Comunicação em tempos difíceis, com Elisama Santos

[VÍDEO] Comunicação em tempos difíceis, com Elisama Santos

22 de novembro de 2021

Em um mundo conturbado, como manter a calma? É possível estabelecer limites e lidar com temas difíceis com crianças e adolescentes? Levamos essas e outras questões à psicanalista e escritora Elisama Santos e as respostas você confere a seguir!

***

Manter uma boa comunicação interpessoal sempre foi um desafio para nós humanos, especialmente para pais, mães, familiares e educadores de crianças e adolescentes. Para Elisama Santos, vencer esses desafios é possível com a chamada comunicação não violenta, que pode ser usada até mesmo por quem diz não ter “muita calma” no dia a dia. E é sobre isso que ela fala nesta entrevista especial!

A primeira vez que entrevistamos a psicanalista e escritora para o blog do LIV foi no início de 2020. Desde então, ela lançou novos livros que permeiam a comunicação em família, especialmente a criação de crianças e adolescentes, e tem atuado como consultora junto a diferentes organizações, além de influenciadora digital.

Nesta nova e inédita entrevista, ela fala sobre o que é a calma e por que buscamos tanto esse ideal, sobre comunicação não violenta com adultos e crianças, sobre os limites nos relacionamentos familiares e também sobre a contribuição das escolas na formação dos indivíduos.

Elisama aborda ainda os percalços da comunicação na internet em tempos de cancelamento digital e de cyberbullying. Está imperdível, confira o conteúdo completo a seguir! 

5 perguntas para Elisama Santos – um resumo

  • Como manter a calma e buscar uma comunicação não violenta quando o mundo parece estar à flor da pele?

Elisama Santos – “É interessante como a gente quer manter a calma como se a calma fosse algo que a gente conseguisse sozinho, ‘eu consigo calma como se eu comprasse um brigadeiro’, e não é assim que funciona […]. Eu penso que existe uma ilusão em relação à calma, de que eu tenho que ficar mais calma, ter serenidade, e essa cobrança se torna mais um fator estressante na nossa vida. A ideia de me manter calma pode me manter mais estressada […].

O foco nesse momento não é sobre como manter a calma, mas como eu cuido do que está à flor da pele. Percebe como é diferente? Não é mais uma cobrança de que eu tenho que me manter serena e equilibrada nesse momento. É como eu cuido do que está chegando em mim e do que isso está despertando. É como consigo entender como isso mexe comigo e descobrir uma forma de lidar com isso sem violentar a mim e ao outro” […].”

  • Como promover um diálogo não violento com as crianças?

Elisama Santos – “Minha conversa com a criança tem que partir do pressuposto que ela não sabe nomear e lidar com o que acontece dentro dela. Na minha conversa com adultos, meu foco é entender e ouvir esses adultos, mas também entender a minha parte, entender a minha comunicação. Com a criança, eu preciso lembrar que existe a minha comunicação e existe falar uma linguagem para que ela compreenda, porque a minha intenção é só uma parte da comunicação. 

Para que ela se torne efetiva, eu tenho que me conectar ao outro, e essa conexão muitas vezes não é feita na minha linguagem […]. Eu preciso lembrar que, para que eu me comunique com essa criança, existe um esforço de falar um pouco de uma linguagem que ela entenda. É preciso lembrar que ela não nasce sabendo, entender o universo interno dela e se comunicar. O comportamento de uma criança é comunicação, não é pirraça, não é demonstração de que ela é mal educada, não é sinal de que sou uma péssima mãe ou pai. É uma comunicação de algo que ela não está conseguindo comunicar de um jeito eficiente. E é meu papel enquanto adulto auxiliar essa criança a encontrar um meio eficiente de comunicar o que ela precisa […].

Assim como a gente não vai cobrar de uma criança pequena que ela saiba nascer comendo de garfo e faca, sabendo falar inglês e português, fazendo cálculo avançado, eu não posso esperar que uma criança nasça sabendo lidar com raiva, angústia, frustração, tristeza. Eu preciso lembrar que na minha comunicação está também a responsabilidade de auxiliar essa criança a lidar com o universo interno dela.”

  • É possível estabelecer limites sem ser autoritário sob o olhar das crianças e dos adolescentes?

Elisama Santos – “O limite é algo saudável, o limite protege a relação e a criança. Eu não gosto da ideia de colocar limite na criança. Não, eu vou demonstrar os limites das relações, os meus limites e do mundo, e vou entender que essa criança também tem direito a ter limites. Porque nós somos de uma educação que fala muito sobre o limite da criança, mas nós viramos adultos que não sabem colocar limites nas relações. Na nossa infância, o limite era do adulto, e normalmente do pai, então nas relações em que tinha pai e mãe, normalmente o limite era do homem. 

A gente precisa entender o limite como um ensinamento para a criança de algo que é saudável para as relações. Como faço isso de maneira não autoritária? Lembrando que essa criança existe e é um ser humano. Dizer ‘não’ é necessário muitas vezes, mas eu não vou esperar uma resposta empolgada do meu filho após ouvir um ‘não’. Eu vou entender que essa criança vai se frustrar, que ela tem o direito de ficar com raiva, que pode ser que o comportamento que ela tenha após esse sentimento precise da minha orientação […].

O grande problema é que nossa forma tradicional de olhar a educação enxerga a educação de filhos não como a relação entre dois humanos, mas como uma relação entre dois robôs ou seres ideais, movidos apenas por amor […]. Quando eu entendo o limite como um cuidado, não só com a criança, mas com a relação, e eu passo isso para a criança dizendo que limite é essencial nas relações. Essa criança, muito além de aprender a respeitar o limite que eu demonstro, aprende a demonstrar os seus limites e vira um adulto com menos dificuldades de relacionamento, como a maioria de nós.”

  • Como a escola pode ajudar as famílias a lidar com temas difíceis da comunicação e do relacionamento interpessoal?

Elisama Santos – “Para as crianças, a escola normalmente é o primeiro ambiente em que ela tem algo além do círculo familiar, com pensamentos que vão além. A escola amplia a visão da criança […]. Eu entendo a escola como esse lugar de ampliação do mundo, de construção de novos mundos, socialmente falando.

Se a gente pensar no nosso histórico enquanto humanos, nós sempre vivemos em comunidade e a gente mal sabe o nome do vizinho. Isso está cada vez mais no passado. A maioria de nós mora longe de nossos pais, aquela comunidade já perdeu o contato, e com meus amigos eu falo por WhatsApp. A gente está perdendo o senso de comunidade e eu entendo a escola como a remanescente do senso de comunidade […]. 

A estrutura escolar pode ser esse resgate, não só para a criança, mas para a família, o educador, para todos os colaboradores e direção da escola. É uma fortaleza, uma esperança para mim de que a gente continue lembrando desse senso de comunidade que nós estamos perdendo na nossa estrutura social”

  • Como falar de comunicação não violenta em um mundo on-line de cancelamentos virtuais e cyberbullying?

Elisama Santos – “Eu preciso lembrar que a comunicação através da internet é uma comunicação em que eu perco muito. Apesar de nós focarmos muito no que falamos, a comunicação passa pelo tom da minha voz e pelo ritmo da minha fala, que diz sobre mim, sobre como estou me sentido, sobre o que eu quero te falar […]. Na mensagem do WhatsApp, eu perco o incômodo e o feedback do outro. Na conversa presencial, você balança a cabeça, eu percebo que você está concordando, ou você faz uma careta e percebo que discordou de alguma forma. Eu perco isso na internet.

Por isso, uma das coisas que preciso fazer na internet é lembrar que pode ser que o que eu esteja lendo, no tom que eu esteja lendo, não seja realidade. Começa por aí: meu pensamento é só pensamento e minha interpretação do que você escreveu também é minha. Eu preciso checar com você se é isso.

O processo de checagem é muito bonito na comunicação não violenta e é importante para todas as relações. Por exemplo, dize: ‘Você escreveu isso, mas eu entendi isso aqui. Faz sentido para você? Foi isso que você quis me dizer, não foi? Me ajuda a entender? Me explica de outra forma’ […]. É tirar a defesa que estamos o tempo inteiro. 

A gente tem uma ilusão de que vivemos em mundos separados, o mundo virtual e o mundo real. Não tem mundo virtual, ali é sua vida também. O que você vive ali, você sente no seu corpo, te fere, machuca, o coração fica acelerado, você sente no corpo. Interfere até no bom dia que você dá em casa. Lembrar que não existe esse mundo virtual talvez lembre a gente que não estamos conversando com um aparelho, o celular, mas com um ser humano através do aparelho. Isso pode nos devolver um pouquinho da civilidade na hora de conversar na internet”.

No programa LIV, entendemos a comunicação como uma habilidade essencial que pode ser desenvolvida por todas as pessoas em qualquer contexto. Nas escolas, por exemplo, incentivamos o desenvolvimento intencional dessa e de outras habilidades por meio de uma proposta de educação socioemocional. O mesmo incentivo acontece para as famílias. Você sabe, por exemplo, que investir na comunicação pode ser a melhor coisa que você pode fazer por seus filhos? Clique e saiba mais.

***

O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

Confira outros conteúdos do LIV sobre comunicação e comportamento:

Assine nossa news

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *