. Ela diz que essa alteridade acontece quando “a diferença que eu percebo no outro produz diferença em mim mesmo, de tal maneira que eu passo a estranhar a mim mesmo e familiarizar o outro”.

Como forma de questionar linhas de pensamento tradicionais e nos aproximarmos das narrativas alheias, ela destaca estimular a curiosidade, fazendo uso da alteridade: 

“Praticar a curiosidade genuína é uma forma de nós valorizarmos a diversidade de pensamento […]. Quanto mais diferença nós tivermos, quanto mais experiências nós tivermos, mais nós vamos enriquecer o nosso pensamento.” 

Ainda sobre as diferentes narrativas, ela fala sobre a importância da experiência do deslocamento e assimilação de novas histórias, e reforça a importância das cotas na educação: 

“Na universidade onde eu trabalho, a experiência de cotas fez com que o nosso currículo, que era muito branco, se abrisse. […] Quando a diferença chega à universidade, tem uma qualidade fundamental, quase heurística: você tensiona um currículo que nasceu morto, e produz um currículo que diga mais respeito não só ao outro, mas a você também. É o que eu chamo de abertura genuína para o outro.” 

No ambiente virtual, a historiadora nos conta sua experiência de imersão em redes

sociais e destaca a importância de ocupar esses espaços com boa informação, “sem demonizar as redes sociais” e tornando o ambiente “menos hostil”: 

“Nós temos que ocupar o ambiente virtual com boa informação, e boa informação sempre passa pelo afeto. A boa informação sempre passa pelo seu lado mais genuíno. Nem tudo no ambiente virtual é bom, não sou ingênua, mas acho que podemos domesticar esse ambiente e reverter a nosso favor.” 

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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