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“Meu trabalho enquanto educadora muda através da escuta empática dos alunos”

22 de novembro de 2021

Educadora e vencedora do prêmio “Professores do Brasil”, a professora Lília Melo conta em entrevista como uma situação trágica mudou sua atuação profissional.

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Formada em Letras e Artes pela UFPA, a professora Lília Melo, da rede estadual de Belém (PA), viveu em 2014 uma experiência trágica: no bairro onde dava aulas, uma chacina fez diversas vítimas, entre elas alunos e membros de sua comunidade escolar.

Diante da situação, ela se questionou: como entrar em sala para dar aulas de Língua Portuguesa após o ocorrido e ignorar o cenário arrasador que afetava a todos? Foi quando passou a desenvolver o projeto “Juventude Negra Periférica – Do Extermínio ao Protagonismo”, voltado à escuta e ao acolhimento dos sentimentos que o acontecimento provocou em seus alunos. 

O projeto ficou conhecido nacional e internacionalmente quando a educadora conquistou, em 2018, o prêmio “Professores do Brasil”, do Ministério da Educação, na categoria Ensino Médio. O feito rendeu sua indicação ao “Global Teacher Prize” – considerado o “prêmio Nobel de Educação”.

No 3º Congresso LIV Virtual ela participou de uma roda de conversa com Glória Maria, Conceição Evaristo, Lilia Schwarcz, Emicida e Lucas Veiga. No encontro, eles falaram sobre temas como sentimentos, aprendizagens, escuta e arte, dentre outros temas. Na ocasião, Lília gravou um depoimento exclusivo para o blog LIV e que você pode conferir a seguir no vídeo e nos destaques do texto abaixo:

O papel das emoções na realidade escolar: 4 perguntas para Lília Melo

  • Como foi para você perceber que as emoções precisavam estar no centro do processo de aprendizagem?

Lília Melo – “Falar sobre a necessidade de colocar as emoções dos alunos no processo de ensino aprendizagem é, primeiramente, ter que contextualizar como se dá esse projeto. Ele se dá a partir de uma grande chacina em que meus alunos e familiares são exterminados […].

A primeira pergunta que eu fiz foi: como entrar em sala de aula com um conteúdo programático que não considerava essa chacina, não considerava a perda dessas pessoas fundamentais na vida desses alunos?

Eu precisava ouvir, compreender o que eles estavam sentindo naquele momento. E foi a partir dessa escuta que nós passamos a construir um plano de trabalho voltado para atender às demandas principais desses alunos e dessas alunas nesse contexto de extermínio e de perda”.

  • Como seu trabalho como professora mudou quando você passou a escutar seus alunos falarem sobre sentimentos?

Lília Melo – “Meu trabalho enquanto educadora muda através da escuta empática dos meus alunos, quando percebo que as crises desses alunos são as mesmas crises dos meus filhos dentro de casa, quando eu percebo que a busca por uma saída está diretamente entrelaçada e emocionalmente mergulhada pelos conflitos das pessoas que eu gero e crio dentro de casa. 

Eu percebo que me importar com esse sujeito, enquanto educadora, é acreditar que existe verdadeiramente uma maneira de encaminhá-los positivamente dentro de uma estrada que tem um futuro incerto […]”. 

  • Como a escuta ativa mudou a relação entre vocês?

Lília Melo – “A relação dos meus alunos comigo mudou a partir do momento em que eles compreendem que nós estamos no mesmo barco, que somos sujeitos com os mesmos conflitos, ou seja, pessoas em processo de construção constante. E que ninguém é dono de nada, nem sabe de nada. Vamos aprender todos juntos e vamos caminhar juntos […].

Nós vamos construindo todos juntos dentro da incerteza que é esse processo, mas também da confiança de que tudo vai dar certo porque a gente está fazendo com muito amor, muita responsabilidade e a gente está dando o melhor que temos dentro desse processo. Não tem como não dar certo, ainda que não dê como a gente quer”.

  • Muitos professores têm receio de dar lugar às emoções em sala de aula. O que você diria a eles?

Lília Melo – “O receio que os professores e as professoras têm de dar lugar para as emoções dentro das salas de aula, dentro de seus espaços pedagógicos, está diretamente ligado com o preconceito que se constrói acerca desses sujeitos que estão construindo uma sala de aula heterogênea […].

Escolas públicas em periferias acolhem pessoas que já têm uma falta de estrutura familiar, falta de um planejamento financeiro, falta de uma construção mais consolidada. Um educador ou uma educadora, às vezes, quer um indivíduo sentado em uma cadeira, pronto e acabado, ou seja, sem crises, sem problemas, sem maiores demandas.

Mas quando abre o espaço para o diálogo, quando a gente desconstrói as fileiras indianas e faz um círculo para que todos se olhem nos olhos, para que todos se sintam, para que eles possam falar daquilo que incomoda, que dói, que ativa uma necessidade de ser escutado, há uma falsa sensação de desequilíbrio, de desarmonia, de falta de controle.

O problema não é a falta de controle dentro desses espaços, o problema está na falsa ideia de se ter controle quando se está em um ambiente silencioso, quando se está em um ambiente em que o professor diz em qual momento se deve falar e o que deve ser dito. É aquela história de passar o exercício e ter uma grade curricular e uma grade de resposta para estar inserido no acerto.

No momento em que a gente abre para o diálogo, não há grade de resposta porque não há resposta pronta. Não há gabarito porque não tem nada acabado. Essa incerteza de onde se quer chegar faz com que o professor se sinta inseguro se vai conseguir sustentar todo o processo. É importante a gente desconstruir a ideia de que uma sala silenciosa é uma sala desorganizada, e de que um aluno que se senta no início da aula e levanta no final sem ter dito nada é o aluno perfeito. Está tudo errado, isso não vai dar em nada. 

É preciso fazer o aluno se movimentar, sair do lugar, sair da zona de conforto, falar o que tem que falar, chorar se precisar chorar. E se, de repente, essa demanda chegar em um lugar que force uma estrutura maior desse professor, ele também precisa olhar para si, admitir suas limitações e pedir ajuda de outras estruturas maiores que ele. É um momento de olhar e reconhecer que somos seres imperfeitos, limitados, mas com boa vontade de fazer uma construção diferenciada dentro desse contexto educacional”.

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O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.

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