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Estudantes e educadores dispostos em roda participando da dinâmica do Círculo da Confiança no LIV em sala de aula.

Círculo da Confiança: como a escuta ativa fortalece a convivência e o pertencimento na escola

Descubra como a dinâmica do Círculo da Confiança do LIV fortalece a convivência, a autonomia e a escuta ativa entre os estudantes na escola. Leia!

Com quem um estudante pode contar quando algo o preocupa? O que acontece quando ele compartilha uma dificuldade com a turma? Existe espaço e liberdade para dizer o que sente? Essas perguntas ajudam a olhar para a qualidade das relações que construímos na escola e para as oportunidades que oferecemos às crianças e aos adolescentes de se sentirem parte de um grupo.

Durante o mês de setembro, estamos promovendo o Movimento LIV pela Saúde Mental, que surgiu de uma pergunta: “Será que desaprendemos a conversar?”. O convite é refletir sobre a solidão e sobre como podemos recuperar a presença, a escuta e o cuidado nas nossas relações.

Na escola, essa reflexão passa por criar espaços em que os estudantes possam compartilhar experiências e encontrar acolhimento. É nessa perspectiva que se insere o Círculo da Confiança, uma dinâmica do currículo do LIV do Ensino Fundamental Anos Finais e do Ensino Médio, estruturada em rodas de conversa. A proposta dedica tempo à fala e à escuta atenta, com combinados importantes que orientam o acolhimento e o respeito às vivências de cada estudante.

Neste artigo, vamos falar sobre como essa atividade funciona e como ela conversa diretamente com os assuntos que permeiam o Setembro Amarelo. Para isso, vamos contar com o apoio de Evellyn Oliveira, nossa Consultora Pedagógica. Confira!

O que é o Círculo da Confiança e como ele funciona na escola?

O Círculo da Confiança é uma atividade pedagógica desenvolvida pelo LIV para promover a escuta ativa, a empatia e o acolhimento socioemocional entre os estudantes. Ele tem, entre seus objetivos centrais, o exercício da escuta ativa, a empatia, o respeito às diferenças e o fortalecimento da convivência da turma.

Na dinâmica prática, os estudantes se organizam em um círculo para que todos mantenham contato visual direto. A partir de um tema disparador ou de uma pergunta central, um objeto de fala passa de mão em mão: quem segura o objeto tem a palavra assegurada, enquanto os demais exercitam a escuta. 

Além disso, quem prefere não se pronunciar no momento pode simplesmente passar o objeto adiante. O educador, por sua vez, atua como mediador, acompanhando os acordos e garantindo que o espaço de participação de cada um seja preservado.

Os assuntos podem nascer das propostas dos próprios alunos e geralmente está alinhado ao que faz sentido para aquele grupo específico. O ato de envolver os estudantes na escolha dos temas e na elaboração dos acordos é também um exercício de responsabilidade coletiva com o cuidado do espaço escolar.

O nosso material também traz sugestões que abordam desde relações interpessoais, família, convivência no espaço virtual e experiências com erros e frustrações. Afinal, refletir sobre esses temas também é uma forma de compreender como nos relacionamos e construímos vínculos. E para Evellyn, essa construção depende da oportunidade de compartilhar os aspectos da própria história e de encontrar um porto seguro nessa troca:

“O Círculo da Confiança nos ensina que a diferença entre estar em contato com outras pessoas, participando do dia a dia da sala de aula e construindo vínculos reais com elas, é justamente a abertura de um espaço de vulnerabilidade dentro de um combinado de confiança. Nesse lugar, tem espaço para ser acolhido, escutado e respeitado por outras pessoas.”

No depoimento a seguir, temos a Laís, filha da Raquel, diretora do colégio Átilla Curumin. Laís, desde pequena, lidava com a pressão de ser a “aluna perfeita” por ser filha da diretora. 

No vídeo, ela conta como a experiência no Círculo da Confiança abriu um canal de  identificação e de empatia com a turma. Ao compartilhar suas fragilidades, Laís encontrou acolhimento e descobriu que alguns colegas também viviam coisas parecidas, mesmo que em contextos diferentes. Assista ao vídeo abaixo para conferir o depoimento completo!

Escutar é reconhecer o outro no ambiente escolar

A escuta ativa no ambiente escolar consiste em sustentar uma atenção presente e sem julgamentos, legitimando a experiência do colega sem a urgência de dar conselhos ou soluções imediatas.

Quando um colega compartilha uma dificuldade, é comum surgir aquela reação imediata de oferecer respostas, propor soluções ou rebater com uma vivência pessoal semelhante. No Círculo da Confiança, a orientação central é sustentar a presença atenta em quem se expressa, livre de interrupções, julgamentos ou da obrigação de resolver o que foi exposto.

Evellyn Oliveira destaca o tamanho que esse aprendizado carrega para o desenvolvimento socioemocional:

“A dinâmica da escuta é fundamental para o reconhecimento do outro. Quando nós escutamos alguém com atenção, legitimamos aquilo que ele traz, afirmamos que ele é importante e também reconhecemos o valor da confiança que ele precisou ter ao se abrir. Então, o fenômeno da escuta está para além de parar e de simplesmente ouvir.”

Dessa maneira, o foco permanece em oferecer o tempo necessário para que o estudante elabore suas vivências e entre em contato com outras realidades. Isso traz uma reflexão essencial para o ambiente escolar: de que forma demonstramos, mesmo nas pequenas interações cotidianas, que a experiência do outro merece nosso respeito e consideração?

Por que pertencer também significa ter o direito de não falar?

Respeitar o silêncio reconhece que a confiança é um processo gradual, além de permitir que o estudante pertença ao grupo ao escutar e observar o acolhimento dos colegas no seu próprio tempo.

Um dos acordos mais importantes do Círculo da Confiança é a premissa de que ninguém é obrigado a se manifestar verbalmente. O estudante pode participar ativamente apenas escutando a turma, sem a exigência de falar sobre suas próprias questões para comprovar o engajamento no encontro.

Essa escolha respeita o ritmo individual na construção dos vínculos afetivos. Evellyn fala que a percepção de segurança varia entre um aluno recém-chegado e aquele que já convive com o grupo há anos:

“Então, quando não ‘obrigamos’ o aluno a falar, nós reconhecemos que a confiança é construída e que ela não surge de um dia para o outro, mas, sim, nas relações no dia a dia, inclusive nos momentos em que ouvimos e percebemos como o outro quer ser acolhido. Se eu conheço a dinâmica dessa turma e conheço o acolhimento desse professor, eu posso me sentir mais à vontade para me abrir também.”

Ao observar como os colegas são acolhidos, o estudante compreende a dinâmica do grupo e avalia quando se sentirá seguro para se abrir. E respeitar essa temporalidade é parte essencial da proposta do LIV. Nós entendemos que a construção do pertencimento deve comportar os limites individuais e acolher, inclusive, o que ainda não se deseja verbalizar.

A autonomia e a importância de contar com redes de apoio

A verdadeira autonomia socioemocional envolve reconhecer a necessidade de pedir ajuda e integrar as nossas redes de apoio, indo bem além daquele mito do individualismo autossuficiente.

Seguindo esse caminho, Evellyn traz uma provocação muito importante: “A gente criou uma sociedade cansada chamando-a de independente”. Ela nos convida a questionar essa cobrança pela autossuficiência absoluta que marca a cultura contemporânea.

No cotidiano escolar, essa reflexão se traduz em atitudes práticas: saber pedir ajuda diante de um obstáculo, recorrer a alguém de confiança ou reconhecer que determinados desafios exigem construção coletiva. Essas são oportunidades de dialogar sobre a autonomia como uma competência que se fortalece nas relações interpessoais.

Nesse processo de aprendizagem, a postura das lideranças e dos adultos da escola serve como referência:

“Ensinar a essa geração que não dar conta de tudo sozinho é uma fraqueza reduz o ser humano àquilo que ele consegue produzir. Por isso, queremos construir uma educação em que nós, como comunidade escolar, também possamos contar com as redes de apoio, com as famílias e com os colegas educadores. Com esse exemplo, ensinamos às crianças que desenvolver autonomia também é saber contar com o outro.”

Ao propor a responsabilidade compartilhada pela convivência, o Círculo da Confiança exercita essa visão. Cada participante dispõe de seu espaço de fala, assumindo, em contrapartida, o compromisso ético de escutar e de cuidar dos relatos trazidos pelos colegas.

Aprender a conviver exige acolher e mediar conflitos

O desenvolvimento das relações humanas passa pelo conflito, pela frustração e pelos pontos de vista opostos. Evellyn ressalta que a equipe educadora precisa diferenciar os conflitos inerentes à convivência das situações de violência, que exigem intervenção imediata e não podem ser toleradas:

“Então, os conflitos entre as crianças e os adolescentes vão existir, mas cabe a nós, adultos, criar espaços de mediação para que as crianças e para que os adolescentes consigam construir acordos, combinados e limites para a convivência entre si.”

O exercício de escutar relatos diversos no Círculo contribui para a mediação dessas diferenças. O papel do educador, nesse sentido, é de acompanhar o grupo e de assegurar o cumprimento dos acordos, sem transformar os depoimentos em problemas a serem expostos ou julgados publicamente.

A criação desse ambiente favorece a comunicação assertiva sobre os incômodos e o respeito aos limites alheios, preservando a essência de acolhimento da atividade.

Quais são os limites entre a ação pedagógica e o cuidado psicológico?

O Círculo da Confiança possui caráter exclusivamente pedagógico e preventivo. Mas, caso surjam demandas que vão além das responsabilidades do ambiente escolar, o aluno precisa de uma abordagem diferente, que considere a atuação de um profissional de saúde mental. 

As nossas diretrizes orientam que o educador atue de forma a preservar o estudante caso venham à tona questões que não devam ser expostas diante da turma. Nesses momentos, o cuidado exige uma abordagem reservada e a articulação com a Coordenação Pedagógica, com orientadores e com outros profissionais especializados. 

Evellyn reforça esse cuidado com a exposição dos estudantes:

“As emoções, o choro, a alegria, o contentamento são bem-vindos no Círculo da Confiança, e eles podem aparecer. O nosso cuidado é preservar o aluno de exposições desnecessárias diante dos colegas.” 

Além disso, a confidencialidade possui limites claros que devem ser considerados desde o início. Os relatos que indicam o risco à integridade física ou emocional do estudante exigem a busca imediata por ajuda e por proteção, com a ciência do próprio aluno. Esses combinados garantem que a confiança inclua a clareza sobre como os adultos agirão para resguardar a segurança dos jovens.

Vale lembrar que a intensidade da manifestação emocional não mede a eficácia do encontro. Não é necessário chorar ou revelar fatos íntimos para que a roda cumpra seu papel socioemocional, uma vez que o ato de escutar com atenção e ter suas escolhas respeitadas já constitui um ganho profundo.

Como criar mais espaços de escuta e pertencimento na sua escola? Conheça o LIV e descubra como o Círculo da Confiança e outras propostas podem apoiar o desenvolvimento socioemocional dos seus estudantes.

[QUERO LEVAR O LIV PARA A MINHA ESCOLA]



O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.