Três formas de estimular as habilidades socioemocionais em todas as disciplinas

13 de dezembro de 2019

“Cérebros brilhantes também produzem grandes sofrimentos. É preciso educar os corações”. Dalai Lama

Levar aprendizado socioemocional para o contexto educacional requer um trabalho intencional e estruturado, que quando bem desenvolvido impacta positivamente a equipe escolar, os alunos e suas famílias. Não significa, contudo, que as escolas devam restringir o incentivo a esse desenvolvimento apenas a momentos reservados da rotina de aulas. Com um bom planejamento, é possível abrir caminho para que as habilidades socioemocionais sejam incentivadas em todas as disciplinas. Nas escolas parceiras do Laboratório Inteligência de Vida (LIV), por exemplo, os professores recebem formações constantes para expandir esses aspectos tanto nas aulas destinadas ao programa quanto na rotina das disciplinas curriculares.

“O que proporciona o desenvolvimento das habilidades socioemocionais não é conhecer o significado de cada uma delas, mas a possibilidade de vivenciá-las, praticá-las e exercitá-las. Ou seja, não é preciso ter uma aula sobre perseverança para poder estimulá-la e não é por meio de uma dissertação sobre comunicação que o aluno se ampliará sua capacidade de oratória. Tendo isso em vista, qualquer disciplina pode trabalhar o desenvolvimento socioemocional, já que o conteúdo da aula pode continuar o mesmo (Matemática, Português, História…). O que mudaria, no caso, seria a forma de estudá-lo. Por exemplo, para desenvolver a habilidade de trabalhar em grupo, um professor de Matemática pode propor atividades coletivas, estimulando a empatia, a comunicação e o relacionamento entre os alunos. É possível fazer isso em qualquer disciplina”, explica Renata Ishida, psicóloga e consultora pedagógica do Laboratório Inteligência de Vida (LIV).

Para inspirar educadores de todas as disciplinas e etapas de ensino a olhar com mais atenção para esse assunto, selecionamos a seguir três exemplos de atuação que consideram o aprendizado do estudante para além do seu desempenho escolar e podem dar ideias de como começar. Confira:  

  1. Conhecer o aluno mais profundamente

Uma aula é feita de relacionamentos, por isso, um dos primeiros passos para incentivar as habilidades socioemocionais na escola é conhecer mais o aluno. Há diferentes estratégias para isso. Uma delas é “quebrar o gelo” com a turma, algo que que pode ser colocado em prática no início do ano letivo, depois das férias ou quando chega um novo aluno ou professor. 

O objetivo é ter um momento para ouvir e permitir que todos falem mais sobre si. O tema e o formato da atividade podem ser variados. Por exemplo: os alunos podem conversar em dupla, em grupo ou círculo com a turma toda sobre temas variados, como “o que mais gostam de fazer fora da escola?” ou “que atividades fizeram nas férias?” ou realizar um jogo para que descubram os nomes uns dos outros. A ideia central de fazer uma atividade para quebrar um pouco o gelo é abrir espaço para um relacionamento mais amplo no ambiente escolar, mostrar que você deseja conhecer mais a turma e também deseja que te conheçam, entendendo que a sua aula vai além dos temas curriculares.

Uma segunda estratégia para conhecer o aluno é procurar saber mais sobre a vida dele fora da escola. A princípio, isso pode parecer inviável para a rotina, mas conhecer essa realidade pode mudar a visão sobre o aluno e abrir espaço para mais empatia na relação. O oposto também é verdade: quanto mais o aluno conhece seu professor, mais poderá se aproximar. Não significa que vocês devam ser amigos ou trocar confidências, mas sim conhecer aspectos básicos sobre a realidade familiar, os interesses e atividades extraclasse.

Nas aulas de LIV, essa aproximação às vezes acontece por meio de uma atividade chamada “círculo da confiança”, uma roda de conversa na qual os alunos falam mais abertamente sobre um tópico que escolheram, por exemplo: uma memória da infância, seus interesses pessoais, o que fazem no final de semana, quais esportes praticam, se tem arrependimentos, quais os objetivos para o futuro, se tem agradecimentos a fazer, e assim por diante. A atividade é feita em diferentes ocasiões ao longo do ano, permitindo que a turma vá, aos poucos, se conhecendo melhor. 

2. Considerar o interesse da turma

Ao começar a conhecer e observar atentamente os alunos, o professor pode descobrir os temas que são de seu interesse e incluí-los à dinâmica das aulas. Assim, na aula de Matemática pode haver uma proposta para que façam uma música em um estilo que gostem para explicar um determinado conceito; na aula de História podem se caracterizar como um personagem conhecido e fazer um discurso; na aula de Língua Portuguesa fazer um jornal em vídeo; e assim por diante. Esses são apenas temas para mostrar as possibilidades, mas é claro que cada turma terá interesses que podem pautar as atividades sem sair do conteúdo curricular. 

Outra maneira de considerar os interesses da turma é permitir que os estudantes façam escolhas. Em 2008, os pesquisadores americanos Erika Patall e Haris Cooper investigaram mais de 40 sistemas educacionais e mostraram que existe uma relação direta entre resultados acadêmicos e modelos de ensino que permitem ao aluno fazer escolhas em relação a sua rotina escolar. Segundo Caio Lo Bianco, especialista em educação e gerente executivo do LIV, esses é um dos principais tópicos para ser considerado na educação integral. “Não é possível engajar o aluno ou colocá-lo no centro do processo se a gente não cria um ambiente onde é permitido fazer escolhas. Se é o professor quem decide ou escolhe sempre, fica muito difícil de incentivá-lo”.

Ainda de acordo com Caio, quando se possibilita ao aluno escolher entre temas e formas de apresentação, por exemplo, já há uma chance de aumentar seu desempenho. “Se sou professor de História e estamos pesquisando um determinado marco temporal, eu posso, em vez de dizer quem os alunos o devem pesquisar, dar uma lista de pessoas ou temas daquele período histórico e deixá-los decidir qual preferem se aprofundar. Ou então deixá-los não apenas escolher sobre o que pesquisar, mas também sobre como apresentar. Por exemplo, decidir entre faze uma redação, um vídeo, um teatro, um cartaz, uma apresentação de Power Point, etc. Assim, o professor trabalha o conteúdo previsto, mas oferece escolhas e incentiva aos poucos a autonomia do aluno”.

Uma terceira estratégia nesse sentido é incentivar a formação de duplas e grupos. Por mais básico que pareça, grupos e duplas podem criar um ambiente seguro para falas, erros e novas tentativas – elementos de toda e qualquer aprendizagem. “Se eu apenas abro espaço para discussões envolvendo toda a turma, não são todos os alunos que vão se expressar. Em grupos menores é possível criar espaços mais seguros para eles, inclusive os mais tímidos, falarem”, explica Lo Bianco. Dessa forma, destaca, o professor também atende à necessidade de conexão e relacionamento que as crianças e adolescentes têm naturalmente. “Só existe desenvolvimento socioemocional se tem interação, movimentação e fala. Se eu abro espaço para isso na aula, ela se torna mais prazerosa e eu consigo mais atenção do aluno”.

3. Planejar aulas que favoreçam o desenvolvimento socioemocional

A terceira forma de estimular as habilidades socioemocionais em todas as disciplinas é planejar aulas que fujam à rotina de exposição simples do conteúdo. Assim como foi dito acima, para se desenvolver socialmente e emocionalmente, uma pessoa precisa interagir, e aulas expositivas são pouco propícias para isso. Assim, outras formas de trabalhar o conteúdo, como dinâmicas e jogos, podem ser inseridas com frequência na rotina, pois colocam os alunos para se movimentar e se engajar e podem ser feitas com diferentes assuntos.

Além das atividades que já citamos acima, também recomendamos a dinâmica do “encontro rápido”, na qual formam-se dois círculos de alunos, um de frente para o outro, sendo que apenas um deles pode se mover. A ideia é que os alunos respondam perguntas uns aos outros em um curto espaço de tempo e girem a roda para falar com outro aluno sobre mais uma pergunta. O professor pode mudar as perguntas conforme eles giram o círculo. 

Outra prática semelhante e que também implica em movimentação e interação é distribuir cartões com perguntas e respostas sobre um determinado conteúdo para alunos diferentes, de modo que eles tenham que descobrir quem é seu par. Para alguns professores, essas atividades podem ser conhecidas e fazer parte do dia a dia, mas para quem ainda está iniciando a carreira docente ou deseja pensar na educação com uma nova abordagem, esse tipo de atividade pode ajudar a se colocar de outra maneira em sala, auxiliando os alunos a desenvolver mais a comunicação, a colaboração, a criatividade e outras habilidades.

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Para quem deseja saber mais sobre esse tema, recomendamos algumas leituras adicionais:

E-book: Práticas para aproximar professores e alunos

Como a escola pode se conectar com as novas gerações de alunos?

6 hábitos para professores que desejam inspirar mais empatia nos estudantes

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