Por que falar de masculinidade no contexto escolar? - com Memoh

Por que falar de masculinidade no contexto escolar? – com Memoh

14 de dezembro de 2021

Educador, pesquisador e facilitador do Projeto Memoh, Caio Cesar dos Santos responde a uma série de perguntas que ajudam a compreender melhor o tema da masculinidade. Confira!

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Falar sobre igualdade de gênero é, de modo geral, um desafio para grande parte das escolas. Nesse sentido, muitos educadores e educadoras ainda encontram dificuldades para abordar em suas falas a construção de masculinidade e os preconceitos e tabus que circundam esse tema.

Em uma tentativa de mudar essa realidade, Caio Cesar dos Santos, professor de geografia, pesquisador e escritor, vem organizando rodas de conversa sobre masculinidades desde 2016. Sua iniciativa procura acolher e discutir temas como a masculinidade tóxica e o papel do homem na promoção da igualdade de gênero.

A iniciativa tem ganhado destaque no Brasil e no mundo e atraiu, inclusive, a atenção das Nações Unidas, que, em 2019, convidou o educador para falar sobre o assunto no Fórum Internacional de Igualdade de Gênero na Tunísia. 

Atualmente, Caio Cesar faz parte do Projeto Memoh, atuando como um dos facilitadores e organizadores fixos dos Grupos Reflexivos. Durante o 3º Congresso LIV Virtual, ele participou de uma oficina exclusiva para escolas parceiras do programa, na qual explicou sobre como a masculinidade pode ser debatida no contexto escolar. 

Na ocasião, ele concedeu uma entrevista ao nosso blog. Você pode conferir o conteúdo completo em áudio ou ver os destaques de sua fala no texto abaixo:

O que é masculinidade e por que devemos pensar nela na escola? 

De acordo com Caio Cesar dos Santos, o conceito de masculinidade é uma construção social. “São regras que a sociedade impõe aos meninos e homens para que eles possam seguir e a partir disso serem considerados por essa sociedade como homens de verdade”, explica. 

Para ele, “é importante falar disso na escola, não só porque a escola é um ambiente onde essas regras são intensificadas, mas porque também existe uma série de consequências negativas em relação a comportamento, desempenho e às relações que são construídas nesse ambiente”, afirma. 

Quais são os possíveis benefícios de falar sobre a masculinidade durante as aulas? 

Um dos benefícios de tratar esse debate em sala de aula é construir uma relação melhor entre os alunos, tanto entre os meninos quanto deles com as meninas, aponta o educador. 

“Isso traz um impacto muito grande na maneira como eles enxergam aquele ambiente, no desenvolvimento escolar deles, e cria de fato um ambiente mais saudável, menos violento”, destaca.

Como o gênero afeta a experiência escolar e os processos de aprendizagem? 

De acordo com Caio Cesar, boa parte da construção da masculinidade é pautada em uma experiência de violência. “Dentro do ambiente escolar, onde há uma intensificação desse processo, isso traz um gasto de energia e de atenção muito grande para os meninos, que se preocupam muito em cumprir todos esses processos para serem considerados ‘homens de verdade’, especialmente nessa idade em que eles tentam se provar como alguém”, explica e completa: 

“Cria-se, a partir disso, um ambiente muito violento, onde a violência, não apenas física, mas de vários contextos, é muito natural. Obviamente isso vai impactar o processo de aprendizagem”. 

Para o entrevistado, “a gente não aprende em um ambiente em que não está confortável”. Ou seja, “você pode ter a melhor didática do mundo, mas se o ambiente não é confortável para aquele aluno, ele não vai conseguir aprender”.

Caio Cesar diz ainda que “quando nós trazemos essas experiências de gênero, de masculinidade, muito pautadas pela violência e por essa pressão muito grande em cumprir essas regras do que é ser homem, isso certamente vai afetar esse processo não só dos meninos, mas da turma como um todo”, destaca. 

Como o corpo docente pode contribuir para uma mudança desse debate no ambiente escolar?

“Eu costumo sempre dizer que os professores têm uma responsabilidade muito grande no processo de vivência de uma sala de aula, que vai além da questão acadêmica, de ensinar matéria, passar conteúdo, mas de fato prover um ambiente bom para os alunos dentro de sala de aula, nas suas relações. E acho que a maneira de se contribuir passa muito por uma questão estrutural da escola, de como a escola permite, ou não, que esse debate aconteça de maneira contínua, organizada e de maneira conjunta com a família”, diz Caio Cesar. 

Segundo o educador, a contribuição se dá também a nível individual. “Os professores precisam entender que eles também precisam rever questões pessoais para que possam intervir e se responsabilizar de maneira efetiva dentro desse processo de mudança”.

Para isso, destaca, é importante ter uma boa relação com a turma. “Quando você tem uma proximidade com o aluno, ele tende a te ouvir mais, a absorver mais aquilo que você diz. Fazer esse processo, essa mudança pessoal, também é muito significativo”, pondera. 

Quais ações são necessárias para incentivar os meninos a expressarem mais seus sentimentos?

De maneira inicial, Caio Cesar diz que é preciso criar um ambiente confortável para que se fale sobre esses temas. “Não adianta incentivar os meninos a falarem se a sala de aula, ou a escola como um todo, não está ainda preparada, não está ainda entendida de que esse vai ser um processo positivo para todo mundo”. 

Ele diz que “mais do que criar esse ambiente confortável, é preciso tornar isso natural e ter uma continuidade”. Nesse sentido, indica tanto rodas de conversa quanto momentos de bate papo individual ou com grupos menores.

“É uma coisa bem prática mesmo. Incentivar os alunos a trazerem suas expressões de sentimento a partir de uma prática contínua. E, mais do que isso, criar um ambiente confortável onde, quando esse menino for se expressar, ele não seja ‘zoado’, diminuído, ou algo desse tipo”, completa. 

Masculinidade na sala de aula: um exemplo prático

No programa LIV, o tema da masculinidade surge no material para o Ensino Médio, com diferentes debates propostos para as turmas e conta com o apoio de uma série de vídeos gravados em parceria com o Projeto Memoh. Confira um pouco mais dessa proposta no trailer a seguir:

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

 

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