O que é educação socioemocional e como ela acontece na prática

27 de outubro de 2020

Na sociedade contemporânea, a escola, assim como o ambiente familiar, tem sido lugar de referência para formação e preparação das pessoas para a vida adulta. Apesar de reconhecermos que o mundo atual é complexo demais para caber em um único currículo, cada vez mais estudiosos da área de educação defendem que as escolas não podem se pautar apenas no conteúdo acadêmico tradicional, como matemática, ciências e linguagens, mas também devem estar atentas a maneiras de contribuir para que seus alunos compreendam essa complexidade, cada um a seu modo.

É nesse contexto que a educação socioemocional demonstra sua importância. O termo é usado por pesquisadores da área de psicologia e educação desde a década de 1990, mas ganhou mais presença nas escolas apenas na última década. E, em 2019, o tema passou a fazer parte do currículo obrigatório nacional tanto das escolas públicas quanto da rede privada, por meio da BNCC.

Trata-se, muito resumidamente, de um projeto educacional que promove, além do acompanhamento curricular tradicional, também o desenvolvimento intencional da inteligência emocional e das chamadas habilidades socioemocionais, como proatividade, perseverança, criatividade e pensamento crítico, auxiliando alunos e alunas a ampliar a compreensão de si, sua capacidade de se relacionar com outras pessoas, tomar decisões e encontrar caminhos para os desafios cotidianos e futuros. 


Educação socioemocional na prática

Em palavras, parece simples pensar em educação socioemocional, mas colocá-la em prática pode ser um desafio para as escolas. Para contribuir nesse sentido, o Laboratório Inteligência de Vida (LIV) desenvolveu um currículo exclusivo que entra como suporte à criação de um pilar socioemocional nas escolas junto a turmas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio de instituições parceiras.

Atualmente, nas mais de 350 escolas que utilizam o LIV, por exemplo, as aulas voltadas para o desenvolvimento socioemocional se estabelecem como um espaço de fala e escuta na escola, em uma busca para promover atividades que buscam, sobretudo, reflexão, debate, empatia, questionamento e proatividade em diferentes campos da vida do estudante. 

O programa tem como base um conjunto de referências teóricas que reúne grandes especialistas da pedagogia,  psicologia e neurociências, bem como outras áreas do meio acadêmico, e permite às escolas que promovam essas habilidades entre seus alunos de maneira intencional, em atividades com começo, meio e fim, feitas de acordo com a faixa etária de cada turma. 

Contudo, sabemos que de nada adianta oferecer o conteúdo sem formar e acompanhar os professores e as famílias para que possam incentivar o desenvolvimento socioemocional nos diferentes âmbitos da vida das crianças e dos adolescentes. Por isso, o LIV oferece também materiais específicos para as escolas e as famílias, com livros, atividades e jogos que permitem inserir esses temas na prática do dia a dia, em casa e nas aulas.

Para exemplificar melhor, selecionamos a seguir um vídeo de um dos projetos trabalhados no Ensino Médio, chamado Rodando o Brasil, que oferece aos alunos uma seleção de depoimentos coletados em diferentes regiões do país com o objetivo de ampliar os debates mediados em sala. Confira o vídeo e, se quiser saber mais, navegue na playlist do YouTube.

 

 

A origem do debate sobre as habilidades socioemocionais

Curiosamente, foi a partir de estudos no campo da economia que as competências socioemocionais começaram a ganhar destaque e serem vistas como determinantes para o sucesso e bem-estar dos indivíduos e da sociedade. Um dos trabalhos mais importantes e conhecidos nessa área é do ganhador do prêmio Nobel de Economia, James Heckman. Em 2001, junto a uma equipe de pesquisadores, ele abalou a ideia sustentada até então de que os aspectos cognitivos eram os fatores determinantes para o sucesso no trabalho e maior ganho salarial.

Em sua pesquisa, foram avaliados dois grupos: um de pessoas que obtiveram o diploma de ensino médio por meio de um exame de equivalência (algo semelhante ao atual Encceja – Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos), e outro com pessoas que receberam o diploma de modo convencional, cursando todos os anos letivos previstos. Os primeiros resultados mostraram que ambos tinham uma distribuição de notas em um teste de QI muito parecida.

No entanto, o grupo que completou o ensino médio de forma convencional apresentou uma diferença significativa: seus salários eram maiores. Uma vez que os dois grupos tinham o mesmo nível de QI, havia algo mais explicando essa diferença. A hipótese lançada foi a de que a maior quantidade de tempo passado na escola contribuiu para o surgimento de variáveis no nível das capacidades não exclusivamente cognitivas – o que vamos chamar aqui de habilidades socioemocionais –, que demonstraram ser tão importantes na determinação do nível de rendimentos do trabalho dos indivíduos quanto o QI.

Outro estudo bastante conhecido nessa área utilizou como referência o programa de intervenção na primeira infância Perry Preschool, aplicado de 1962 a 1967 na cidade de Ypisilant, Michigan (EUA), com 58 crianças de ascendência afro-americana, em desvantagem socioeconômica e/ou QI abaixo de 85 aos 3 anos de idade. O programa apresentava características como currículo inovador baseado na interatividade das crianças com os objetos estudados; rotinas de atividade pré-estabelecidas e previsíveis; controle compartilhado de adultos e crianças sobre a escolha das atividades, privilegiando a manifestação criativa demonstrada por elas e estimulando sua capacidade de resolver problemas; e acompanhamento do progresso através de indicadores de desenvolvimento.

Durante a semana, passavam 2,5 horas por dia na pré-escola e recebiam em casa visitas semanais dos professores, que ofereciam aos pais direcionamento para estimularem seu desenvolvimento socioemocional e cognitivo. Também liderada por James Heckman, uma equipe acompanhou as crianças da Perry Preschool durante diferentes fases da vida: aos 15, 19, 27 e 40 anos de idade. Os resultados obtidos mostram que os participantes do programa apresentaram maior probabilidade de atingirem melhores notas, se formarem em idade adequada, terem casa própria, não necessitarem de assistência social, obterem maiores rendimentos e também menor probabilidade de cometerem crimes, em comparação com pessoas cujas escolas não ofereciam essa diversidade curricular.

Economicamente, a avaliação do programa mostrou que, para cada dólar gasto no atendimento realizado durante a infância, 16 dólares adicionais foram gerados para a sociedade, dos quais 7 oriundos de outros canais que não o salarial. Segundo Heckman, Maofeeva, Pinto e Savelyev (2008), o projeto de Perry Preschool agiu sobre os indivíduos operando primariamente por meio da melhora dos traços não exclusivamente cognitivos, ou seja, do desenvolvimento das competências socioemocionais, que ofereceu impactos positivos ao longo de suas vidas.

Assine nossa news

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comentários
Marisilda Sacani sancevero

Excelente texto, muito esclarecedor