19/12/2025
Natal, consumo e afeto: como equilibrar tudo isso nas festas de fim de ano?
“Adeus ano velho, feliz ano novo. Que tudo se realize no ano que vai nascer…” Quando essas músicas começam a tocar, é sinal de que a virada do calendário já está batendo na porta, não é mesmo? E o fim de ano é um período marcado por diferentes emoções, encontros, expectativas e também por um consumo que parece ganhar ainda mais força.
Entre luzes piscando, músicas clássicas dessa época, ruas lotadas e vitrines cheias de promoções, somos atravessados por sentimentos de encerramento, renovação e, muitas vezes, de pressão. Mas, em meio a tudo isso, vale se perguntar: o que realmente queremos que marque as festas de fim de ano?
Por que o fim de ano desperta emoções tão intensas?
Os últimos dias do calendário costumam ser embalados por uma sensação coletiva de fechamento de ciclo. Costumamos fazer o balanço do ano, revisando as expectativas, os acertos e as cobranças.
E, claro, o Ano Novo representa mais do que uma data. Ele pode ser um convite à renovação. E essa possibilidade de recomeço pode trazer esperança, mas também ansiedade, angústia e receios sobre o que ficou para trás e o que ainda está por vir.
No fim do ano, também há quem conte os dias para se reunir com pessoas queridas e quem viva esse período com preocupação, cansaço ou desejo de que ele apenas passe logo. Independentemente da experiência, é inegável que as festas de fim de ano mobilizam sentimentos profundos. E está tudo bem ter emoções que parecem opostas a esse momento. Tem lugar para sentir saudade, viver o luto, não estar tão alegre quanto se espera. O importante é lembrar que todos esses sentimentos merecem e devem ser acolhidos.
“Precisamos lembrar que esses momentos não cativam a todos igualmente. Existem opiniões muito diferentes sobre as festividades. Para muita gente, existe uma angústia de não saber se dará conta de tudo, a preocupação com as contas e pendências que “não queria levar para o outro ano” e, em alguns casos, o desejo de não se reunir com pessoas apenas para corresponder a expectativas sociais.” Maira Maia – Coordenadora de Conteúdo e Inovação Pedagógica
Natal e consumo: e quando presentear vira regra?
As festas de fim de ano também costumam ser associadas a uma agenda cheia de compromissos, trocas de presentes e encontros sociais. E aos poucos, o ato de presentear vai se misturando às expectativas emocionais desse período.
Presentear alguém pode, sim, ser uma forma bonita de demonstrar carinho e cuidado. Afinal, quem não gosta de se sentir lembrado? Escolher algo para alguém querido pode ser um gesto de afeto, atenção e vínculo. O problema não está no presente em si, mas quando o relacionamento se fortalece apenas ao redor dele.
Quando o foco passa a ser apenas o preço ou o tamanho do presente, o sentido afetivo pode se esvaziar. O gesto deixa de ser sobre conexão e presença e passa a responder a uma obrigação, gerando comparações e expectativas.
Para Maira Maia, coordenadora pedagógica do LIV: “O problema surge quando o valor do encontro, da troca e da convivência fica condicionado ao consumo. Quando o presente vira o centro da experiência, o risco é perder de vista aquilo que sustenta os vínculos de verdade.”
Presentear é amar?
Vale refletir com mais cuidado sobre o que temos valorizado na hora de presentear. Para isso, podemos fazer algumas perguntas, como: O que nos mobiliza a essa compra? O desejo genuíno de agradar? A necessidade de pertencimento? A pressão social? A força da publicidade?
O valor simbólico do presente não está necessariamente no quanto ele custa, mas no tempo, na intenção e na memória que ele carrega. Talvez seja mais sobre o clichê: “esse presente não tem preço”.
“Quando o ato de presentear se transforma apenas em uma convenção social, o afeto tende a ficar em segundo plano. E isso pode gerar frustração, especialmente para crianças e famílias que não conseguem corresponder às expectativas de consumo criadas nesse período.” – Maira Maia – Coordenadora de Conteúdo e Inovação Pedagógica
Quando o presente não vem: como acolher as emoções das crianças?
E quando falamos das crianças precisamos lembrar que algumas delas podem se sentir tristes por não ganharem o presente que esperavam. Nesse momento, é normal que se sintam frustradas ou tristes, mas esses sentimentos fazem parte do desenvolvimento emocional de todos nós. Nem sempre é possível atender a todos os desejos e isso, por si só, já é um aprendizado importante.
Mais do que evitar essas emoções, o cuidado está em acolhê-las, validando o que a criança sente, escutando sem julgamentos e ajudando ela a comunicar essa experiência de forma respeitosa. Esse apoio por parte do adulto ajuda às criaças à desenvolverem a autorregulação, a comunicação e o autoconhecimento, competências para diversas experiências que atravessarão ao longo da vida. .
Segundo Maira, “para algumas crianças, não ganhar o presente desejado pode despertar sentimentos que não são fáceis de lidar, mas que fazem parte da experiência humana e não precisam ser negados. Pelo contrário, podem ser oportunidades importantes de conversa, acolhimento e aprendizado emocional.”
Uma forma de ampliar o significado do fim de ano é incentivar trocas simbólicas: cartas, desenhos, bilhetes, lembranças feitas à mão ou pequenos gestos de cuidado.
Ajudar uma criança a preparar um desenho ou escrever uma mensagem para um familiar, por exemplo, mostra que aquilo que não custa tanto dinheiro também tem valor e pode carregar muito afeto.
Algumas práticas simples podem apoiar esse processo:
- Conversar com as crianças sobre o sentido afetivo das festas para cada família.
- Valorizar a intenção, o gesto e o tempo dedicado, e não apenas o objeto presenteado.
- Propor trocas simbólicas, como amigo secreto de cartas ou desenhos.
- Incentivar que a criança conte por que escolheu aquele presente ou mensagem para a pessoa querida.
Essas experiências ajudam a construir uma relação mais consciente com o consumo no fim de ano e reforçam que presença, vínculo e cuidado também são formas potentes de demonstrar amor, especialmente em um período tão carregado de expectativas emocionais como o fim de ano.
Ressignificar o Natal: menos performance, mais conexão

Ressignificar as festas de fim de ano não significa abandonar o ato de presentear, mas ampliar o olhar sobre ele. Pequenos gestos podem ter um impacto afetivo enorme pois ajudam a construir memórias que permanecem para além das datas.
No fim das contas, um dos convites que o Natal pode nos fazer é olhar para o tempo. Estar junto, sem pressa, sem performance e sem tantas expectativas pode ser o maior presente possível.
O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.