Pensadoras que inspiram: bell hooks e a luta por liberdade e pensamento crítico

7 de março de 2022

Inspiração na área da educação, autora é conhecida por abordar, de maneira acessível, temas como liberdade, educação e pensamento crítico. Conheça mais sobre bell hooks.

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Escritora, professora e ativista social, bell hooks é uma grande referência no campo educacional e também para o LIV – Laboratório Inteligência de Vida.

Aprofundando o legado de Paulo Freire, bell hooks investigou sobre as questões de gênero, classe e raça que permeiam a sociedade e defendeu uma educação contrária a essas opressões.

bell hooks é, na verdade, um pseudônimo escolhido por Gloria Watkins, e se escreve desse modo mesmo, com letras minúsculas. O nome foi uma homenagem à sua bisavó, mas o uso das letras dessa forma foi uma escolha intencional para dar destaque à sua produção – e não à sua pessoa.

Nascida em 1952, nos Estados Unidos, a escritora viveu até 2021. Em suas obras popularizadas para diversos públicos, ela incentivou que os educadores criassem práticas para empoderar seus estudantes e valorizar as conexões afetivas, a coletividade e a liberdade.

“Trazemos bell hooks como inspiração não só porque ela fala de educação e de liberdade, mas também de amor e de pensamento crítico. Ela tem uma fala acessível e fez sempre questão de ser entendida por todas e por todos. Por isso, ela tem um papel fundamental na entrada acadêmica, extrapolando o debate sobre racismo e negritude”, pontua Juliana Hampshire, coordenadora pedagógica do LIV.

bell hooks: livros e referências

Com mais de 40 obras publicadas em pelo menos 15 idiomas, bell hooks ganhou destaque no Brasil por meio da publicação de livros traduzidos como Olhares negros: raça e representação, Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade e Ensinando Pensamento Crítico: Sabedoria Prática.

Alguns desses livros abordam “ensinamentos” para serem aplicados dentro e fora da sala de aula sobre pedagogia engajada, descolonização, humor, lágrimas, autoestima, vida intelectual, espiritualidade e, claro, racismo e feminismo no ambiente de ensino. 

Em diferentes textos, ela dialoga criticamente com Paulo Freire para construir um panorama da prática da liberdade através da criação de comunidades de aprendizagem marcadas pelo diálogo e por uma relação de igualdade entre professores e estudantes. Em um deles, ela disse:

A escrita de Freire deu-me uma forma de colocar a política de racismo nos Estados Unidos num contexto global, no qual pude ver meu destino ligado ao destino das pessoas negras em todos os lugares lutando para descolonizar, para transformar a sociedade”. Trecho do texto O Homem, Seu trabalho, de bell hooks.

Foi com essa lente crítica sobre as questões raciais e de gênero que ela se inspirou na Pedagogia do Oprimido e tantas outras obras de Freire. 

Mas foi em seu livro Ensinando a transgredir que ela trouxe essa influência com mais força, contando sobre sua própria educação em uma época de segregação racial e tornando-se, já adulta, referência na construção de uma educação pública e crítica nos EUA. 

Confira um trecho desse livro no qual ela fala sobre práticas pedagógicas:

“A reflexão crítica sobre minha experiência como aluna em salas de aula tediosas me habilitou a imaginar não somente que a sala de aula poderia ser empolgante, mas também que esse entusiasmo poderia coexistir com uma atividade intelectual e/ou acadêmica séria, e até promovê-la.

Mas o entusiasmo pelas ideias não é suficiente para criar um processo de aprendizado empolgante. Na comunidade da sala de aula, nossa capacidade de gerar entusiasmo é profundamente afetada pelo nosso interesse uns pelos outros, por ouvir a voz uns dos outros, por reconhecer a presença uns dos outros. 

Visto que a grande maioria dos alunos aprende por meio de práticas educacionais tradicionais e conservadoras e só se interessa pela presença do professor, qualquer pedagogia radical precisa insistir em que a presença de todos seja reconhecida.

E não basta apenas simplesmente afirmar essa insistência. É preciso demonstrá-la por meio de práticas pedagógicas. Para começar, o professor precisa valorizar de verdade a presença de cada um. Precisa reconhecer permanentemente que todos influenciam a dinâmica da sala de aula, que todos contribuem. 

Essas contribuições são recursos. Usadas de modo construtivo, elas promovem a capacidade de qualquer turma de criar uma comunidade aberta de aprendizado. Muitas vezes, antes de o processo começar, é preciso desconstruir um pouco a noção tradicional de que o professor é o único responsável pela dinâmica da sala. […] O entusiasmo é gerado pelo esforço coletivo”.  –Transcrição do livro Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade, de bell hooks.

bell hooks: inspiração para as mulheres

O olhar crítico de bell hooks para o debate contra o sexismo e sua luta para promover o feminismo através da perspectiva das mulheres negras fez com que sua obra ganhasse muitas adeptas entre leitoras, tanto no campo da educação quanto em outras áreas.

Seu primeiro livro – E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismo – versa exatamente sobre o sexismo presente no movimento ativista pelos direitos civis, onde ela critica a desvalorização de mulheres negras nesses espaços, bem como o racismo entre as feministas e o imperialismo do patriarcado. 

+ 3 livros para conhecer bell hooks

E para quem deseja saber mais sobre essa referência que inspira educadoras e educadores, recomendamos, além dos livros já citados acima, outras três obras traduzidas em português:

Reunindo a experiência de 30 anos como professora dentro e fora da sala de aula, além da própria vivência como estudante em meio ao contexto de segregação racial nos Estados Unidos, bell hooks discorre sobre os desafios que se impõem aos docentes efetivamente interessados em colaborar com a luta antirracista e com a quebra dos paradigmas da dominação. O objetivo da autora é resgatar o espírito de comunidade, que ela considera essencial para manter vivo o desejo de aprender, em estudantes e professores.

Nesta coletânea de ensaios pessoais e teóricos, bell hooks reflete sobre assuntos que marcam seu trabalho intelectual: racismo e feminismo, política e pedagogia, dominação e resistência. Em mais de vinte ensaios e uma entrevista, a autora mostra que transitar entre o silêncio e a fala é um gesto desafiador que possibilita uma nova vida e um novo crescimento.

Neste livro, primeiro volume de uma trilogia sobre o tema, a autora procura elucidar o que é o amor, seja nas relações familiares, românticas e de amizade ou na vivência religiosa. Na contramão do pensamento corrente, que tantas vezes entende o amor como sinal de fraqueza e irracionalidade, bell hooks defende que o amor é mais do que um sentimento — é uma ação capaz de transformar o niilismo, a ganância e a obsessão pelo poder que ainda dominam nossa cultura. 

Recentemente, em entrevista ao LIV, o filósofo brasileiro Renato Noguera falou sobre esse tópico e citou a autora estadunidense. Clique aqui para assistir em vídeo.

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Como sempre gostamos de mencionar, no LIV prezamos pela pluralidade em nossas fontes de ideias. Abaixo, você pode conhecer outras referências do programa:

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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