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Toda dificuldade precisa de uma resposta? Um olhar sobre saúde mental, medicalização e convivência

Descubra como a hipermedicalização afeta a saúde mental de crianças e adolescentes e veja o papel da educação socioemocional na construção de recursos de convivência. Leia mais!

Vivemos em um tempo em que quase tudo parece pedir uma resposta imediata: um clique entrega informação, uma mensagem pode ser respondida em segundos, um  aplicativo ajuda a organizar a rotina. Diante de um incômodo, também é comum esperar que exista uma solução rápida para fazer aquilo passar.

Essa lógica também atravessa a forma como lidamos com a saúde mental.

Nos últimos anos, os diagnósticos, os tratamentos e as discussões sobre saúde mental ganharam mais espaço na sociedade. E esse movimento representa avanços importantes, porque falar mais sobre o assunto ajuda a ampliar o acesso à informação, diminuir o silêncio e reconhecer sofrimentos que, durante muito tempo, foram ignorados.

Mas existe outra pergunta que também precisa fazer parte dessa conversa: será que toda dificuldade precisa ser imediatamente eliminada?

Não se trata de questionar a importância de diagnósticos, de medicamentos ou de acompanhamento profissional. Em muitos casos, eles são fundamentais para o cuidado. A questão é entender que a experiência humana é complexa e que nem todo sofrimento emocional ou relacional pode ser compreendido por uma única resposta.

Mais atenção à saúde mental, mas também mais complexidade

Para Rafaela Paiva Costa, Especialista Pedagógica do LIV, o crescimento das discussões sobre saúde mental precisa ser compreendido por diferentes perspectivas:

“Ele representa grandes avanços, por exemplo, avanços na nossa atenção em torno da saúde mental, como algo que não é menor em relação à saúde física, não é menos importante.”

Ao mesmo tempo, ela chama atenção para um movimento que pode acompanhar esses avanços: a hipermedicalização e a hiperdiganosticação, quando experiências humanas diversas passam a ser interpretadas cada vez mais a partir de uma lógica exclusivamente clínica.

Isso não significa que diagnósticos ou medicamentos sejam desnecessários, mas, sim, que eles fazem parte de um cuidado que precisa considerar a pessoa, a sua história e o contexto em que ela está inserida. Como explica Rafa:

“Só a medicação e só o diagnóstico não dão conta da gente compreender a realidade e, principalmente, da gente se posicionar dentro dela.”

Se a saúde mental é complexa, o cuidado também precisa ser. Por isso, além de identificar e de tratar situações que precisam de acompanhamento profissional, existe uma dimensão preventiva e educativa: desenvolver os recursos para lidar com as emoções, com as relações, com os conflitos, com as frustrações e com os desafios.

E é nesse espaço que se destaca a educação socioemocional.

Quando estar bem vira uma obrigação

Talvez uma das questões por trás dessa busca por respostas rápidas esteja na maneira como aprendemos a lidar com as nossas emoções.

“Engole o choro” é uma frase que atravessou gerações. Ela representa uma cultura emocional em que algumas emoções são mais autorizadas do que outras. 

A alegria, o entusiasmo e a confiança parecem caber melhor no cotidiano. Por outro lado, a tristeza, o medo, a frustração e a raiva, muitas vezes, aparecem como sentimentos que precisamos controlar, esconder ou superar rapidamente.

Para Rafa, essa lógica se encontra com o estilo de vida acelerado e com a pressão por desempenho:

“Isso cria na gente também uma expectativa de performar, inclusive emocionalmente. Estar todo o tempo bem, apenas sentir emoções compreendidas como agradáveis, algo que é biologicamente impossível pra gente.”

Afinal, sentir emoções diferentes faz parte da experiência humana.

Em entrevista ao podcast do LIV, o médico e escritor Drauzio Varella também falou sobre essa relação com o sofrimento e chamou atenção para uma expectativa cada vez mais presente na sociedade: a ideia de que precisamos estar bem o tempo inteiro.

Quando esperamos eliminar rapidamente qualquer tristeza, ansiedade ou desconforto, podemos perder a oportunidade de compreender o que aquela experiência está nos dizendo e de desenvolver recursos para atravessá-la.

Isso não significa romantizar o sofrimento. Algumas experiências são intensas, persistentes e precisam, sim, de cuidado profissional. Mas existe uma diferença entre acolher uma emoção difícil e deixar que ela domine a vida, e acreditar que qualquer desconforto precisa desaparecer imediatamente.

Em um recente episódio do Sinto que Lá Vem História, o médico e escritor Drauzio Varella conversou com o CEO e fundador do LIV, Caio Lo Bianco, sobre esse tema (e muitos outros). O episódio está disponível no Youtube e no Spotify.

Nem todo sofrimento precisa ser silenciado

Imagine uma criança que está tendo dificuldade para fazer amigos. Podemos perguntar: o que há de errado com ela?

Mas também podemos perguntar: o que essa criança está vivendo? Que oportunidades ela tem tido para aprender a se relacionar? Ela consegue brincar com outras crianças? Tem espaço para experimentar, errar, negociar, esperar, se frustrar e tentar novamente?

Ninguém nasce sabendo conviver. Ninguém nasce sabendo escutar, ou sabendo lidar com a rejeição, negociar um conflito ou suportar uma frustração. Esses recursos são construídos nas relações e nas experiências que temos ao longo da vida.

Por isso, quando falamos sobre saúde mental, também precisamos falar sobre os espaços em que crianças e adolescentes aprendem a estar com outras pessoas.

Rafa resume essa perspectiva ao falar sobre os recursos que podem ser desenvolvidos para além do diagnóstico e da medicação:

“A gente também pode desenvolver outros recursos, como é o caso da educação socioemocional, para ter repertório para lidar com essas experiências.”

E isso também passa pela possibilidade de viver algumas experiências desconfortáveis.

Uma perda, por exemplo, pode trazer tristeza. Uma amizade pode terminar. Uma criança pode ser excluída de uma brincadeira. Um adolescente pode receber um “não”. Um conflito pode acontecer dentro de casa.

Só que nós não precisamos transformar essas experiências em problemas que devem ser eliminados antes mesmo de serem elaborados. Precisamos criar espaços para que crianças e adolescentes possam sentir, falar, compreender e encontrar maneiras de atravessar aquilo que estão vivendo.

A adolescência: uma fase de muitas transformações

Na adolescência, essa conversa ganha ainda mais complexidade.

É uma fase marcada por transformações no corpo, nas relações, na identidade e na maneira de se perceber no mundo. Algumas referências da infância deixam de fazer sentido, as novas relações ganham importância e a busca por pertencimento pode se tornar especialmente intensa.

Rafa explica:

“A adolescência pode ser compreendida como uma fase de muitas transformações, muitos lutos, inclusive simbólicos.”

Ao mesmo tempo, o adolescente ainda está desenvolvendo capacidades importantes para lidar com situações complexas, como planejamento, avaliação de riscos e controle de impulsos.

Aqui não estamos falando que é preciso considerar todo comportamento adolescente como esperado ou ignorar sinais de sofrimento, mas, sim, que o contexto importa.

Uma mudança de comportamento, por exemplo, pode ser um sinal de que algo está acontecendo. Mas ela, sozinha, não determina um diagnóstico. Por isso, Rafa chama atenção para algo fundamental:

“Ao que a gente precisa estar atento é: qual é o nível de sofrimento que eu percebo que esse adolescente está experimentando?”

E existe uma parte dessa resposta que não pode ser encontrada apenas observando de fora.

“É só a pessoa que consegue falar sobre o seu próprio sofrimento. Então a gente precisa desse espaço de escuta para isso.”

Abrir espaço para essa escuta significa poder perguntar como aquele adolescente está, mas também observar mudanças importantes em sua rotina: isolamento, alterações bruscas de comportamento, sono, frequência escolar, desempenho e relações sociais.

Como reforça Rafa:

“Nada disso é diagnóstico, mas são indícios de que algo na saúde mental desse adolescente está sendo significativo o suficiente para gerar impacto na qualidade de vida e na satisfação dele.”

A escuta, portanto, não substitui o cuidado profissional quando ele é necessário. Ela pode ser justamente o caminho para perceber que esse cuidado é necessário.

O que a hiperconexão tem a ver com tudo isso?

As crianças e os adolescentes estão crescendo em um ambiente marcado por telas, redes sociais, comparação, disponibilidade constante e velocidade.

A tecnologia, por si só, não é a vilã dessa história. Mas o modo como nos relacionamos com ela pode transformar nossa experiência de tempo, de espera, de atenção e de convivência.

Se estamos acostumados a respostas imediatas, pode ficar mais difícil esperar.

Se estamos constantemente expostos à vida de outras pessoas, a comparação pode ganhar espaço.

Se boa parte das nossas relações acontece por meio de telas, podemos ter menos oportunidades de experimentar algumas dimensões da convivência presencial: perceber o outro, negociar diferenças, lidar com silêncios, reparar conflitos e permanecer em uma relação mesmo quando ela não é confortável.

Rafa chama atenção justamente para esse cenário:

“A gente consegue pintar bem esse cenário, mas uma coisa que a gente está construindo dentro do LIV, dentro da educação socioemocional, é como que a gente consegue também investir numa cultura de base dentro da nossa forma de conviver.”

É uma mudança importante de perspectiva.

Em vez de perguntar apenas como fazemos para reduzir o sofrimento?, podemos também perguntar:

Que relações, espaços e repertórios ajudam crianças e adolescentes a lidar com aquilo que inevitavelmente faz parte da vida?

Conviver também é uma forma de cuidado

Se queremos que crianças e adolescentes aprendam a lidar com frustrações, conflitos, rejeições e diferenças, precisamos oferecer oportunidades reais para que eles experimentem tudo isso.

É nas amizades, nas conversas em família, nas brincadeiras, nos conflitos e nas pequenas frustrações que aprendemos a conviver.

É também nesses espaços que podemos desenvolver recursos para reconhecer o que sentimos, perceber o que o outro sente, colocar e respeitar limites, pedir ajuda e reparar relações.

Para Rafa, esse é um investimento que vai além do indivíduo:

“Investir numa cultura de convivência é uma forma de investir na base dessas questões que também nos afetam individualmente, mas que são sintomas sociais.”

Antes de buscar uma resposta, talvez possamos fazer mais perguntas

O cuidado com a saúde mental também passa por reconhecer quando precisamos de ajuda profissional. É buscar avaliação quando o sofrimento é intenso, persistente ou começa a interferir de maneira significativa na vida. É compreender que diagnóstico e tratamento podem ser fundamentais.

Mas cuidar também é criar condições para que crianças e adolescentes desenvolvam recursos antes, durante e depois desses momentos.

Como lembra Rafa, precisamos pensar em um repertório que seja também “relacional, emocional, sociocultural”.

E talvez essa seja uma das contribuições mais importantes da educação socioemocional: não ensinar crianças e adolescentes a evitar tudo o que dói, mas ajudá-los a construir recursos para atravessar aquilo que a vida apresenta.

Quer continuar essa conversa?

No último Encontro com Especialista, recebemos Nanda Perim, a PsiMama, para conversar sobre uma pergunta cada vez mais presente entre famílias e educadores: por que uma geração tão conectada também pode se sentir tão sozinha?

Ao longo do encontro, falamos sobre hiperconexão, convivência, pertencimento e sobre a importância das relações para o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.

Perdeu a transmissão? A conversa completa continua disponível. Acesse o link abaixo para garantir o seu acesso ao encontro com Nanda Perim.

[GRAVAÇÃO DO ENCONTRO COM ESPECIALISTA]



O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.