Como abordar temas difíceis com crianças e adolescentes?

Como abordar temas difíceis com crianças e adolescentes

25 de julho de 2022

Psicóloga e consultora pedagógica do LIV explica os desafios de falar sobre temas difíceis, delicados ou considerados tabu. Saiba mais!

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Enquanto família, é importante proporcionar espaços de conversa onde nossas crianças e adolescentes sintam-se seguros para falar sobre si e sobre suas vivências. Mas quando surge um tema delicado ou espinhoso, isso parece muito complexo, não é mesmo? Muitas vezes, os adultos criam uma ideia do que seria o momento ideal, esperando marcos no desenvolvimento ou acontecimentos significativos na vida para falar sobre determinados temas como sentimentos, relacionamentos, doenças, luto e outros que podem parecer difíceis para a compreensão dos mais jovens.

Entretanto, sabemos que a realidade nem sempre atende à expectativa criada por nós, tornando comum que os responsáveis fiquem confusos, constrangidos e até mesmo relutantes  à abordagem de alguns assuntos. Ignorar um diálogo sobre um tema difícil, contudo, não é o mais indicado, como aponta a psicóloga e consultora pedagógica do LIV – Laboratório Inteligência de Vida – Maira Santos Maia.

“Socialmente, alguns temas são vistos como difíceis ou inadequados para algumas fases e nós, adultos, ficamos postergando iniciar uma conversa sobre eles. Mas quanto mais a gente posterga sem se preparar e sem pensar em como proporcionar um espaço de troca com a criança, podemos tornar esse momento mais difícil quando chegar a hora”, explica.

O cuidado ao falar de temas difíceis

Ao evitar determinados temas, muitas vezes falamos com as crianças apenas de um lugar proibitivo, dizendo ‘não toque nesse assunto’, ‘não fale sobre isso’ ou ‘não é coisa de criança’. Mas, segundo a psicóloga, isso pode instigar mais a curiosidade e fazer com que a criança ou o adolescente procure informação em lugares que a própria família não recomendaria, seja com seus pares ou na internet.

Vale lembrar que tudo o que é considerado tabu é construído socialmente e pode variar de cultura para cultura. Nesse sentido, é importante encontrar caminhos para abordar temas possivelmente sensíveis de acordo com a  necessidade e a maturidade da criança ou do adolescente. “É uma dualidade comum nas famílias. Elas não querem que seus filhos saibam sobre determinados temas que são difíceis de falar, mas, ao mesmo tempo, querem prepará-los para lidar com eles no momento certo”, explica Maira.

Nem sempre é fácil falar sobre assuntos difíceis

Outro ponto abordado pela consultora pedagógica do LIV é que alguns temas são constrangedores também para a criança ou o adolescente, e nem sempre é fácil para eles tirarem suas dúvidas. “Às vezes, a família está preparada para falar e a criança não. Não saber o momento certo pode ser constrangedor e invasivo para ambos os lados. A devolutiva do adulto pode ampliar ou bloquear espaços de discussão, dependendo do modo como for abordado”.

Ela aponta ainda que também pode ser difícil para o responsável se colocar em situação de vulnerabilidade diante dos mais jovens ao dizer: “eu não tenho todas as respostas, mas estou disposto a ser um adulto de confiança para você falar sobre esse e outros temas”, destaca.

Caminhos para abordar temas difíceis

Um dos primeiros pontos a se pensar quando falamos de temas difíceis ou espinhosos é que, para abordá-los, é preciso primeiro considerar o nível de maturidade da criança ou do adolescente, não apenas a idade biológica. “Não há uma idade ideal para se falar sobre certos temas, por isso, é sempre importante observar a dinâmica da relação com seu filho e o que ele está demandando naquele momento”, pontua Maira, e complementa:

“Por exemplo, se todo mundo está falando sobre uma série ou um filme que não é apropriado para a criança, e ela quer muito ver, talvez só negar o acesso não seja suficiente para sanar seu desejo por assistir  e estimular que ela pense criticamente sobre porque aquele conteúdo não é adequado. Negar sem explicações pode até levar ao efeito contrário, despertando ainda mais a curiosidade”. 

Em outras palavras, ela diz que é preciso ter cuidado com o que trancamos em um “baú do tesouro precioso”, porque esse caminho de manter um tema protegido, velado ou intocado pode instigar mais o desejo de saber sobre ele.

Por vezes, uma explicação sucinta ou uma fala cuidadosa sobre porque precisam de mais tempo ou profundidade para aquela determinada discussão pode resolver melhor do que uma simples proibição. “O adulto pode oferecer outros caminhos mais adequados para que a criança acesse a discussão despertada por aquele filme ou série. Como um livro ou outras produções audiovisuais mais voltadas para o público infantil, por exemplo”, diz Maira.

Quando pego de surpresa para uma conversa, ela recomenda que o adulto seja honesto quanto a seus sentimentos e não tente contornar os fatos para dar uma resposta imediata. “O adulto pode dizer: ‘a forma como você chegou para falar sobre isso me pegou despreparado e preciso de um tempo para pensar. Podemos falar amanhã, mais tarde ou daqui alguns minutos?’. Isso é importante para a criança entender que há assuntos que não têm uma resposta imediata. Só não pode esquecer, claro, de retornar ao diálogo. Ele precisa acontecer de fato.”, pontua.

Também é importante que essas conversas não sejam baseadas apenas na vivência do adulto e no modo como ele aprendeu determinado tema em sua infância ou adolescência. “As vivências não são iguais e essa conversa tem que estar pautada em termos adequados e usando recursos que a criança pode acessar. Quanto mais informações de fontes diversas você oferecer para a criança e o adolescente sobre um tema espinhoso, menos ele será visto como um tabu. Não deixe o assunto difícil ser o elefante na sala, vá apresentando a conversa aos poucos”. 

Nesse sentido, ela completa dizendo que é necessário que a família e a criança entendam quando um tema é difícil, sem a necessidade de disfarçar. “Não precisamos fingir que é uma conversa agradável, podemos nos colocar nesse lugar de vulnerabilidade, de mostrar que é difícil, mas que o assunto precisa ser conversado, seja porque a criança propôs ou porque surgiu em um determinado momento. Um assunto ser difícil ou doloroso não impede que ele tenha espaço para ser conversado. Se o assunto é ignorado, a criança pode restringir o que deseja falar”, conclui.

E quando os temas difíceis surgem na escola?

Sabemos ainda que, por mais que a família trate de certos temas em casa, na escola eles ganharam outra abordagem. Por isso, é sempre importante ter em mente que falar de temas que são considerados tabus no ambiente escolar não é responsabilidade apenas do professor. “Quando a gente fala de sala de aula, lidamos com o coletivo, cada aluno tem um tempo e o professor precisa contar com apoio para poder abordar adequadamente cada situação. O docente precisa estar amparado pela comunidade escolar, que inclui outros professores, a gestão e também as famílias”, diz Maira.

Nesse caso, o espaço escolar torna-se mais um lugar para exercitar o respeito às opiniões distintas do que para a simples exposição de temas. “Cada família tem sua microcultura. E é importante conversar com a criança sobre a cultura da sua família e explicar que existem outras formas de pensar e vivenciar as coisas, porque na escola essas culturas distintas se encontram. E isso é muito rico”, completa.

Um movimento de apoio às escolas

Com o LIV, as escolas são incentivadas a proporcionar espaços de conversa onde as crianças e os adolescentes sintam-se seguros para falar sobre si e sobre suas vivências, ajudando professores e famílias a lidar com momentos delicados e temas difíceis. Para isso, o programa inclui formação pedagógica aprofundada e atividades com leituras, dinâmicas e conteúdos audiovisuais que ajudam os alunos a exercitar o pensamento crítico e a comunicação, sempre respeitando a maturidade do aluno e a cultura da família e da escola.

E para apoiar ainda mais as escolas a criarem uma boa acolhida para os estudantes, criamos o “Movimento LIV”, que vem acontecendo com grupos de professores da Educação Infantil até o Ensino Médico, em dezoito estados brasileiros, de norte a sul do país. A iniciativa começou com rodas de acolhimento com professores com escolas parceiras com o objetivo  de abrir um diálogo especial com psicólogos e pedagogos do LIV para a fala e a escuta do que tem acontecido na comunidade escolar, que lida com a intolerância à frustração e a violência da atual realidade.

Agora, a ação transborda para outras escolas do Brasil por meio de conteúdos exclusivos voltados aos educadores. E você também pode participar desse movimento! Basta clicar aqui e baixar seu kit exclusivo e gratuito!

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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