LIV Entrevista Mia Couto: “O medo de errar é talvez o maior dos constrangimentos que nos foram impostos”

16 de setembro de 2020

Poucos escritores têm a capacidade de transpor sentimentos e emoções para a literatura como Mia Couto. Moçambicano, ele vem conquistando leitores ao redor do mundo desde a década de 1990 e já ganhou os prêmios Camões e Neustadt, tido como o “Nobel Americano”, dentre outros. 

Pensador e intelectual que nos presenteia com suas reflexões e narrativas sobre o mundo, Mia Couto conversou com Joana London, gerente pedagógica do LIV – Laboratório Inteligência de Vida sobre arte e literatura como ferramenta social e emocional, na trilha socioemocional do Festival Nova E-ducação, promovida pela Eleva Plataforma de Ensino com apoio do LIV.  

O autor concedeu também uma entrevista exclusiva ao nosso site, na qual falou sobre infância, sentimentos e sobre como entende o lugar da literatura e da contação de histórias na construção das relações. Contou também sobre seu processo de escrita e como esse ato pode contribuir para organização e acolhimento emocional. 

A seguir, você pode conferir todo esse conteúdo exclusivo, começando com destaques de sua conversa com Joana London e, ao final, com a entrevista concedida ao nosso site:

O papel da arte e da literatura para o aprendizado socioemocional

“[…] A literatura e a arte podem ajudar a escola como um modo de aprendermos idiomas, línguas e lógicas que nos fazem entrar em relação de equilíbrio com essas criaturas e esses universos que vivem dentro e fora de nós […]”.

“[…] O grande terapeuta que me tratou foi a poesia, em particular, Fernando Pessoa. Ao ler Fernando Pessoa, aos 14 anos, eu entendi que ninguém cabe em uma única pessoa, isso não é só absolutamente normal como absolutamente saudável e feliz. Aprendi como cada um de nós é tão plural, tão diverso, tão conflituoso, contraditório. E cada um de nós é falível e sujeito à derrota[…]”.

O papel do erro na educação e no desenvolvimento humano 

“[…] É preciso confortar as crianças e os adultos de que não vejam nessa ilusão de controle uma base para se pensarem felizes. E a escola deve entregar o gosto do saber, mas ao mesmo tempo ensinar a conviver com o não saber. Tanto na escola quanto na família, deveria se relativizar o que se entende por derrota. O erro na escola deveria nos permitir ensinar que somos o que somos, e somos feitos da maneira que somos por um erro. Digo como biólogo, toda a evolução foi feita em cima do erro, toda arte e poesia foi feita, como diria Manuel de Barros, no ato de ‘errar bonito’[…]”.

Olhares sobre a pandemia

“[…] Muita gente pensa que vai haver um pré e um pós, que depois desse drama do COVID-19 nós vamos despertar perante uma humanidade nova, perante um mundo novo. Eu não tenho essa percepção, eu acho que essa doença nos atingiu. Primeiro, nos atingiu como se fossemos um mundo único, simultâneo, uma aldeia global, mas sim temos hoje a percepção mais clara que de vivemos em diferentes mundo, diferentes realidades, que são díspares e tão desigualmente distribuídas que, precisamos saber que depois desse fenômeno do COVID, mais da metade da humanidade continuará a viver na miséria, continuará a não ter água portável, mais de metade da humanidade não terá acesso à internet, que é uma coisa que a gente imagina que toda gente tem, e talvez um bilhão de pessoas continuará a morrer por causa de uma outra pandemia que tem um nome tão simples, que se chama fome […]”.

[Conteúdo Exclusivo] LIV entrevista Mia Couto

LIV – Quando lemos para crianças pequenas, entendemos que abrimos caminhos possíveis para o entendimento sobre o mundo e sobre elas mesmas. Sonia Rosa, escritora brasileira, diz que lemos para que as crianças não tenham medo de se colocar no mundo, construindo, com as palavras, sua própria maneira de se dizer, de se anunciar. Como você entende o lugar da literatura e da contação de histórias na construção das relações consigo e com os outros?

Mia Couto – Vejo esse assunto como escritor e como biólogo. Mais do que a sabedoria que se infere pelo nome que atribuímos à nossa própria espécie, nós, humanos, somos criaturas produtoras de sentido. Precisamos de criar ordem em redor de nós, de dar sentido àquilo que se apresenta como caos. Precisamos de criar entendimentos e previsibilidades. É por isso que a criança até uma certa idade pede que se repita sempre a mesma história. E fica perturbada quando se altera a narrativa. Essa criança sente-se assustada porque ela precisa de se sentir que existe um chão, uma casa, uma rede estável de relações que lhe confere um lugar seguro e protegido. Só depois a criança ganha o gosto de criar, de improvisar, de se surpreender e de subverter a ordem previamente desenhada. A pergunta fatal que a criança faz a seguir àquilo que nós pensávamos ser o final da narração. Ela pergunta “e depois?. E esse “e depois” é uma indagação infindável. Essa insaciável curiosidade nasce da nossa condição historicamente criada nas centenas de milhares de anos em que fomos caçadores. Um caçador é um contador de história. Quando ele chega da caça não se espera apenas que trata uma presa. Pretende-se que ele conte as peripécias da sua aventura. A caça só se torna completa se preenche esse imaginário  

 

LIV – Em uma entrevista, você disse que o seu processo de escrita é sem intenção e o que te encanta nele – referindo-se sobre seu livro “O gato e o Escuro” – é surpreender tanto a escrita como a língua em estado de infância. No LIV, proporcionamos aulas nas quais não há a exigência de respostas certas. Como você acredita que a não expectativa de resultados específicos pode contribuir para a inventividade e a criatividade?

Mia Couto – O medo de errar é talvez a maior dos constrangimentos que nos foram impostos. A família, a escola, a sociedade constituem uma espécie de confraria que condena e penaliza o erro de forma tão absoluta que nos esquecemos que a própria vida se foi fazendo porque houve desvios, houve lapsos e desacertos. A nossa vida pessoal e o curso da própria Vida foi feito graças ao jogo daquilo que alguns biólogos chamaram de equilíbrios pontuados. Na maior parte do tempo a evolução biológica foi feita de caos, de tensões e de dramáticos desacertos. A mutação genética é o resultado de um erro na replicação celular. Se não houvesse erro não havia diversidade. Não haveria vida. Há uma certa margem de erro que deve ser encorajada nas escolas. O estudante que erra pode estar apenas a tentar chegar ao destino por caminhos diferentes. É vital que os jovens aprendam o prazer de ler. Mas talvez seja mais importante ainda incentivar neles a capacidade de inventarem as suas próprias histórias. Alguém separou a criatividade da inteligência, a intuição do raciocínio, a memória da imaginação. Seria bom não darmos tanta importância a essas fronteiras. É bom que não se crie essa aversão ao erro. Manoel de Barros enaltece a capacidade de errar quando diz que a poesia nasce do errar bonito.  

 

LIV – Quando você fala do seu primeiro livro publicado, “Terra Sonâmbula”, você diz que foi o único livro que você escreveu a partir da experiência do sofrimento. Você entende que a escrita pode ter função de elaboração do que se sente? Em outras palavras, como a escrita pode contribuir para uma organização e/ou acolhimento emocional?

Mia Couto – Na primeira das respostas já falei na minha resistência a essa oposição binária entre sentir e pensar. Desconheço a fronteira entre imaginar e raciocinar. Há toda uma cultura que privilegiou a escrita e desqualificou a oralidade. Eu cheguei aos livros depois de escutar as histórias, de ouvir as canções, de me deleitar com a declamação. Criou-se uma espécie de primazia absoluta da escrita como se a oralidade existisse como uma característica cultural dos povos primitivos. Um dos propósitos que me faz escrever histórias é restabelecer pontes entre a escrita e a oralidade. A palavra grafada só me interessa se eu ao ler reencontro as vozes que estão mais próximas da emoção e do sonho.  

 

LIV – Elena Brugioni, pesquisadora do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, afirma que o aumento de visibilidade e circulação internacional das literaturas produzidas na África não acarretou, necessariamente, na desconstrução de estereótipos e visões reducionistas sobre o continente. Assim, a permanência de um olhar colonial contribui com o que Chimamanda Ngozi chama de “perigo da história única”, um tema abordado no material do LIV. Como o acesso a uma diversidade de vozes narrativas (na literatura e nas artes) garante uma ampliação de perspectivas sobre o mundo? Qual a importância dessa polifonia na formação de crianças e jovens comprometidos com a construção de uma sociedade mais plural?

Mia Couto – Nas cosmogonias africanas essa pluralidade de vozes e de autorias mantém-se viva e dominante. O contador de histórias é possuído pelas vozes de outros. Os mortos, por exemplo, tornam-se vivos e falam por via do contador. Os bichos, os rios, a terra, a árvore não são um simples cenário. São personagens, com alma e com histórias para contar. E todos falam pela boca do contador. Enfim, mortos, bichos e árvores e rios são coautores das histórias. Em Moçambique, ninguém chamaria de realismo fantástico a uma história que fosse contada por uma lagoa ou por uma pedra. O fato de existirem pelo menos vinte cinco línguas vivas em Moçambique ajudam a validar essa visão do mundo feita de diversidade.  
Como biólogo considero vital que as crianças aprendam desde cedo que não existe uma identidade humana pura e que somos feitos de células humanas, mas também de vírus, bactérias e outros microrganismos. A nossa parte não-humana é tão ou mais importante que a humana. De fato não se pode ver estes nossos constituintes como “partes”. O que nos faz humanos é o diálogo invisível, mas permanente entre o “humano” e o “não-humano”. Seria importante que a biologia retomasse a sua vocação inicial de “história natural”. Era assim que se chamava esta disciplina até meados do século XC. Porque mais do que uma disciplina científica a biologia é uma narrativa que deve ser ensinada nas escolas como uma história: a mais bela das histórias que é a da própria vida. Se uma criança aprende, desde cedo, que o seu corpo é feita de uma infinita pluralidade de criaturas ela percebe que a diversidade não é um conceito, não é uma realidade exterior. Ela percebe que só existe porque dentro dela não existe algo que se possa chamar de “pureza”. Ao contrário, somos feitos de mestiçagens e de trocas entre criaturas absolutamente díspares. Uma criança que seja assim informada dificilmente se torna um racista, um fascista ou embarca em qualquer cruzada em busca da pureza rácica, étnica ou religiosa.  

 

LIV – Em seus livros, os sentimentos, sejam na infância ou adolescência, surgem com muita frequência, mesmo que não nominalmente. Na sua infância e adolescência você tinha um espaço seguro para falar de sentimentos? Como foi descobrir esse espaço dentro da literatura?

Mia Couto – A minha infância foi um tempo que me deu autorização ilimitada: a de não sair nunca do espanto da descoberta do mundo e das pessoas. Os meus pais tinham uma vida remediada, sem nenhum luxo. Mas eles deram-me a mais valiosa das prendas: eternizaram a minha infância. E sugeriram que o próprio mundo está em permanente nascimento. A minha mãe era uma contadora de histórias não apenas porque conhecia o patrimônio de lendas e fantasias da sua pequena aldeia, mas, sobretudo, porque ela transformava tudo em histórias. O mais banal dos eventos convertia-se num episódio fascinante. Ela não conhecia a fronteira entre a realidade e a invenção, entre o que era público e íntimo. Ela parava na rua e toda a criatura anônima se convertia numa pessoa. Ela ganhava intimidade com o mais desconhecido dos cidadãos e trazia para casa uma manancial de confissões e de segredos alheios. Eu e os meus irmãos nunca nos cansamos de a ouvir lembrar os nossos episódios familiares. Porque os recriava de tal modo que escutávamos sempre pela primeira vez. O meu pai era um intelectual, um poeta, um homem de esquerda que sonhava com outros mundos. Mas foi a minha mãe, mulher de pouca escola, que mais me fez ser escritor. 

 

Assine nossa news

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comentários
Maria Auxiliadora Ruyvace Fernandes Namora.

Agradecida pela oportunidade. Muito bom.

Amauri Bartoszeck

Bela carreira de Mia Couto, sempre inclui algo biológico na sua literatura, pouco lido no Brasil, preseumo

CLÁUDIA REGINA DOS ANJOS

Excelente reflexão.