Roda de conversa: Sentir é Aprender.

Roda de conversa: Como os sentimentos se transformam em aprendizado?

31 de agosto de 2021

Roda de conversa exclusiva com Glória Maria, Conceição Evaristo, Lilia Schwarcz, Lília Melo, Emicida e Lucas Veiga traz discussão sobre sentimentos, aprendizagens, escuta, arte e muito mais. Confira os detalhes!

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Como aprendemos a lidar com as nossas emoções? Nossas escolhas, nossa relação com o outro e até a construção da nossa autoestima passam por essa pergunta, contudo, muitas vezes a deixamos de lado no dia a dia. 

Para promover uma conversa a partir de diferentes perspectivas sobre esse tema, o programa Laboratório Inteligência de Vida – LIV convidou seis grandes personalidades brasileiras para uma roda de conversa virtual.

O encontro aconteceu dentro do 3º Congresso LIV Virtual  e contou com mediação da jornalista, apresentadora e mãe LIV Glória Maria e participações de: Conceição Evaristo, escritora, ficcionista e ensaísta; Lília Melo, educadora e vencedora do prêmio “Professores do Brasil”; Lilia Schwarcz, antropóloga, historiadora e professora; Lucas Veiga, mestre em psicologia clínica e consultor de saúde mental; e Emicida, MC, movimentador cultural e escritor.

A seguir, você confere os principais pontos debatidos na roda de conversa!

“Aprender é sentir!”

Tema central do 3º Congresso LIV Virtual, a relação entre os sentimentos e a aprendizagem foi o assunto que deu início à roda de conversa. “Aprendemos a todo instante com as diferentes visões do outro, com os nossos erros e acertos, e com as nossas vivências. No fundo, somos eternos aprendizes, independentemente da idade, e não há nada mais poderoso do que isso”, como destacou Glória Maria

Iniciando o debate em torno do tema, a escritora Conceição Evaristo ressaltou a necessidade de acolher os sentimentos no processo de aprendizagem:

“A criança nos ensina muito sobre o que é o aprender, porque ela não tem, como nós adultos, autocensura com seus sentimentos. Se ela está alegre, ela explicita, ela canta, dança. Se está triste, ela chora, grita e, quando vai crescendo, aprende a não revelar os sentimentos. A gente só aprende realmente aquilo que a gente sente. No mais, ao longo da vida, podem até ter imposto várias lições, mas você só toma para si aquilo que te interessa, que fala aos seus sentimentos. Quando você pensa no ensino formal, quantas coisas a gente decorou que hoje não sabemos mais?”

Ainda de acordo com a escritora, o espaço da escola pode se tornar um “espaço de atenção aos sentimentos” e completa: “Aprender é sentir! Se você não sente, você decora, você pode assimilar, mas não em um nível profundo. Só o sentimento faz com que você apreenda a ponto de introjetar um aprendizado”.

O cantor Emicida, ao comentar a fala de Conceição, também destacou que compreender o papel dos sentimentos em nossas aprendizagens e relações é um processo duradouro, que não cabe apenas em ações pontuais:

“Aprender a lidar com as nossas emoções é algo que nos acompanha durante toda a travessia, toda a experiência humana. O que a maturidade nos traz é aprender a sermos cada vez menos controlados por nossas emoções. Cada vez que você amadurece um pouco, vai aprendendo a colocar cada sentimento em seu devido lugar, para que tenham a proporção necessária e para que você continue a ser você mesmo no final da trajetória”. 

A professora Lília Melo, que em seus projetos incentiva jovens da periferia de Belém (PA) a ter mais abertura para falar sobre seus sentimentos, complementou ressaltando o quanto esse incentivo faz a diferença, especialmente para aqueles em situação de vulnerabilidade:

“É um aprendizado constante, por isso é importante ter a consciência de que não estamos sozinhos. Importante compreender que dentro desse processo de construção do aprendizado, de compreender o que eu sinto e o que faço com esse conhecimento, a gente vai estar o tempo todo lidando com outras pessoas. Quando eu me disponho a ouvir, compreender e entender o outro, eu passo também a me compreender e me respeitar”, destacou.

O papel da escola na promoção da empatia

Outro tema que permeou a roda de conversa foi a educação socioemocional e o papel das escolas em promover mais empatia entre os membros de suas comunidades. Sobre isso, a historiadora e professora Lília Schwarcz destacou que a promoção da empatia começa pela busca do próprio educador em entender e conhecer seus alunos. “Se eu não conseguir aprender com as crianças, ser empática com elas, ter afeto por elas, no sentido de estar afetado por elas, eu acho muito difícil que ocorra o oposto”. 

Partindo de sua experiência como professora, ela mostrou ainda a necessidade de buscar nas escolas uma linguagem mais próxima das crianças e dos adolescentes. “Durante muito tempo, a história que nós contávamos no Brasil era uma história profundamente europeia, colonial, branca e masculina […] O que estamos tentando fazer agora é aproximar a maneira como nós queremos ensinar com aquilo que as crianças querem ouvir”, ponderou.

Partindo da fala da historiadora, Lucas Veiga também mencionou que a abordagem sobre as emoções não deve ser “no sentido de controlá-las”, mas como um caminho para manejar melhor essas emoções e encontrar meios de expressá-las:

“Um recurso fundamental para ajudar as crianças e adolescentes a lidarem melhor com aquilo que os afeta é conseguir elaborar a experiência pela qual se está passando. Por vezes, a gente vive uma situação mais difícil, ou da ordem do traumático, e sente um mal-estar, um desconforto. A gente percebe que a criança ficou mais quieta, irritada, ou não quer comer, ou que o adolescente não consegue estabelecer muito vínculo com os pais ou professores. Há algo que essa pessoa está sinalizando, que é da ordem das emoções e que não passou pela palavra. E essa emoção não elaborada pode gerar tanto um mal-estar físico quanto uma série de comportamentos que talvez a escola classificaria como inadequados ou que os pais chamariam de rebeldes. Mas, por vezes, esses comportamentos são uma ação da criança ou do adolescente diante de uma emoção ou experiência que ainda não foi possível de ser traduzida”.

Escuta ativa com adultos, crianças e adolescentes

Durante a discussão, a escuta ativa foi apontada pelos participantes em diferentes momentos como um caminho a ser buscado pelas escolas e pelas famílias para incentivar o desenvolvimento socioemocional de crianças e adolescentes. 

Para introduzir o tema, o psicólogo Lucas Veiga relembrou que, no início da história da psicanálise, as técnicas usadas por Sigmund Freud e outros autores naquele momento, eram, em especial, a hipnose e a sugestão. Foi apenas a partir de uma paciente que demandou ser escutada, que Freud passou a entender a escuta como mecanismo de cuidado e que até hoje vem sendo utilizada em diferentes abordagens psicológicas e psicanalíticas.

“A escuta foi entendida dentro do campo da psicologia e da promoção de saúde mental como sendo uma técnica que, de fato, produz efeitos quando a pessoa é verdadeiramente escutada. Quando isso acontece, ela tem a oportunidade de se ouvir, sobre si e sua experiência”, explicou. 

Para os adultos que desejam praticar a escuta ativa com as crianças e os adolescentes, ele fez uma recomendação prática: “Olhar nos olhos da criança quando ela estiver falando, e não olhar no celular”, e completou explicando o porquê:

“Hoje em dia, a gente conversa com as pessoas olhando o celular e isso faz com que o interlocutor não se sinta escutado. Quando a gente vai conversar com uma criança ou adolescente, é interessante o adulto se colocar no mesmo nível de altura, abaixar para que o nível dos olhos se encontre para conversar. Se eu estou em pé dialogando com uma criança, há uma assimetria dos nossos corpos que impacta a maneira como ela vai se sentir ouvida. Esse encontro dos olhos tem efeito de empatia”.

Para momentos de tensão, no qual o adulto discorda da criança ou do adolescente por algum motivo, ele recomenda, antes de qualquer reação, entender primeiro as razões envolvidas na atitude que ele não gostou. “É comum os adultos terem uma opinião sobre como as crianças deveriam se comportar e agir, e quando ela não atende, esse adulto se frustra e projeta essa frustração na criança de forma às vezes arrogante ou descuidada, que faz com que ela não se sinta escutada”.

Professora de Língua Portuguesa, Lilia Melo explicou que tem levado esses conceitos como pilar de seu projeto e disse que a escuta tem papel fundamental para sua atuação em sala de aula, especialmente após um evento em sua comunidade que culminou na morte de alguns de seus estudantes. “Eu não poderia entrar em sala de aula e aplicar um conteúdo sem antes ao menos perguntar como eles estavam”, relatou.

Ao comentar como leva a cultura da escuta para o ambiente familiar e a criação de sua filha, o cantor Emicida disse que busca a comunicação e a arte como um meio de se conectar com ela. “É da capacidade de reinventar que a gente cria um mundo novo, que é urgente. Qual de nós não está ansioso para encontrar esse mundo novo? A gente quer e precisa. O mundo só tem continuidade se a gente conseguir construir esse novo cenário, e eu acho que a arte aguça a sensibilidade, sobretudo das crianças, para que nós não sejamos uma barreira que as silencia”, concluiu.

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