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Criança sorrindo e abraçando o boneco do personagem Geraldo, ilustrando como os personagens do LIV apoiam a expressão e a regulação socioemocional

Como os personagens do LIV ajudam as crianças a expressar emoções: a história de Felipe e Geraldo

Os personagens do LIV são recursos de expressão e de regulação emocional que ajudam as crianças a identificar, a nomear e a expressar sentimentos e vivências do cotidiano escolar e familiar. O Geraldo, o Tomás, a Fernanda e outros personagens fazem parte da rotina dos estudantes que vivenciam a metodologia em sala de aula.

Por meio das histórias e das vivências propostas pelo programa, eles criam oportunidades para dialogar sobre sentimentos, relações e dilemas que fazem parte da infância.

Mas, em alguns momentos, esse vínculo ultrapassa os muros da escola. Foi o que aconteceu com Felipe. Em 2025, após receber um diagnóstico de saúde e precisar passar por um período de tratamento e hospitalização, ele encontrou em Geraldo uma companhia para enfrentar o medo, a distância da rotina escolar e as diferentes emoções que surgiram nesse processo.

Neste artigo, vamos contar essa história e entender por que esses recursos simbólicos podem se tornar importantes instrumentos de expressão, de elaboração e de pertencimento na infância. Para nos ajudar a compreender esse processo, conversamos com Iris Casazza, Consultora Pedagógica do LIV, que explica como o imaginário, o faz de conta e os vínculos construídos com os personagens podem se conectar às experiências reais das crianças.

O papel do recurso de expressão emocional no desenvolvimento infantil

Na infância, reconhecer e comunicar o que se sente é um aprendizado construído gradualmente. Nem sempre, uma criança consegue dizer, de forma direta, que está com medo, frustrada, insegura ou com saudade.

É nesse espaço que histórias, brincadeiras e personagens podem assumir um papel importante. Ao acompanhar o que um personagem vive, falar sobre suas escolhas ou imaginar como ele se sente, a criança encontra outras formas de se aproximar das próprias experiências.

Segundo Iris, essa relação é mais complexa do que uma simples identificação com o personagem. Ela envolve também a construção da identidade, o estabelecimento de vínculos e as projeções que a criança faz a partir daquilo que vive. Iris explica que:

“É também no espaço das ações lúdicas e do faz de conta que a criança reelabora suas experiências cotidianas, atribuindo sentidos ao que vivenciou, observou ou conheceu”

Embora essa relação se desenvolva predominantemente no campo do imaginário, ela mantém uma conexão direta com a realidade. Os elementos presentes nas histórias e nas brincadeiras podem contribuir para a elaboração de experiências reais, permitindo à criança explorar sentimentos, relações e acontecimentos que fazem parte da própria vida.

Assim, falar sobre um personagem pode ser, muitas vezes, uma maneira indireta e acolhedora de falar sobre si. Esse processo vai além de encontrar palavras para uma emoção: por meio das projeções, o personagem pode favorecer reflexões e elaborações mais complexas, criando caminhos para que a criança se aproxime daquilo que ainda não consegue compreender ou expressar plenamente.

No LIV, esses personagens aparecem em vivências compartilhadas com professores e colegas e passam a integrar o repertório da turma. Ao longo das narrativas, os estudantes entram em contato com diferentes situações, reconhecem emoções e constroem possibilidades para expressá-las.

No caso de Felipe, a presença de Geraldo assumiu uma dimensão ainda mais profunda. Assista ao vídeo do depoimento a seguir para conhecer essa história completa:

Como Geraldo acompanhou Felipe durante o tratamento de saúde?

O Felipe é descrito como uma criança alegre, extrovertida, empática e com facilidade para fazer amizades. Em 2025, sua família recebeu um diagnóstico desafiador: Felipe precisaria passar por um tratamento de saúde que incluía exames, internação e uma cirurgia.

Além das preocupações com a saúde física, a família enfrentava uma grande apreensão em relação ao bem-estar emocional do menino. A mãe, Lízia Rachel Ferreira, conta que:

“Um dos medos que eu mais tinha na época do diagnóstico, claro, fora o diagnóstico em si, descobrir o tumor, era o emocional. Eu tinha muito medo de perder o emocional dele.”

Foi durante esse período que Geraldo, personagem que Felipe já conhecia por meio das aulas do LIV na escola, passou a acompanhá-lo também no hospital e em casa. Para a mãe, sua presença trouxe um conforto inestimável:

“O Geraldo, estando presente nesse momento, foi como se ele dissesse assim pra mim: corre atrás da saúde física, que o emocional eu sustento.”

A passagem de Geraldo da escola para outros espaços da vida de Felipe ajuda a compreender como um personagem pode adquirir novos significados a partir de uma relação que já vinha sendo construída.

Iris explica que, quando um personagem que faz parte do cotidiano escolar acompanha a criança fora desse ambiente, ele pode se tornar uma referência afetiva e simbólica, colaborando para estabelecer uma conexão entre o ambiente escolar e suas vivências pessoais. E ela completa dizendo:

“O personagem pode carregar significados relacionados às relações, às aprendizagens e aos sentimentos vivenciados pela criança, tornando-se uma referência à qual ela recorre para lidar com determinadas situações”.

Foi o que aconteceu em diferentes momentos do tratamento. Antes da cirurgia, Felipe conta que estava com medo e que encontrou em Geraldo uma forma de reunir coragem:

“Eu ia reclamar, eu ia chorar, eu ia fazer tudo, reclamar por causa da cirurgia que eu ia fazer. Só que aí eu olhei pro Geraldo, abracei ele e aí eu tive coragem e fui fazer minha cirurgia.”

Esse gesto ajuda a visualizar aquilo que acontece no campo simbólico. Ao pedir que o procedimento fosse realizado primeiro no personagem, Felipe encontrou uma forma de representar a experiência antes de vivê-la diretamente.

Como explica Iris, em situações desafiadoras, essa presença pode favorecer a expressão de sentimentos como medo e angústia:

“Por meio da projeção no personagem ou da relação com ele estabelecida, a criança encontra outras formas de representar o que está vivenciando, atribuir sentidos às suas experiências e buscar diferentes formas de comunicar suas emoções”.

Geraldo não precisava fazer o medo desaparecer magicamente. Seu papel estava justamente em oferecer uma possibilidade de mediação: um caminho para representar, comunicar e elaborar aquilo que estava acontecendo.

O que Geraldo representou durante a hospitalização de Felipe?

No caso de Felipe, Geraldo não era um personagem que surgiu apenas durante a hospitalização. Ele já fazia parte de sua rotina e das experiências compartilhadas na escola. Por isso, quando passou a acompanhá-lo durante o tratamento, carregava consigo uma história construída anteriormente.

Como explica Iris, ao levar um personagem para outros contextos, “a criança não transporta apenas um objeto ou uma figura conhecida, mas também tudo que construiu em torno dele”.

Isso incluía, no caso de Felipe, as histórias, as aprendizagens, os sentimentos e as relações associados à rotina escolar. Dessa forma, Geraldo também se tornou um ponto de continuidade entre dois momentos muito diferentes da vida da criança: a convivência cotidiana com professores e colegas e o período de tratamento, marcado pelo afastamento dessa rotina.

Essa vivência demonstra a profunda relação entre os personagens e a construção do sentimento de pertencimento. Quando histórias e vivências são compartilhadas por uma turma, elas passam a integrar um repertório comum.

Assim, mesmo longe fisicamente da escola, Felipe podia continuar ligado a algo que fazia parte daquele coletivo. O personagem preservava, de alguma forma, os vínculos construídos naquele espaço e oferecia uma referência de segurança e continuidade durante um momento de mudança.

E, se Geraldo esteve com Felipe durante o tratamento, o personagem também participou do movimento de retorno à escola. Enquanto o menino se recuperava, os colegas aguardavam sua volta com expectativa. Como conta Marcela Rangel, diretora geral do IDB:

“O Geraldo recebeu o Felipe e preparou as crianças da turma para o retorno do Felipe. Elas, que estavam tão ansiosas pelo retorno do amigo, também sentiram essa alegria de o Geraldo estar ali naquele momento que era tão especial.”

O mesmo personagem que havia acompanhado Felipe nos exames e na cirurgia retornava, então, ao espaço onde aquele vínculo havia começado.

Nesse processo, o cuidado socioemocional estendeu-se a toda a turma. Os colegas puderam lidar com a expectativa pelo retorno, expressar sentimentos e se preparar para acolher o amigo novamente.

Educação socioemocional também é a criação de espaços seguros de fala e de escuta

Uma experiência de adoecimento envolve dimensões médicas e familiares que ultrapassam o papel da escola. Ainda assim, o ambiente escolar pode cumprir uma função importante ao construir espaços de vínculo, acolhimento e escuta atenta.

E perceber a relação que uma criança estabelece com um personagem também faz parte desse olhar.

Para Iris, esse vínculo pode representar muito mais do que uma preferência ou um interesse lúdico. A forma como a criança interage com o personagem, as histórias que cria, os sentimentos que aparecem nessas brincadeiras e os momentos em que recorre a ele podem oferecer pistas importantes sobre seus interesses, necessidades e maneiras de compreender aquilo que vive.

Por isso, o papel do educador não é interpretar cada gesto de forma isolada, mas acolher essa relação com sensibilidade, sem desvalorizar o significado que o personagem assume para a criança ou buscar explicações superficiais.

Quando necessário, essa observação também pode orientar o diálogo com a família e a busca de apoio especializado, sempre com cuidado para não reduzir experiências complexas a uma interpretação única.

Pedagogicamente, o personagem também pode abrir novas possibilidades de trabalho. Histórias, desenhos, dramatizações, brincadeiras simbólicas e rodas de conversa podem criar situações em que questões difíceis encontram espaço para serem representadas e compartilhadas de maneira lúdica. De acordo com Iris, 

“Acolher pedagogicamente essa relação significa, portanto, reconhecer o potencial simbólico e afetivo do personagem, transformando-o em uma possibilidade de escuta, de expressão e de aprendizagem”.

Mais do que utilizar o personagem como um recurso didático, trata-se de observar o que a criança constrói por meio dele e respeitar suas expressões, sentimentos, elaborações e leituras de mundo.

Para os familiares de Felipe, contar com essa sensibilidade na instituição de ensino trouxe tranquilidade em um período incerto:

“Esse olhar desse projeto, a escola ter esse projeto pra passar pros alunos, já preocupado com o emocional dele, com a saúde mental, tranquiliza a gente”.

A educação socioemocional não busca impedir que emoções desafiadoras apareçam. O medo, a tristeza, a ansiedade, a frustração e a saudade são respostas humanas naturais e constitutivas.

O trabalho está em construir repertórios, vínculos e espaços de escuta para que as crianças encontrem formas de reconhecer, comunicar e elaborar aquilo que sentem. Na história de Felipe, uma dessas formas passou por Geraldo: um personagem que saiu da sala de aula, acompanhou um momento difícil e ajudou a manter por perto os vínculos que já faziam parte de sua vida.

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.