Saúde mental e suicídio na juventude: uma entrevista com Vera Iaconelli

Saúde mental e suicídio na juventude: uma entrevista com Vera Iaconelli

15 de dezembro de 2021

Para a psicanalista Vera Iaconelli, o diálogo deve ser a base principal para o debate sobre esse tema. Ao LIV ela explicou mais sobre a questão e ofereceu recomendações a escolas e famílias. Confira!

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O suicídio na infância e na juventude é, certamente, um tema sobre o qual preferiríamos nunca precisar falar, mas a realidade é que ele tem preocupado cada vez mais a sociedade contemporânea, fazendo com que seja preciso debatê-lo a partir de diferentes pontos de vista.

Segundo a Organização Pan-americana de Saúde, as condições de saúde mental são responsáveis por 16% da carga global de doenças e lesões em pessoas com idade entre 10 e 19 anos. Ainda de acordo com a organização, as consequências de não abordar as condições emocionais dos adolescentes se estendem à idade adulta, prejudicando seu quadro e limitando futuras oportunidades. 

Nessa perspectiva, a promoção da saúde mental e a prevenção de transtornos são fundamentais. E para ampliar essa questão sob o olhar das escolas e das famílias, o programa LIV convidou a especialista Vera Iaconelli a participar do LIV Talks, um evento exclusivo de diálogo com as escolas. Na ocasião, ela concedeu uma entrevista exclusiva para nosso blog que você poderá ler abaixo.

Vera é psicanalista, mestre e doutora em psicologia pela USP, diretora do Instituto Gerar, colunista da Folha de São Paulo e autora dos livros “Mal-estar na maternidade” e “Criar filhos no século XXI”. Também participou da edição 2020 do Congresso LIV Virtual em um debate bem interessante sobre o tema (se você não assistiu, pode conferir aqui).

Na conversa a seguir, ela fala sobre prevenção, atuação da escola junto à sua comunidade, responsabilidades dos atores envolvidos na educação de crianças e adolescentes, saúde mental e espaços de escuta. Confira:

  1. Mundialmente, suicídio é a segunda principal causa de morte de adolescentes e a primeira quando considerada a população de meninas. O número de suicídio de adolescentes no Brasil vem crescendo recentemente. O que pode ser feito como forma de prevenção na escola?

Vera Iaconelli – “O suicídio é o elo final de uma cadeia de eventos que muitas vezes é invisível. Não porque eles não estejam aí para serem vistos, mas porque temos dificuldade de reconhecer os indícios. Também porque muitos indícios não vão levar ao suicídio. Só depois que acontece o suicídio é que conseguimos mapear essas cenas que o antecedem.

Sendo uma população de jovens, precisamos saber que existe um teor de impulsividade próprio do adolescente e do jovem, que faz com que seja mais disruptivo ainda. Uma vivência de sofrimento que um adulto teria, o jovem resolve em ato, por essa própria tendência dessa fase etária.

O que nos cabe? Tentar aproveitar todos os canais de comunicação com o jovem. Não precisa ser no momento da crise, muito pelo contrário. É ao longo do dia a dia escolar, do dia a dia familiar, estar de olho na criança, observar como ela está comendo, como ela está dormindo, como ela está se comunicando. 

Eu acho que um dos grandes problemas que queima pontes entre jovens e adultos é que o adulto se sente muito na obrigação de ensinar, explicar e antecipar coisas ao jovem o tempo todo. Como se ao falar tudo, o jovem fosse aprender, e não é assim que funciona.

A grande questão em jogo são os espaços de escuta, nos quais o adulto consiga sustentar a escuta do jovem para que ele possa falar o que ele mesmo tem vergonha de nomear, o que ele tem medo de o adulto não aguentar ouvir. Há um jogo da escuta que seria uma das grandes chaves para a gente tentar evitar o que às vezes não conseguimos. Também não dá para imaginar que vamos chegar a um cenário totalmente garantido do que vai acontecer”.

  1. Muito tem se falado sobre saúde mental na escola, e é um assunto cada vez mais presente. Pensando sobre isso, até onde vai o papel e a responsabilidade da escola?

Vera Iaconelli – “A escola, por uma questão de época, por uma série de variáveis, foi se apartando das famílias. Ela é o elo entre a família e o mundo adulto, porque na escola há o mundo público para além da família, mas ainda protegido e adaptado para a infância e a adolescência.

O que está acontecendo é que a escola está ficando espremida entre as demandas cada vez maiores das famílias e de um mundo que invade também a escola pela internet e outros espaços. Precisamos tentar trabalhar aqui todos os dispositivos possíveis para azeitar a relação entre escola e família. O que não significa a escola ficar sempre ouvindo a demanda da família respondendo desse lugar, mas de abrir espaços de reflexão da criança com o mundo lá fora.

Na escola, o que eu acho muito importante é o reconhecimento das suas potencialidades de criar espaços de diálogo, espaços de escuta, de trabalhar conteúdos, de aprender a lidar com as questões de uma forma crítica, mas também reconhecer seus limites no âmbito de tratamento ou de predizer o acontecimento.

Se a escola restringir as suas competências voltadas para a questão da saúde mental, ela vai poder fazer bons encaminhamentos e boas escutas, sem cair nem em uma tentativa de responder o que não lhe cabe, e nem em uma tentativa de se fazer de surda. O que está em jogo aqui é principalmente o diálogo”.

  1. O LIV tem como foco a criação de espaços de escuta e de fala dentro da escola. Qual é a importância de espaços como esses, principalmente dentro das instituições de ensino, e por que eles ainda são tão raros?

Vera Iaconelli – “Escuta e fala são duas palavras que podem parecer intuitivamente simples e inteligíveis, mas não são. Quando pensamos em criar espaços de fala em qualquer ambiente, estamos falando de uma construção de relações de confiança, de sigilo, de respeito, de uma qualidade de escuta que não é fácil adquirir. A gente fica muito angustiado quando ouve o outro falar alguma coisa disruptiva. É um exercício de cidadania, de civilidade, de autocuidado e cuidado do outro. É toda uma construção simbólica de um tipo de relação que a gente quer.

Isso na escola é fundamental, porque a escola é um dos últimos lugares nos quais o que se privilegia são os laços de aprendizagem mútua, os laços de respeito, de transmissão do que vem da cultura. É um lugar no qual a gente tem grandes sementes para plantar se pudermos implementar esses espaços no lugar onde as crianças passam a maior parte da vida delas em quantidade de horas. É um lugar privilegiado para a gente ter acesso à infância, e também na interface com os pais, que também demandam pontos que precisamos acolher e endereçar”. 

  1. Quando se abre espaço para fala e escuta com adolescentes muitas questões sensíveis de saúde mental aparecem. O que a escola geralmente faz com isso (e o que poderia fazer de diferente)?

Vera Iaconelli – “O que eu tenho visto nas escolas em geral, não em todas, mas naquelas que não se qualificaram e não estão batalhando para melhorar sua postura diante do adoecimento dos alunos e professores, são duas atitudes que são as mais perniciosas:

Uma delas é quando a escola fala: ‘Olha, a gente tem conteúdos e metas pedagógicas, então toda a parte afetiva não nos compete, porque temos uma meta e se der alguma coisa errada a gente encaminha a criança para fora’. 

Essas são escolas que ainda estão em um modelo muito antigo, que não reconhecem o espaço do laço social como fundamental não apenas para aprendizagem, mas também pensando na criança como um sujeito que passa a maior parte da vida naquele espaço, que é privilegiado para o cuidado.

Há no outro espectro escolas que acabam assumindo um lugar protagonista no tratamento, indicando medicação e assumindo lugares de risco, porque a escola não tem competência para isso.

A escola com um espaço de resposta mais perto do desejável é aquela que cria para si um espaço de fala e de escuta próprio, porque a aprendizagem não é uma coisa que acontece sem essa competência dialógica e crítica, e usa isso para além do conteúdo, para aquilo que tem a ver com a formação do sujeito e a relação dele com o mundo, que é a grande ferramenta do século XXI. 

As pessoas sabem que hoje a questão do comportamento e da performance da atitude tem mais a ver com como o sujeito se põe no mundo do que com a quantidade de informações que ele foi capaz de reter. Essa é uma escola cada vez mais antenada e mais apropriada para o que vem por aí”. 

  1. Como a escola pode pensar na saúde mental dos seus alunos olhando também para a saúde mental dos educadores, já que são eles quem irão lidar com essa escuta diretamente?

Vera Iaconelli – “Quando falamos de saúde mental em uma instituição, seja qual for, não significa que alguns têm saúde mental como um bem e vão ajudar os outros a terem também, porque, na verdade, a questão do sofrimento e do adoecimento é humana e não cede nunca. Não é que chegamos em um platô de saúde mental, de equilíbrio, e acabou. Não é assim, existe uma dinâmica psíquica. 

As pessoas se afetam. Os alunos afetam os professores, os professores afetam os alunos, existe muito estresse, cada vez mais, pela experiência contemporânea mesmo, pelas dificuldades que a sociedade como um todo está vivendo e que acabam aparecendo mais na escola.

Cuidar da saúde mental não é só cuidar da saúde mental do aluno, é cuidar da saúde mental da escola. É o porteiro, a cantineira, o faxineiro, o professor, a coordenação. Todo mundo ali é gente e isso é o grande ensinamento que temos para as crianças: que todo mundo possa ser visto, e ser visto é ser reconhecido. 

Não necessariamente você vai ter que dar conta daquilo que você reconhece, mas pode dizer: ‘Eu estou vendo uma questão que talvez a gente possa endereçar, pensar os dispositivos internos, talvez a gente tenha que pensar em coisas externas’. Cuidar da saúde mental só existe na relação, ou seja, saúde mental é uma coisa que acontece no laço social, nunca é um evento isolado, restrito ao sujeito, porque não existe sujeito fora do laço social”.

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Como dissemos no início deste post, no LIV acreditamos que o suicídio e a saúde mental são temas que devem ser olhados sob diferentes pontos de vista. Por isso, recomendamos abaixo outros conteúdos que ampliam um pouco mais esse tema. Confira:

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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