Em vídeo, o filósofo Renato Noguera conta suas perspectivas sobre o papel da educação como catalisadora de esperanças e explica por que decidiu escrever sobre o amor. Confira!
***
Renato Noguera é doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de professor, escritor e pesquisador da filosofia africana. Também é defensor de uma mudança de paradigmas em sua área e defende caminhos para descolonizar as referências utilizadas no pensamento filosófico ocidental, muito baseado em autores de origem europeia.
Em 2021, ele participou de um webinar com o LIV, no qual falou sobre educação e afeto, e trouxe para todos os participantes perspectiva sobre o tema. Após o evento, o filósofo gravou um vídeo exclusivo para o blog do programa LIV, no qual falou sobre o papel da escola e sua visão sobre o amor, tema de seu último livro.
A seguir, você pode assistir a esse conteúdo ou conferir os principais trechos no texto abaixo. Confira!
Renato Noguera – “A escola é um território fundamental, uma instância que existe em toda a sociedade, que tem uma função educativa e uma função de preservação da saúde. O conhecimento é nutritivo. Se a gente pensar com a filosofia Orunmilá, conhecer é um ato de nutrição da nossa alma. E a escola é um território que nos habilita esse processo de aprendizado, esse processo de nutrição intelectual. E a esperança é um alimento.
A esperança é o alimento fundamental para que a gente possa resolver, enfrentar os desafios do presente e os desafios do futuro. Sem escola, a gente vai ter muito mais dificuldade de enfrentar esses desafios. E a escola é um local onde se prepara esperança”.
Renato Noguera – “O livro ‘Por Que Amamos’ foi um presente após conversas com a editora da HarperCollins e que tem relação direta com o curso que eu ministro há alguns anos na Casa do Saber. […] Isso me remetia a uma pesquisa, um estudo que eu fiz quando tinha 23 anos. Eu fazia mestrado, isso em 1996, e em uma matéria que eu fazia na USP de Filosofia e Psicanálise, eu fiz um texto sobre a metafísica do amor sexual, baseado na filosofia de Schopenhauer. Então, repetindo o título do texto de Schopenhauer, eu procurei descrever esses movimentos. Esse percurso começou desse estudo em 96, e anos depois mais tarde, ao trabalhar no curso ‘Quatro lições sobre o amor’, indo de Platão até Sobonfu Somé. Isso deixou alguns rascunhos e manuscritos. Em 2020, publicamos o livro ‘Por que amamos: o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor’”.
Renato Noguera – “A importância de citar várias perspectivas e épocas para a gente compreender o amor e para dar uma dimensão que o amor é polissêmico. Não só no seu significado, mas também na sua estrutura e nas suas conjunturas. Ou seja, o amor é o sentimento, portanto ele é um afeto, mas o amor é um ato político.
O amor também é um cimento do tecido social. O amor se comporta de múltiplas maneiras. Você pode pensar o amor politicamente. Pode-se pensar o amor de modo científico, no campo da neurociência. Pode pensá-lo filosoficamente ou no campo psíquico. No campo da psicologia e psicanálise.
A gente pode pensar o amor de inúmeras formas. A importância de apresentar épocas e perspectivas é para que a gente possa ter uma dimensão mais ampliada possível desse sentimento, desse afeto, desse ato político que é o amor. É uma coisa que eu tentei enfrentar, essa pergunta ‘Por que amamos?’ e respondo essa pergunta ao final do livro. Eu justifico porque a gente precisa passar por várias épocas, várias perspectivas, para uma compreensão mais acurada do amor”.
Renato Noguera – “Falar de amor nos dias atuais é tão importante porque a gente está indo contra uma certa ‘clicheria’ que fala do amor, mas sem tocar, sem querer se aprofundar e encarar os riscos do amor. Eu acredito que hoje é importante falar do amor para compreender os seus riscos. Em que sentido: o amor pode nos conectar com aquilo que há de mais radical e profundo em cada um de nós, os nossos fantasmas, os nossos medos.
O amor nos conecta também com medo. Essa é uma coisa importante de se dizer. O amor não pode ser encarado como um sentimento barato. O amor tem um custo de energia tão importante que talvez isso explique por que algumas organizações, algumas pessoas falam de amor e parece que a sua prática está muito descolada desse discurso. O amor, uma experiência amorosa, pode trazer coerência performática, o nosso discurso se encaixa com as nossas práticas. Isso é muito importante.
Por isso é importante falar de amor, para que a gente possa também adequar o nosso discurso às nossas ações. E nesse sentido, falar de amor hoje, assim como Bell Hooks nos diz, é um ato revolucionário”.
Renato Noguera – “Quando uma pessoa não tem experiência na culinária, na gastronomia, e tem que fazer um prato, ela recorre a uma receita. Não é errado recorrer a uma receita. Ao mesmo tempo, nenhuma receita pode prever as conjunturas. Às vezes, vai ter a diferença do peso, 120 gramas de um produto, de um alimento, e outro coloca 100 gramas, pode fazer uma diferença na combinação com a cebola, com o alho, na temperatura do fogo, no mexer da panela. Então, procurar uma receita não é ilegítimo.
Agora, é importante saber que uma receita só funciona no instante em que ela é imprimida. E nada que é imprimido no momento pode ser replicado e repetido. Tem que haver essa disposição de compreender que a gente precisa conhecer as condições em que uma coisa acontece.
E quando a gente fala de amor, talvez tenha um afeto importante: disponibilidade, estar disponível para enfrentar as colisões, os conflitos, as alegrias, as fantasias, o choque de realidade que o amor provoca. E para compreender uma coisa que é a seguinte: o sujeito amado e o sujeito amante, esses papéis se misturam. O desejo nunca vai encontrar o desejo do outro o tempo todo.
[…] É importante considerar as circunstâncias, os desafios, o que é preciso em cada momento. Eu diria que é importante ter consciência e atenção plenas para que a gente possa enfrentar esse desafio de compreensão do amor e de entender que não há receita pronta. E a receita, a gente faz no momento que a gente encontra as circunstâncias e as necessidades para amar”.
***
No programa LIV, sempre buscamos ampliar nossos conhecimentos, trazendo novas fontes e referências sobre inteligência emocional e desenvolvimento socioemocional que permitam olhar esses temas de modo mais amplo – e a conversa que tivemos com Renato Noguera que você acaba de ler é um exemplo disso.
E se você gostou desse conteúdo, indicamos também outras entrevistas recentes com convidados externos ao programa, que também nos ajudam a abrir novos horizontes. Confira alguns exemplos:
***
O LIV – Laboratório Inteligência de Vida é o programa de educação socioemocional presente em escolas de todo o Brasil, criando espaços de fala e escuta para ampliar a compreensão de si, do outro e do mundo.
Gestor do Centro de Ensino Charles Darwin
Diretor pedagógico do Colégio Paulo Freire
Coordenadora pedagógica e professora de LIV no Colégio Batista de Itabuna
Psicóloga e coordenadora do Projeto Socioemocional do Colégio Sarah Dawsey
Deixe seu comentário