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Como o afeto e a experiência afetam a educação, com Jorge Larrosa

4 de novembro de 2021

Convidado internacional do 3º Congresso LIV Virtual, o espanhol Jorge Larrosa nos presenteia com suas falas sobre educação e docência. Leia a seguir os melhores momentos de sua entrevista!

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Professor de Filosofia da Educação na Universidade de Barcelona, na Espanha, Jorge Larrosa é uma inspiração para educadores em todo o mundo. Doutor em Pedagogia e membro de conselhos de redação e comitês científicos de revistas internacionais, ele escreveu diversas publicações que questionam o papel da educação na sociedade e abordam os desafios reais da docência.

Entre suas obras, destacam-se Linguagem e educação depois de Babel; La experiencia de la lectura: estudios sobre literatura y formación; Pedagogia profana; e com Carlos Skliar, Habitantes de Babel: políticas e poéticas da diferença. Grande conhecedor e apreciador da cultura brasileira, Larrosa também foi o primeiro tradutor do escritor Manoel de Barros para a língua espanhola.

Durante o 3º Congresso LIV Virtual, Larrosa concedeu uma entrevista à psicóloga e gerente pedagógica do LIV Joana London, na qual falou sobre como a educação tem sido transformada nos anos recentes e sobre a necessidade de se pensar em uma escola mais pautada na experiência.

“A educação não está nem para o indivíduo, nem para a sociedade, mas para o mundo, para a transmissão, a comunicação e a renovação do mundo. Paulo Freire diz: ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens educam-se entre si pela mediação do mundo”, disse durante a conversa.

No vídeo a seguir, você pode assistir a entrevista completa de Larrosa ao LIV. Já no texto abaixo, você confere os destaques de sua fala:

Jorge Larrosa e o papel da educação

“Eu entendia meu trabalho como uma operação sobre a linguagem. Tanto sobre as palavras com as quais a gente fala do nosso assunto, como também sobre as palavras com as quais a gente fala sobre o nosso ofício, da materialidade concreta do ofício de professor. Eu percebi desde muito cedo que estava tendo lugar uma colonização econômica da língua da educação, com palavras como inovação, qualidades, recursos ou resultados, que são palavras mais da empresa do que da sala de aula. Também uma colonização do vocabulário educativo, sobretudo da psicologia cognitiva. Toda essa retórica das competências, do aprender, o aprender a aprender, como se a escola fosse uma máquina de produzir aprendizagens […]. 

A experiência tem a ver com a formação e a transformação do sujeito. Uma educação mais experiencial seria uma educação mais vital, que tem a ver com viver mais intensamente, com que a nossa vida seja mais viva, que esteja mais cheia de vida, e de uma vida também, por que não dizer, mais consciente, mais inteligente, mais interessante […].

Pensar uma escola mais rica em experiências, mas também pensar experiências mais ricas no mundo. A educação não está nem para o indivíduo, nem para sociedade, mas para o mundo; para transmissão, a comunicação e a renovação do mundo. […] As pessoas educam-se entre si pela mediação do mundo. Isto é, o que está no meio é sempre o mundo ou algum fragmento do mundo”.

A escolarização e o individualismo

“Eu acho que um dos maiores problemas que a escola está enfrentando neste momento é a falta de interesse das crianças e dos jovens por qualquer coisa que não sejam seus próprios umbigos. E, portanto, a tarefa do professor, que foi sempre abrir o mundo, fazer o mundo interessante, é uma tarefa cada vez mais difícil. 

A matéria de estudo tem que ser interessante nela mesma, não tem que ser um instrumento para outra coisa, mas tem que ser interessante nela mesma. Mas isso só pode acontecer quando o sujeito abandona o centro, quando o sujeito deixa de se achar o centro do mundo, quando deixa de estar centrado em si mesmo e se abre para o exterior. Porque ali na escola o que está no centro não é o aluno, nem o professor, mas o mundo […]. 

Toda professora, todo professor sabe que a tabela periódica dos elementos, um teorema, um extrato, uma montanha, uma etimologia ou um pedaço de cerâmica são capazes de revelar o mundo. E todo professor fica emocionado de saber que seu trabalho valeu a pena quando é capaz de transmitir aos seus alunos esse amor que ele ou ela tem por todas essas coisas”. 

Os impactos do ensino remoto na educação

“As tecnologias escolares estiveram sempre ligadas à presença e ao corpo. À escola você tem que ir e na sala de aula você tem que estar de corpo presente, junto a outros corpos. Esse estar junto a outros corpos é muito importante porque, como vocês sabem, a atenção é maior quando é uma atenção compartilhada, e a beleza é maior quando é uma beleza compartilhada. 

Nada mais triste do que uma pessoa sozinha, olhando as cores de uma tarde de outono, ou lendo um poema que ama. E nada mais lindo do que alguém compartilhando com alguém as cores de uma tarde de outono, uma música, ou um poema que ama. 

Essa ansiedade que todos nós temos por compartilhar com as pessoas com que amamos as coisas que amamos, as borboletas, as cores, as músicas, os poemas, as montanhas, o que for, eu acho que tem muito a ver com essa característica da escola, que tem a ver com que, na escola, você tenha que estar de corpo presente, compartilhando o espaço, compartilhando a materialidade do espaço e compartilhando atenção com outros corpos atentos […]. 

Eu penso que a tarefa da escola continua sendo, hoje, exatamente a mesma: mostrar às crianças do que é feito o mundo, para que sejam capazes de se interessarem por alguma coisa, porque das crianças depende o futuro do mundo. Antes da pandemia, a tarefa da escola era essa e, depois da pandemia, a tarefa da escola continua sendo a mesma […]”. 

O papel da educação para a sociedade

“Paulo Freire utiliza de um jeito muito interessante a palavra ‘admiração’. Ele diz que a educação tem a ver com emergir do mundo do qual você está submergido e ser capaz de olhar para esse mundo a distância. Ele chama a essa distância a possibilidade de assimilar o mundo. E eu acho que vai um pouquinho por aí […]. 

Vivemos em uma época em que nós estamos presos pela pressa e pela hiperatividade da nossa época. A escola trabalha mal, ou trabalha com dificuldade, quando espera que as crianças estejam atentas a uma coisa só, quando as tecnologias e a distração deixam tudo funcionando a toda velocidade. A escola tem muita dificuldade para parar as crianças. 

As crianças vão querer ir correndo de uma coisa à outra porque eles fazem integração ao fazer isso. Eles fazem do mundo brinquedo e o mundo é um brinquedo muito interessante. Mas a tarefa do professor foi sempre parar essa pressa, essa hiperatividade, e centrar a atenção sobre uma coisa só, durante um certo tempo. 

Há um antropólogo muito famoso, chamado Rene Girard, que tem uma teoria a qual ele chama mimesis. Mimesis seria cópia, mimetizar é copiar. Ele fala da mimesis e que a gente aprende a copiar o que os outros desejam. Ele analisa algumas obras de Shakespeare, onde sempre se deseja o que as outras pessoas desejam, o objeto de desejo dos outros. Naturalmente, na mimesis, o desejo tem um uso muito perverso na nossa sociedade, porque as crianças estão aprendendo a desejar o que algumas pessoas não muito recomendáveis desejam.

Eu acho que a melhor forma de suscitar o amor e o desejo nas crianças é porque você é capaz de amar e desejar alguma coisa. Isto é, se nós somos capazes de mostrar, no sentido de fazer público, os nossos amores, aquilo para nós que é digno de ser amado, eu acho que estamos dando para as crianças e para os jovens uma lição inesquecível”. 

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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