LIV entrevista Charles Melman: Do que sofrem os adolescentes?

LIV entrevista Charles Melman: Do que sofrem os adolescentes?

30 de março de 2022

Psicanalista francês Charles Melman responde a questões que afligem muitos pais e professores e destaca a importância de observar as necessidades reais da adolescência

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A adolescência é uma fase desafiadora, repleta de descobertas e de um misto de sentimentos e emoções. Por isso, é muito importante que educadores e responsáveis estejam abertos ao diálogo, procurando ouvi-los atentamente e acolhê-los em suas diversas questões.

E exatamente por se tratar de questões complexas, tanto a saúde mental quanto o sofrimento dos jovens precisam ser tratados sob múltiplas lentes, que ajudem a ampliar o espaço de compreensão de si, do outro e do mundo.

Dentro dessa perspectiva de olhar para diferentes pontos de vista sobre o desenvolvimento socioemocional na adolescência, o idealizador e Diretor do LIV, Caio Lo Bianco, entrevistou o psicanalista francês Charles Melman sobre essa temática tão sensível durante o 3º Congresso LIV Virtual

Proporcionando uma série de reflexões sobre a saúde mental dos adolescentes, o tema central da conversa permeou questões que afligem muitos pais e professores.

Melman é considerado um dos principais seguidores do trabalho de Jacques Lacan e Sigmund Freud. É um dos fundadores da Associação Lacaniana Internacional e foi escolhido pessoalmente por Jacques Lacan para ser um dos dirigentes da École Freudienne de Paris, além de ser autor de diversas obras de referência para a psicanálise.

Durante a entrevista, ele apresentou algumas explicações para as mudanças comportamentais que afetam as crianças na transição para a adolescência e também para a posterior transição à vida adulta. “Ele [o adolescente] procura qual é seu lugar, e não acha lugar nenhum. Então, ele se sente sozinho, abandonado e tem a impressão de que ninguém o compreende”, explicou em sua fala.

Também abordou as mudanças na relação do jovem com o conceito de autoridade, tanto no núcleo familiar como nos demais grupos sociais que ele frequenta. Nesse sentido, o psicanalista comentou que, durante a pandemia, “o adolescente perdeu a possibilidade de se sustentar a partir de um pertencimento a um grupo, ou seja, jovens que têm um mesmo problema que ele”.

A seguir, você pode assistir à entrevista completa de Caio Lo Bianco com Charles Melman e ler 4 destaques que selecionamos para você na continuação do texto:

  • A situação dos adolescentes na pandemia

Charles Melman – “Durante a pandemia, não foi somente a família que perdeu sua autoridade em relação ao adolescente, não há mais autoridade de ensino moral ou religiosa que ele respeite, pois nenhuma dessas autoridades leva em conta seu sofrimento, sua vergonha, diante dos desejos que ele experimenta e sua incapacidade de satisfazê-los de uma maneira honrosa. 

A pandemia veio a agravar essa situação. Visto que o adolescente perdeu a possibilidade de se sustentar a partir de um pertencimento a um grupo, ou seja, jovens que têm o mesmo problema que ele. O que mostra bem o que falta ao adolescente”.

  • O sofrimento dos adolescentes e a escola

Charles Melman – “Nada é previsto dentro do quadro do ensino para responder às dificuldades do adolescente. O que quer dizer que nossas intervenções vão aparecer como sendo abusivas ou então intervenções que não têm nada a ver com a questão. No entanto, a escola interessa ao adolescente porque permite que ele encontre seu grupo de amigos e amigas e, logo, ter uma vida paralela e autônoma, que lhe torna a existência suportável”.

  • Saúde mental e suicídio na adolescência

Charles Melman – “Não há necessidade de haver um problema mental para que o adolescente tenha esses impulsos ou para que ele pense no suicídio. Já que nós fizemos da própria adolescência uma patologia, ou seja, um sofrimento, que basta para causar o suicídio. 

[…] O adolescente experimenta esse fato de que não há um lugar que foi reservado para ele. Ele não tem lugar na família, onde ele não é mais uma criança. Ele não tem lugar na sociedade, na qual lhe é recusado o exercício da sexualidade. Ele sente que não tem lugar na escola, já que essa se desinteressa por ele, e há um desconhecimento total do seu sofrimento.

[…] No que concerne ao tratamento do tema pela escola, é uma questão interessante e corajosa, mas a atitude escolar faz parte de uma atitude cultural, já que a patologia do adolescente não é fisiológica, ela é cultural. É nossa cultura que faz da entrada da criança na sexualidade uma patologia”. 

Em entrevista anterior, Caio Lo Bianco também retomou esse tema, e afirmou: “A falta de informação e de reflexão acerca do suicídio é o pior cenário que a gente pode oferecer ao adolescente enquanto sociedade. Muitos não entendem que não é para deixar de falar sobre o tema, mas sim de não retratar o suicídio como sendo um ato heroico”. 

  • Maturidade e adolescência

Charles Melman – “Parte do conflito adolescente advém do fato de que ele é mantido no estatuto familiar da criança, embora seja biologicamente um adulto, exacerbando em conflitos relacionados à sua maturidade física e sexual. 

Ele [o adolescente] procura qual é seu lugar, e não acha lugar nenhum. Então, ele se sente sozinho, abandonado e tem a impressão de que ninguém o compreende. […] A resposta que ele recebe das pessoas que estão em volta dele, quer sejam respostas familiares, sociais, morais ou educativas, podem dificilmente satisfazê-lo”.

Como a escola pode ajudar os adolescentes

Durante a adolescência, o desenvolvimento das habilidades socioemocionais se torna indispensável no ambiente, pois ajuda os alunos a vivenciar novos desafios e facilita a relação interpessoal e intrapessoal. Para isso, a escola precisa de uma proposta clara e baseada no acolhimento das angústias que afetam os indivíduos nessa etapa de ensino.

Para contribuir com escolas parceiras nesse sentido, o programa LIV promove currículo pautado tanto em habilidades socioemocionais – como pensamento crítico, perseverança, proatividade, colaboração, comunicação e criatividade – quanto no Projeto de Vida, que ganhou nuances mais claras com o Novo Ensino Médio.

O programa é formulado para promover diversos momentos em que o adolescente ganha espaço para autoconhecimento, escolhas e ferramentas para traçar o caminho possível entre o que desejam para si e para o mundo no futuro. 

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

 

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