14/10/2026
Cuidar de Quem Cuida: Christian Dunker e saúde mental dos educadores
Em encontro do Cuidar de Quem Cuida, Christian Dunker reflete sobre a sobrecarga, os limites e a saúde mental dos educadoresO que o educador pode fazer para não esquecer de si quando tantas demandas chegam ao mesmo tempo? Em meio a tantas exigências, preservar aquilo que ainda nos toca na experiência de educar também se torna um desafio.
Essas foram algumas das questões que atravessaram a participação do psicanalista e professor Christian Dunker em uma edição especial do Cuidar de Quem Cuida, iniciativa do LIV dedicada à saúde mental e ao cuidado de todos os educadores das nossas escolas parceiras.
A partir de cartas escritas por profissionais da educação, Dunker refletiu sobre experiências presentes no cotidiano escolar: o excesso de demandas, a sensação de precisar dar conta de tudo, o medo de errar, a culpa e a dificuldade de encontrar espaço para cuidar também de quem ensina.
O que ainda nos toca na experiência de educar?
Para Dunker, o cotidiano de quem educa tem sido atravessado de maneira intensa por demandas que vêm de diferentes campos.
Questões familiares, jurídicas, médicas, administrativas, políticas e sociais chegam à escola e somam-se a uma rotina que já envolve ensinar, planejar, avaliar e construir vínculos, além de responder ao que surge de forma imprevisível.
É nesse contexto que ele afirma:
“É como se, de repente, a sociedade estivesse esperando demais, ou esperando que o educador seja uma espécie de super-herói, capaz de responder a todas as demandas sociais.”
Essa expectativa amplia o lugar ocupado pelos educadores dentro da escola. Além das responsabilidades próprias do trabalho pedagógico, eles passam a ser convocados a responder a questões que, nem sempre, podem ser resolvidas dentro da sala de aula.
Aos poucos, a sensação de precisar dar conta de tudo pode fazer com que aquilo que está no centro da experiência de educar divida espaço com uma sequência cada vez maior de demandas.
É justamente diante desse cenário que outra questão aparece: o que faz o educador continuar?
Ao comentar a carta de uma professora que dizia conhecer hoje melhor as dificuldades e as cobranças da profissão, mas que, ainda assim, gostava do que fazia, Dunker destacou algo que pode acabar ficando em segundo plano quando falamos sobre educação: “a gente valoriza pouco a resistência do educador”.
Ainda assim, na carta, a professora dizia que uma pergunta inesperada, uma descoberta ou uma brincadeira continuavam capazes de tocá-la. Para Dunker, isso revela que, apesar dos desafios da profissão, ainda há espaço para a curiosidade, para o espanto e para o encontro.
Ele também observa que quem trabalha diretamente com outras pessoas precisa construir certa distância para conseguir exercer sua função. Essa proteção é necessária diante do cansaço, da frustração e dos momentos de desconexão.
Mas há situações em que elementos cotidianos atravessam essa distância: um riso, uma descoberta, uma pergunta, uma troca. O desafio é não perder completamente a possibilidade de se deixar afetar.
O cuidado com a saúde mental não precisa ser uma demanda individual
Quando a rotina já está marcada por tantas exigências, falar em autocuidado pode produzir um efeito contraditório. Além de todas as demandas que já precisa administrar, o educador pode sentir que também deveria conseguir cuidar sozinho da própria saúde mental.
Mas essa não é a concepção de cuidado apresentada por Dunker:
“Cuidado é sempre consigo e com o outro. Cuidado é sempre no território. Cuidado é sempre em rede.”
Isso significa que reconhecer os próprios limites, compartilhar uma dificuldade ou precisar de outras pessoas não representa falta de autonomia.
Para Dunker, a expectativa de que cada pessoa seja capaz de sustentar tudo sozinha transforma o próprio cuidado em mais uma demanda individual. E quem cuida também precisa saber reconhecer até onde consegue ir. O limite, nessa perspectiva, não é o oposto do cuidado, é parte dele.
Quem cuida também precisa ser cuidado
Para os gestores e para os coordenadores, a sensação de precisar sustentar tudo pode se tornar ainda mais intensa.
Na segunda carta discutida durante o encontro, uma diretora dizia sentir que todos esperavam que ela soubesse o que fazer. Depois de acolher o estudante, apoiar a professora, conversar com as famílias e orientar a equipe, ela percebeu que não sabia com quem dividir aquilo que a situação havia provocado nela.
A frase abriu espaço para uma questão importante: quem cuida da escola pode admitir que também precisa ser cuidado?
O problema aparece quando a responsabilidade passa a significar resolver sozinho tudo aquilo que chega até você.
Compartilhar decisões e responsabilidades não significa abandonar a função de liderança. Também pode ser uma maneira de não concentrar todo o saber, toda a autoridade e todo o peso de uma situação em uma única pessoa. E isso modifica a própria ideia de cuidar. De acordo com Dunker:
“Cuidar não é resolver o que os outros estão pedindo. Cuidar é ajudar o outro a cuidar de si.”
Nessa perspectiva, o cuidado deixa de ser uma resposta pronta oferecida a quem pede e passa a ser um apoio para que cada um desenvolva os próprios recursos diante do que vive.
Cuidar também exige tempo
Há ainda uma dificuldade que atravessa muitas dessas situações: a urgência.
Uma família quer uma resposta imediata. A escola precisa resolver um conflito. Há mensagens esperando, casos para acompanhar, reuniões, relatórios e decisões.
Nesse cenário, Dunker chama atenção para algo aparentemente simples, mas cada vez mais difícil de sustentar: “Cuidado custa caro e custa tempo”.
Nem toda situação encontra uma resposta imediata, nem todo conflito pode ser resolvido no instante em que acontece, nem todo sofrimento desaparece depois de uma conversa.
Para Dunker, o cuidado está ligado à experiência, e nem todas as experiências acontecem no mesmo ritmo:
“A escola é um lugar que todo mundo está no mesmo tempo, na mesma hora, na mesma página? Não. A gente não faz isso com os nossos alunos.”
Se reconhecemos que diferentes estudantes têm necessidades e tempos distintos para atravessar seus processos, talvez seja preciso estender esse mesmo olhar para os adultos que vivem na escola.
Como proteger o desejo de educar?
Em determinado momento da primeira carta, a professora perguntava como continuar encontrando sentido no trabalho quando “o mundo que entra pela porta da escola” parece maior do que aquilo que a escola consegue transformar.
Dunker não nega essa sensação ao dizer que “o mundo vai ser sempre maior que a sala de aula”. Mas isso não significa que aquilo que acontece dentro dela seja pequeno.
A sala de aula não precisa dar conta do mundo inteiro para produzir algo que permaneça. Uma pergunta pode continuar reverberando depois da aula. Uma conversa pode mudar a forma como alguém entende a si mesmo ou ao outro. Uma experiência vivida na escola pode ganhar significado muito tempo depois que aquele encontro termina.
É também por isso que cuidar de quem cuida não pode significar apenas ensinar o educador a suportar mais, e sim ajudar a reconhecer a existência de limites. É permitir que responsabilidades circulem. É construir espaços em que quem costuma escutar também possa falar; em que quem acolhe também possa ser acolhido; em que pedir ajuda não seja entendido como fracasso.
E, principalmente, é proteger aquilo que o excesso de demandas pode colocar em segundo plano: o desejo de educar.
Talvez não seja possível impedir que algumas demandas continuem entrando pela porta da escola. Mas é possível construir condições para que elas não ocupem todo o espaço e para que ainda reste lugar para uma pergunta inesperada, para uma descoberta, para uma troca, para um riso e para tudo aquilo que faz alguém se lembrar de por que escolheu estar ali.
O encontro com Christian Dunker fez parte do Cuidar de Quem Cuida, iniciativa do LIV que cria espaços de acolhimento, de escuta e de reflexão para todos os educadores das nossas escolas parceiras.
O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.